O Nilo: delícias da brasilidade árabe

A rede de amigos que os garotos do Heresy prescreviam em suas canções há pouco mais de 20 anos, começa a funcionar muito bem aqui no Distrito Vegetal. Primeiro, me convidaram pra um programa na UnBTV para falar sobre o blog e comida vegeta (coisa que eu me sinto altamente desautorizado a falar, devido a maneira relaxada com que eu adoro levar essa coisa de veganismo. Acho que o veganismo paranoid vende melhor, mas tá valendo, né?). Mais informações sobre essa aventura televisiva em breve. Segundo, e o que leva a postagem de hoje: todos os restaurantes que frequentei nas últimas duas semanas apareceram inicialmente a essa vidinha ordinária como sugestões aqui nas páginas virtuais do DV. Sabor Vital, Girassol, Mangute, Sol Nascente e o Nilo. O estômago e o senso ético, bem vizinhos, agradecem.

Bem, primeiro desses que me animei a visitar foi o árabe Nilo. Qualquer coisa com gergelim e grão de bico é boa, mas esse pessoal do golfo de Aqaba tem a manha de levar esses dois ingrediente às últimas conseqüências. Mas antes, um largo parênteses.

Sempre fico me perguntando se a culinária brasileira é uma boa cozinha pra quem não quer comer carne, leite, ovo e outros galináceos. Aqui a gente tem arroz com feijão. Massa. Acarajé é um quitute fera também. Rola um vatapá, um caruru, e algumas distorções veganas que ficam muito gostosas, como a feijoada. Mesmo assim, sempre tenho a impressão que as outras cozinhas de outros lugares sempre têm bem mais opções apetitosas. E quanto mais exótico para o nosso padrão eurocentrista, melhor. Maior a chance de encontrar tofu, grãos, fibras, cereais e oleaginosas.

Ao mesmo tempo, não sei se é uma distorção da adaptação brasiliana dessas cozinhas do mundo. Aqui em Brasília me esbaldo com comida nipônica. Sushis de pepino, barquinhos e soja com arroz, yakissoba de tofu com shitake. Mas quando estive no Japão tive uma dificuldade tremenda em encontrar comidas vegeta. Só saladinha mirrada e dá-lhe fome com fuso horário trocado. Sendo bem honesto, o que salvou os dias por lá foi o subway veggie com abacate. Delícia.

Por outro lado, consigo pensar em uma porção de lugares piores para se ser vegan do que o veganismo tupiniquim. Norte da Argentina, talvez. O Chaco é duris. Haja carne e falta de grãos praquele povo. Pelo menos você pode se hidratar e passar a perna na barriga com um tererê com suco de pêra. Cada pessoa cuida de sua garrafa térmica de tererê com mais obstinação que cuidaria de uma criança. Eu também acho que crianças não são nada importantes perto daquele frescor do chaco.

Um bom parâmetro para saber se você vai comer veganamente bem, é o tamanho da cidade. Quanto mais poluição, caos, fumaça, gente estressada, trânsito esquizofrênico, falta de árvores, ausência de animais nas ruas, mar de concreto, anúncios explodindo pelos ares, mais chances você tem de encontrar coisas como pizza com tofupiry e veganrela, pão de queijo vegano e pastel de soja na esquina. Um preço alto demais, alguns diriam.

Nesse quesito, Brasília engatinha a passos largos. Se o Arrudão continua o projeto original de tornar essa cidade um lugar inabitável, as opções veganas, como vocês podem conferir nesse blog, só aumentam. Mera coincidência? Não sei não.

Seguindo com a maré nesse movimento vegan-urbanóide, conheci há alguns dias um excelente restaurante com opções veganas perto de casa. Fui num sábado no almoçar no Nilo. Sugestão da Marina, 112 norte.

O restaurante tava bem vazio e o atendimento foi bastante prestativo. Depois de conversar com o Andrei no final de semana passado sobre como ele tantas vezes tem problemas em trocar e obter informações sobre ingredientes no Rio de Janeiro, por simples má vontade e descaso da parte que quem atende, passei a valorizar mais ainda a camaradagem das pessoas que se propõem a anotar, repassar e repetir uma dezena de vezes cada pedido que eu faço. “Tá, é uma pizza de calabreza, sem calabreza e trocando o queijo por palmito, certo?”. Santa paciência.

O Nilo possui algumas poucas opções veganas, todas deliciosas. Um kibe com homus, custa 4 reais. Um sanduíche de falafel é 11 reais. Achei o preço bom pra esses dois quitutes. Caro mesmo foi o baião-de-dois árabe, o arroz com lentilhas. 22 reais, um preço desnecesário. Rola também um tabule, bolinho de falafel com salada e pasta de homus com pãozinho sírio. Eu não manjo muito de comida árabe, mas pra mim tava tudo arabicamente delicioso. Rola um rango egípcio também, mas todos os que conferi tinham carne. Se alguém manja de uma boa comida vegan com caldo de Osíris, por favor, poste aí.

Ah, eles não aceitam Visa. Ali na quadra tem um supermercado com uns caixas eletrônicos. Ficadica. O cara que nos atendeu também avisou que aos sábados eles possuem apresentação de dança do ventre, o que não me interessa nem um pouco. Mas sei que alguns freqüentadores do DV, um, mais especificamente, gosta de aproveitar suas noites copacabanas em espetáculos de dança moderna. Então, também ficadica. O que me interessa bastante é que o garçom também falou que em breve eles devem disponibilizar um esquema de buffet “como-o-quanto-aguentar”, forma de disposição alimentícia que provoca sentimentos confusos e contraditórios e que já foi alvo de análise nesse mesmo Distrito Vegetal.

Desculpem a resenha gigante. Essa coisa de trabalhar, a qual não estou muito acostumado e pretendo nunca estar, às vezes deixa a gente sem ter com quem conversar.

Serviço:
O Nilo,
112 Norte
3447-4008

www.onilorestauranteegipcio.blogspot.com

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4 responses to this post.

  1. Posted by andrei on julho 16, 2009 at 21:45

    Comida árabe (e afins) realmente é um achado para os vegetarianos, é difícil achar um lugar que não tenha pelo menos uma beringela, uma pastinha de grão-de-bico com pão árabe e um tabule. Tudo sempre delicioso. Vale pesquisar a lojinha de comida árabe da Quituart, no Lago Norte. Já tem o Sol Nascente (comida japonesa) lá, seriam duas ótimas opções.

    O que mais me interessou na postagem, porém, foi a sua relação do aumento de opções veganas com o tamanho dos centros urbanos. Você sabe que eu sempre viajo para cidades muitos pequenas, vilarejos e centros rurais do Brasil todo. Bem, não do país todo, mas pelo menos das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. Em todos esses lugares sempre é bem fácil comer (no almoço e jantar, café-da-manhã pode ser difícil, mas sempre tem frutas) refeições completamente veganas. As opções sempre são poucas, mas não teria tanta fartura se eu comesse carne, talvez duas ou três variedades a mais de pratos.

    O bom é que a carne em alguns lugares mais distantes é um luxo. Com isso, o feijão nunca tem carne, bacon e linguiça. A farofa, quando muito, tem um ovinho, nada de carne também. A salada normalmente é fraca, composta por alface, tomate e cebola, com algumas gratas surpresas (as vezes são verdadeiros banquetes). É claro que rola muita variação regional. O interior de Minas Gerais talvez seja um péssimo lugar para os veganos, assim como o litoral do Brasil todo. Mas no geral, não acho que a gente perca muito para a culinária árabe. É uma meia dúzia de pratos veganos tradicionais (homus, babaganouch, tabule, falafel, salada fatouch e pão) contra a mesma quantidade dos nossos (arroz, feijão, mandioca cozida, farofa/farinha, salada, batata frita).

    De qualquer forma, é uma parada bem maneira isso aí. Acho que cabe mais considerações suas a respeito.

    Responder

  2. Posted by Marina Corbucci on julho 26, 2009 at 23:58

    Andrei, cuidado: o Sol Nascente, na Quituart nao tem nada que seja vegano. O macarrao do yakissoba tem ovos e o molho tem caldo de carne. Certa vez quis comer lá e tive que faer toooda uma adptaçao. E ainda por cima me cobraram mais caro por isso… Nao valeu nem um pouco a pena!

    Responder

  3. Posted by andrei on julho 27, 2009 at 18:09

    mas é só pra pegar a B12 mesmo.

    Responder

  4. Posted by andrei on julho 27, 2009 at 18:11

    e marina, a tifume faz uma bandejona de sushi vegan lá se vc pedir, não precisa viver de yakisoba.

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