Girassol: tchau veganismo sacrifício, olá veganismo satisfação

Promessa é dívida. E como toda dívida, a gente enrola um pouquinho pra pagar.
Vamos a resenha dessa semana.

Há alguns raros posts atrás, comentei desse estranho mundo que mistura adultescência e restaurantes que se  vendem como naturais.  Na ocasião, destaquei o meu favorito dentre os estabelecimentos desse Distrito muito-pouco-Vegetal, o Sabor Vital.

(Fico me perguntando o que são restaurantes não-naturais? Concebo lugares com comida vegana de natureza sacana, com batata-frita com óleo de soja transgênica de latifúndio. Vai ver que esse nome é só pra omitir adjetivos. Na minha cabeça vai ficar assim: restaurantes de natureza bacana, restaurantes de natureza sacana).

Certo. Quem me conhece sabe que eu sou um cara um tanto hiperbólico e superlativo. Talvez a leitura desse blog dê algumas indicações desse sintoma. O “melhor do mundo” é uma categoria com uma mobilidade incrível na minha vida. Nesse ímpeto de empolgação favoritista, acabei cometendo uma grave injustiça. Foi minha barriga quem me avisou, uma semana depois, quando voltei ao delicioso, ao sublime, ao sensacional (eita superlativos!) Girassol, ali na 408 sul.

O Girassol entra facilmente no topo da lista de melhor restaurante da cidade. Essa história de que dois não ocupam o mesmo lugar no espaço é uma lei que a gente revoga fácil. A comida é fenomenal. O restaurante é totalmente (abertamente) vegetariano – nada de compartir espaço com carne de avestruz, tudo bem, me chame de fresco – e com uma considerável variedade de pratos vegan. Acredito que lá merece o troféu de arroz da cidade (até imaginei a tacinha dourada com a carinha do Andreas Kisser).

Há uma descrição completa dos ingredientes na bancada e as pessoas são bastante solicítas em tirar dúvidas sobre detalhes da preparação da comida. Eu costumo desempenhar esse papel de chato da galera, mas não é algo que me orgulhe. É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazê-lo, certo? Ah, ainda rola uma tortinha de cacau e uma gelatina vegetal. Também rola de ir a noite, montar um sanduíche de tofu e matar de ciúmes aquele pão-com-tomate de noites solitárias.

Mas o que eu queria comentar mesmo é que comer no Girassol me fez entrar num vortex temporal, de volta ao ano de 1999. A primeira vez que fui num restaurante vegetariano em toda minha vida. Meu pai que me levou. Naquele clima engravatado do post anterior. Eu era apenas um gordinho nerd e metaleiro que adorava comer hamburger de fast food. Bem, pensando bem, talvez não tenha mudado tanta coisa assim. Só que o hamburger hoje é de soja.

Na ocasião, paguei aquele clássico mico de pedir refrigerante nesse tipo de estabelecimento. “Só possuímos suco, senhor”, “ah, vai de laranja então”. Gostei da comida, completamente diferente do que eu estava acostumado. Lembro de acreditar piamente na minha incapacidade de um dia viver sem comer carne. O curioso é que algum tempo depois seria eu que bartlebiamente estaria declinando o churrasco da família. Só que foi tudo muito fácil.

Gosto de dizer isso pras pessoas: parar de comer carne foi uma mudança muito tranquila de hábitos que pareciam tão arraigados quanto minha constituição. Às vezes a gente não faz ideia de como não se manter o mesmo pode ser uma experiência agradável.

Sei que tem um monte de gente que adora cultivar uma visão de veganismo como sacrifício ou até mesmo fazer paralelos com da alimentação vegana com uma batalha, com uma guerra. Talvez isso faça essas pessoas se sentirem mais importantes com o que elas consideram importante. Tudo bem, mas eu não estou nem um pouco interessado em ver as coisas por essa ótica.

Pra mim, veganismo é um grande prazer, uma prática que me traz bastante alegria.  E não há nada de alegre em se sacrificar ou em cultivar sacrifício. Não acho que política alguma dê certo se não mobilizar o desejo das pessoas. É por isso que o Capital dá tão certo. E a melhor maneira de combater esses desejos-estímulos que causam tanto sofrimento (como um belo hamburger asséptico de fast-food) não é com repressão, repreensão e ressentimento, mas cultivando os desejos de coisas que achamos bonitas, interessantes e bacanas.

Ah, quase esqueci. O Girassol ainda conta com uma feirinha de orgânicos ao sábados.  Lembra da história da natureza bacana ali em cima? depois a gente conversa mais sobre isso.

Girassol.
409 Sul Bloco B
Tel: (61) 3242-1542

10 responses to this post.

  1. Posted by andrei on abril 10, 2010 at 2:05

    talvez o melhor post do blog até hoje.

    Responder

  2. Posted by bodock on abril 20, 2010 at 19:38

    O post foi bom mesmo, mas eu gostaria de alertar os bem aventurados que o lugar é, como de costume, uma facada! Se não me engano é 32 pilas o kilo.

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  3. Posted by alixe666 on julho 20, 2010 at 2:55

    é caro mais vale MUITO a pena.
    meu restaurante favorito do planeta. sério. nunca comi uma comida tão gostosa. e ainda tem o MARAVILHOSO shake de framboesa (ou de amora, tem os dois e são os dois igualmente deliciosos). é com leite de amendoas (ou castanha? ixi) e agua de côco. delicia. pra quem não consome mel é bom pedir para substituir por açucar mascavo.
    melhor bebida do planeta. eu não sou superlativa como meu bródi poney então acreditem hahahahahahahahaha

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  4. […] de uma rede de amigos como é o hardcore-punk, ou então aquela que a gente pretendia dar adeus ao veganismo de ressentimento, e todas essas ideias de sacrifícios, pureza que geralmente andam melhor de mãos dadas com ideias […]

    Responder

  5. […] – girassol- 409 sul- restaurante e pequeno empório de coisas naturebas com  opções veganas. As noites rola um rodízio de sopa muito gostoso, com opções, com menos de 7 reais você come o tanto de sopa que agüentar. Um dos melhores vegetarianos da cidade. Leia a resenha. […]

    Responder

  6. Posted by alex on janeiro 29, 2011 at 22:23

    almocei lá no girassol hoje. fazia tempo que eu já tinha ido e nem lembrava mais como era.
    muita coisa diferente, que provavelmente só lá eu comerei novamente.
    tudo muito gostoso, mas confesso que sinto falta das frituras. hehehhe…

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  7. […] por aí. Tem a galera que curte uma e-vegan-lização, assim como tem também uma galera do veganismo de autocomiseração, uma variante menos interessante de “viver é sofrer” (“comer soja é sofrer” daria um bom […]

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  8. Posted by carlos on março 22, 2013 at 11:45

    este restaurante é muito bom
    mas o que é ser vegano: é só uma questão de respeito aos animais e nós não somos animais ai não seria bom respeitarmos a nós mesmos.
    Batatas fritas produzidas cheias de venenos comprometem a vida animal do solo um eterno genocídio. Soja transgênica sabe-se lá se tem algum gen animal nela. Latifundio e minifundio que acaba com as matas e áreas de preservação permanente deixando os animais sem lugar para sobreviver.
    Acho que veganismo ainda tem muito pra melhorar, no meu entender deveria ter mais cuidado com seus princípios e filosofias. mas é só uma questão de gosto. Não dá é pra ficar fingindo que faz e no frigir dos ovos tudo pode pelo prazer de comer.
    Não vivemos para comer mas sim comemos para viver
    Shanty!

    Responder

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