Archive for agosto \26\UTC 2010

“encher o saco: a melhor estratégia da ação direta vegana”

ou…“pela extinção voluntária das gambiarras vegan” ou ainda: “novidades vegetas no Submore!”

Com o passar dos anos fui me especializando em gambiarras vegetarianas. Se você decide adotar uma alimentação estrita, não há muito pra onde correr. É isso ou aprender a cozinhar. Eu sei que a  segunda opção é mais prazerosa e mais  nutritiva, eu até descolei uns livros de receitas e já me aventurei com bolos e panquecas sem galináceos, mas devo confessar que sou uma mera marionete nas imperdoáveis mãos da preguiça.

Minha meta era, portanto, virar uma espécie de Macgyver do veganismo. Depois de guiado pelo mestre Hery (esse come até pedra se for vegan), fui responsável por dar vida a muitas aberrações por aí. Pizza de muzzarela sem muzzarela, misto-quente sem queijo e sem presunto, macarrão ao molho bolonhesa sem molho bolonhesa. Um mundo cruel, vocês devem imaginar.

Quatro dicas importantes pra quem quer se jogar nesse mundo, nessa vida bandida, da gambiarra vegan. 1) paladar é eufemismo burguês. É vegan? É gostoso; 2) comida enlatada é a sua melhor amiga. Com ela você consegue feijão, grão de bico, molho de tomate e outras delícias pra incrementar o pão seco e o macarrão sem molho;  3)Tudo fica melhor com batata-palha; e 4) Saber conversar, ter paciência e cara de pau com quem te atende é a melhor estratégia. Negocie trocas de ingredientes, pergunte pelo que mais eles tem na cozinha, peça pra inventar um prato novo.

Assim é possível extrair uma refeição vegana de praticamente qualquer cardápio. (podemos até bolar um desafio desses nos futuro, hein?)

O suprassumo da gambiarra vegana atende pela alcunha de PCO Vegan. Em alguns estados do nordeste também pode ser encontrado sob o nome de “Menina-Mocinha” ou na versão mais radical, “Cassaco Menstruado”. Trata-se da combinação extrema entre pão francês, uma lata de molho de tomate e batata-palha. A sugestão de acompanhamento é suquinho pó da morte (preferencialmente de um sabor bem artificial) numa garrafa de água mineral. Um manjar de sobrevivência que acaba saindo por menos de R$ 2 pra cada pessoa do casal.

Mas a gambiarra não pode ser o nosso horizonte, claro. ‘Ser realista e demandar o impossível’, é o que dizem né? Bem, eu tô demandando! Demandando queijo vegan que derrete, bolo de cenoura que incha, salsicha que não desmancha. Até agora nada, beleza. O punk nos ensinou que não se trata de esperar, mas de fazer, certo?

E tem várias coisas que você pode fazer pelo veganismo. Explodir o laboratório de psicologia da UnB, pixar vacas pelas ruas da cidade (achei animal quem fez isso, fica registrado  o agradecimento), adotar animais abandonados, etc. Apoio todos, mas o exercício de ação direta vegan que mais tenho aplicado é simples: encher o saco.

Importante frisar que a encheção aqui se refere à determinadas práticas específicas: enviar emails com sugestões para o lugar que você gosta de comer, trocar um lero com a gerente do estabelecimento, conversar com o pessoal que te atende, preencher as fichinhas de sugestões, essas coisas. Tudo na tranquilidade. Não confundam isso com pregação. Nada mais deselegante do que quem é vegeta sendo chatx com quem come carne. Se você acha chato aquele seu tio que vive fazendo piada ou pegando no seu pé no churrasco, não reproduza a mesma lógica, né?

Já mostramos no distrito como essa estratégia pode dar certo. Hoje temos hamburger vegan no sky’s e rolês com fartura depois dos shows de rock, graças aos emails que mandamos ao pessoal da lanchonete mostrando que nem só de açaí e batata-frita se sustenta um intestino. Por outro lado, já quebramos a cara também, o pessoal sacana do Marvin nos ignorou completamente. Pior pra lá.

Pois bem, eis que recentemente, ao pedir um rango no submore da Asa Norte (3349-4848), já preparado para aplicar todas as técnicas da gambiarra vegan, eu me deparo com uma grata surpresa: o cardápio foi modificado, dois sanduíches vegetarianos foram incluídos e um deles é vegan! Que beleza. Pão ciabatta, legumes grelhados e pasta de homus.  De muito bom gosto. Não são aquele leguminhos da lata de seleta não, são umas couve-flores bombadas, umas cenouras anabolizadas, tudo passado deliciosamente no azeite. Fino.

As gambiarras veganas no submore já tinham sido objeto de análise no nosso Distrito. Em junho de 2009, eu havia escrito (e nem me lembrava):

Você tem a opção de montar uma salada ou de montar um sanduíche. Eu geralmente peço um sanduíche, na baguete ou no pão sírio. Substituto os frios e as pastas por alface, tomate, milho, grão de bico, cebola ou se seu espírito for mais aventureiro, uva passas ou manga (urgh). Não há nenhum sanduíche quente vegetariano,o que é uma pena e um desperdício. Sempre deixo uma notinha nas sugestões pedindo sanduíches quentes sem carne.

Hoje, mais de um ano depois, conseguimos. Tem sanduíche quente vegan e vegetariano no Submore. Nem acho que foi por causa da minha encheção de saco em particular, não. Mas eu continuo sonhando com um mundo em que todo mundo encha tanto o saco que não haverá mais gambiarra. Dá até camisa: “pela extinção do cassaco menstruado”.

Serviço:
Submore, 115 norte.
Agora com opções veganas quentes.

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“Veganismo não é algo que se faz sozinho…”

Olá distrito,

Antes da gente falar da comida propriamente dita, de encher o bucho e ser feliz, gostaria que permitissem (mais) algumas digressões filosóficas e recomendações de leitura.

Trata-se do texto “Deconstructing Veganism: Commodity, Reciprocity, & the Killing Contract” do blog H.E.A.L.T.H. -Humans, Earth, and Animals Living Together Harmoniously , que eu acabei conhecendo ontem, por meio de outros blogs de filosofia e animalidade que passo a tarde fuçando enquanto finjo que faço meu trabalho.

O pequeno artigo traz muitas reflexões interessantes sobre a fetichização do veganismo (uma apropriação liberal, uma redução ao mero consumo) e aponta pro delicado perigo paternalista que se pode cair ao tentar dar agência aos animais quando pensamos a ideia de relaçõe s recíprocas.

De qualquer maneira, eu gostaria de destacar uma parte que, de alguma maneira, tem exatamente, absolutamente (só pra dar uma hegeleada nesse papinho pós-moderno) tudo a ver com a maneira que a gente conversa e pensa veganismo e libertação animal aqui no Distrito Vegetal.

“Veganism is not something one does alone, but always with and amongst others. Veganism, then, is not private act of purity and protest about consumption (or the abstaining of consumption), or about identity, but about relationships, about affiliation and solidarity. Veganism is a creative, enriching conversation, an affirmation of others, and a promise to do as little violence as is fair. Veganism as intersectional social justice can only begin with listening and can never end in identity”.

Me lembrou muito a primeira postagem desse blog, em que a gente compara o hábito de não comer carne com o de fazer parte de uma rede de amigos como é o hardcore-punk, ou então aquela que a gente pretendia dar adeus ao veganismo de ressentimento, e todas essas ideias de sacrifícios, pureza que geralmente andam melhor de mãos dadas com ideias e projetos conservadores do que libertadores.

Acho que muitas vezes, principalmente com o passar dos anos, a gente se acostuma te tal maneira a não comer asa de frango ou a não beber leite que a gente acaba reduzindo tudo isso a uma mera identidade de consumo. Mas acho que veganismo faz parte daquelas práticas que são legais serem constantemente, frequentemente, repensadas. Isso não significa paranóia, auto-policiamento e encheção de saco, por favor não me entendam mal. É mais no sentido de “por que a gente tá fazendo isso tudo mermo?”.

Boa leitura.

de volta ao distrito…

depois de um rolê pela zooropa vegetal (um tanto frustrante do ponto de vista estomacal, devo confessar), estou de volta a esse nosso distrito para dar continuidade a essa compilação de achados e pequenas descobertas de onde comer sem galináceos nessa cidade. já temos algumas novidades veganas engatilhadas.

mas antes, pra re-inaugurar as postagens em grande estilo, uma dica enviada pela nossa amiga Marina. curtam aí:

Pessoal,

acabo de ter uma grata surpresa! A namorada do meu irmão me ligou agora pra avisar que no Dudu Camargo Bar e Restaurante (http://www.duducamargo.com.br/restaurante/dudu_camargo/sobre.php) têm várias opções vegetarianas e veganas (marcadas com símbolos no próprio cardápio!), seja de sancuíches, pratos principais ou sobremesas.

O Dudu Camargo é um chefe famoso e tem vários restaurantes chiques pela cidade, portanto, não esperem um precinho camarada quando forem lá!
Mas acho que a comida deve ser de ótima qualidade e o local pode ser uma opção para ocasiões especiais.

Se forem comer por lá, não deixem de parabenizar o gerente/chefe/maitre pelas opções veganas e, principalmente, pela marcação no cardápio!

O endereço de lá é 303 sul, bloco A, loja 3.