Ômega 3, saúde e a e-vegan-lização.

Depois do estrondoso e explosivo sucesso do nosso Guia Vegano 2011, acho que está na hora de voltar para as nossas resenhas mesquinhas e reflexões baratas. O Guia continua em constante atualização e pode ser acessado e divulgado pelo link: https://distritovegetal.wordpress.com/2011/01/21/o-grande-guia-vegano-brasilia-2011/. Vou dar um jeito dele ficar mais visível aqui no blog, conforme outras besteiras menos importantes sejam postadas.

De qualquer maneira, gostaria de agradecer todo mundo que visitou e distribuiu o guia. Muitas pessoas conheceram o se empolgaram com a ideia do DV nesses últimos tempos, o que é muito bacana. Como a gente diz: veganismo é que nem punk rock, fica melhor quando a gente faz junto. E de preferência, com chimbau dobrado.

A gente também está preparando o primeiro grande evento de degustação coletiva do Distrito Vegetal. A ideia é criar rankings de categorias específicas do rango vegan na cidade. Pra inaugurar, obviamente, iremos nos debruçar sobre a maior iguaria vegana que deus não criou: “o melhor açaí da cidade”.  Consultoras especializadas já foram convocadas. Um engenheiro formado está responsável pela auditoria do experimento. Tudo será devidamente documentado e, evidentemente, postado aqui. Mais detalhes em breve.

Mas sim, vamos ao Ômega 3.

Ômega 3
Localizado ali na 413 Norte (uma espécie de Rua dos Restaurantes versão vegan? — lá, além do Ômega, temos o burger gourmet do gringo, a pizza de cogumelos da Dona Lenha e a vitamina com leite de soja do Bendito Suco), o Ômega 3 tem escalado selvagemente uma seleta lista e  se tornado um dos meus estabelecimentos favoritos do distrito.

A proposta do lugar é oferecer alimentação saudável. Minha sugestão é fugir das comidas com creatina (a menos que você queira ‘pocar’) e focar em tudo no cardápio que não possui nem o cheirinho de galináceos e outros derivados animais.

O legal é que lá você tem mais uma opção pra escolher. Poder de escolha não é uma coisa que a gente tá muito acostumado depois que resolve se alimentar veganamente, né? Ou pode até estar, se colocarmos de outra forma, estamos sempre “escolhendo não escolher”. Acho que eu prefiro encarar as coisas dessa forma, me parece menos recalcado.

De qualquer maneira, você pode ir um dia lá e experimentar o escondidinho de shimeji. Numa outra oportunidade, peça o sanduíche vegan. Se quiser ir um dia só pra comer a bruschetta (não me cobrem nenhum trocadilho infame) ou apenas tomar um açaí com paçoquinha, tá valendo também. Se não me engano, também rola um risoto, saladas e sanduíche pra montar. Achei tudo bem gostoso, bem temperado. Também rola mais uma opção de sobremesa vegana, o que faz com que a gente tire um pouco daquele gostinho de ‘soup nazi‘ toda vez que você quer comer um doce vegan fora de casa.  Rola um creme de abacate com limão, uma delícia de morango e, a minha favorita, tortinha de banana com leite de castanhas.

O que eu acho mais bacana é você ter no cardápio opções explicitamente “vegan”, escrito assim mesmo, não apenas ‘sem lactose’ ou outro termo qualquer. Pode parecer besteira, mas pra mim isso é muito importante. Afinal, essas restrições não são apenas condições que o mundo nos impôs, mas escolhas que a gente coloca pro mundo. O ômega inclusive promoveu uma semana em comemoração ao dia vegano internacional, ocasião em que eu acabei conhecendo o lugar.

Como nem tudo são (couve)flores, seria bacana se houvesse mais opções de sucos (sabe aquelas misturas extravagantes do Rio Sucos?) e o preço poderia ser um pouco mais moderado. Eu acho que os valores são jogados lá pra cima. Me parece um  sintoma da lógica de mercado aplicado a nichos específicos, mas isso é uma conversa pra outra reflexão.

Veganismo-bagunça
O que eu gostaria realmente de comentar brevemente nesse post é sobre a intricada relação entre veganismo e saúde. Esse tema foi levantado recentemente em um comentário aqui no DV, em que me pintavam como um propagador de hábitos veganos destrutivos, que vive de estragar o próprio corpo e produzir entulho para o planeta. Aparentemente, tudo isso porque a gente curte um PCO vegan.

Já não deve ser novidade pra ninguém que acompanha esse blog que a gente não enxerga o veganismo como uma prática monolítica de significados exclusivos. As motivações, razões e argumentos sobre o veganismo são multíplos. E é bom que seja assim. Nada de verdades absolutas por aqui.

Da minha parte, o foco no veganismo tem a ver mais com uma crítica ao consumo do que uma tentativa de exercício de pureza, mais com uma questão de ética de tratamento com os animais do que saúde do corpo, mais com a produção de desejos interessantes do que sublimação de impulsos desejantes.

E não que essas coisas estejam plenamente definidas e hermeticamente separadas. Tá tudo misturado: ética, política, ecologia e saúde. E sempre em disputa. Gosto de comer comida saudável e produzida/colhida localmente, assim como gosto de vir pro trabalho de bicicleta. O ponto importante pra mim  é que é uma preferência moral, não uma proibição. Proibição só gera ressentimento, infelicidade, desistência.

Alimentação saudável é um dos ingredientes do veganismo pra mim, mas apenas um deles, bagunçado com tantos outros. Uma das metas desse ano pra mim, inclusive, é investir numa vida refri free youth. Porque eu acho que refrigerante não faz bem, mas também pelo peso simbólico e político que a coca-cola possui. Mas não quero que abdicar seja sacrifício, quero me sentir bem por não tomar isso.

Tenho dúvidas se uma dieta vegana é a mais saudável de todas. Mas não tenho muitos problemas com isso. Não acredito que meu corpo se assemelhe a um templo que merece respeito. Tampouco estou disposto a jogar o jogo da coerência. Essa é a prática mais cruel pra alguém que simpatiza com o veganismo e gostaria de dar passos nessa direção. É o jogo do tudo ou nada, ou você é perfeitamente coerente com tudo que você acredita ou nada do que faz adianta. Eu tô fora disso daí, aceito as contradições do meu molho de tomate produzido por multinacionais.

Faça a coisa certa
No final das contas, mesmo com essa multiplicidade toda, parece que dá pra tirar uma coisa que é comum a todo veganismo. A gente faz isso porque acha que é a “coisa certa” a se fazer, não é mesmo? Eu acho. Agora, isso significa que a minha noção de certo deve ser empurrada pra todo o resto do mundo, em todos os contextos? Eu acho que não.

Acho importante todo mundo que se dispõe ao veganismo tomar um chazinho de humildade ontológica. O mundo não partilha dos mesmos olhos que você. A pretensão de abraçar o mundo com a minha noção de certo partilha o mesmo ímpeto colonizador que em princípio segregou humanos e não-humanos. Eu não quero promover o veganismo por meio de uma eveganlização, nunca consegui entender esse impulso cristão de querer dizer como as outras pessoas (humanas ou não) devem viver as suas vidas.

Respeitar as escolhas das outras pessoas é uma mostra importante de que você está confortável com as suas escolhas. O daniel me disse isso esses dias, e eu achei muito bonito.

Bem, já falei demais. Um pouco mais sobre o que eu penso sobre veganismo pode ser lido nos posts com a tag “reflexões”, que dá pra acessar aqui.

Ômega 3 – 413 Norte Bloco D
Telefone: 3273-1671

11 responses to this post.

  1. Posted by andrei on fevereiro 8, 2011 at 15:06

    animal, animal. destruiu.

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  2. Posted by alixe666 on fevereiro 8, 2011 at 18:11

    curti também. eu curto é uma junk food, porque afinal sou cada vez mais gordinha.
    vou tentar colocar o guia em uma aba só dele. =)

    sobre o ômega 3: sanduiche vegano (com cogumelos, hummm) é diliça. achei o escondidinho que todo mundo amou meio fedorento hehehe. e o açaí é bem gostoso, assim como a torta de banana. diz que tem açaí diet pras diabéticas, mas quando fomos lá e perguntamos o xarope diet tava em falta.

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  3. Eu provei um pouco do escondidinho e achei animal! Ele não é dos mais cheirosos porque o próprio cogumelo tem um cheiro meio louco! Comi um sunomono de shimeji no Nambei e o cheiro era bem escroto, mas o sabor sem igual! Hahaha! Alias, fikadika! Eles servem o sunomono com salmão, kani ou polvo, mas se você pedir rola de trocar por shimeji e/ou shitake! =D

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  4. Posted by Marina Corbucci on fevereiro 18, 2011 at 15:53

    No Ômega 3, se não me engano, o açaí sem açúcar é adoçado com tâmaras, nunca vi lá a opção de xarope diet (sinceramente, não aconselharia. Minha porção de veganismo preocupado com a saúde me impede de ingerir esses adoçantes artificiais demoníacos). Aliás, não teremos adoçantes artificiais demoníacos no Café Corbucci. Só açúcar (orgânico sempre que possível), melado, malte de cevada e, para aqueles que não podem comer coisas com alto índice glicêmico, xarope de agave e o puro doce das frutas (frescas ou secas).

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  5. Posted by Juliana on fevereiro 19, 2011 at 17:30

    Pirei na parte do “veganismo-bagunça”, vc descreveu bem o que eu acho Poney, mandou bem! Ah, é a juzinha de SP aqui!

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  6. […] existem os mais diferentes tipos de veganismo sendo promovidos por aí. Tem a galera que curte uma e-vegan-lização, assim como tem também uma galera do veganismo de autocomiseração, uma variante menos […]

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  7. Posted by Dessa on julho 10, 2011 at 19:47

    Ah eu já tinha lido este texto qdo dei uma lida no blog todo, uma pena pq eu vim correndo achando que era outro post, só que focado na militância. Sei lá, fui criada por uma mãe “hippie” que respeitava qualquer diferença, o que eu admirava nela e acabei me espelhando nisso e me tornado parecida, as vezes relativizando até demais a “liberdade de expressão”dos outros e aceitando coisas talvez inaceitáveis olhando agora com um olhar mais apurado ou mais preconceituoso de minha parte, que acabou achando que talvez isso tudo escondesse uma certa falta de integridade, aí não se assume algo ferrenhamente “necessário” em nome de uma “liberdade”. (Espero que tenha dado pra entender) Fato é que eu acho “bem”e”mal” ou “certo”e “errado” cafona e arrogante pq nunca deixo de pensar na possibilidade de quem estar errada ser eu.
    Mas refletindo a MILITÂNCIA nos últimos tempos – preocupantemente ou não – eu tenho achado os veganchatos necessários, não os que atuam no campo da alimentação, mas os que cobram de alguém que se pretende defensor dos animais ser vegano. Já me peguei adorando elxs estarem questionando em reniões de “defesa às baleias” se os defensores eram veganos pq de fato essa coerência é cobrada por quem vc aborda sobre o assunto seja o assassino da baleia ou a pessoa que vc está entregando o panfleto se ao perguntar”mas e as vacas”e vc disser que come, seus argumentos caem por terra e eles torcem a boca, sempre torcem, querendo ou não, Buscar certas coerências é sempre bom e umas pessoas buscam menos que as outras e algumas nem buscam, é nessa hora que o veganchato é importante, pra acelerar ou criar uma reflexão na pessoa. Eu saí do ovolacto pro vegan no meio da militância percebendo sozinha essa importância e sendo pressionada pelos policiaisveg tbm o que odiava e hoje já dou uma certa razão.

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  8. Posted by Dessa on julho 10, 2011 at 19:49

    Caraaca como eu escrevi! Pode cobrar a consulta.
    ps: o blog escolheu uma foto escrota pra mim com cara de antipática.
    kkkkkkkkkkk
    ps2: pra mim veganismo e saúde não tem nada a ver mas agora estou até com vergonha de escrever mais.

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  9. Posted by poney on julho 12, 2011 at 14:52

    mas eu acho que esse jogo da coerência só pode funcionar até certos limites, depois é um barco furado.

    sabe, você pode perguntar se a pessoa que tá pensando em baleias come vaca. mas e se ela te perguntar sobre o Ades da Unilever que você toma? ou sobre o cinema que você frequenta, ou sobre o remédio que você tomou semana passada, ou etc, etc, etc etc…

    em vez de cair nesse jogo de cobrança que ninguém vai ganhar, eu prefiro pensar “porra, que legal que tem alguém pensando em baleias, mesmo que coma vacas”. O fato de eu não comer vacas não me faz melhor do que ela.

    a cobrança de coerência (que eu acho de verdade é uma coisa que de perto não existe e a gente não deve lamentar isso, mas sim aceitar e abraçar as contradições) apenas transforma um veganismo nume exercício de pureza que além de ser mentiroso promove antipatia (e pra mim, veganismo é empatia) e segregação.

    como já disse antes, prefiro pensar no veganismo como o “menor dano que eu puder fazer”… e isso tá intimamente ligada a uma proposta ética que eu acho mais interessante, mas que não tem nada (ou quase nada) a ver com a visão hegêmonica de veganismo.

    essa parte aqui explica bem o que eu penso: “O ponto importante pra mim é que é uma preferência moral, não uma proibição. Proibição só gera ressentimento, infelicidade, desistência.”

    pra quem gosta de filosofia, dá pra sacar que tanto os “bem-estaristas” quanto os “direitos dos animais” não apresentam nada de novo em termos de ética. eu gostaria de uma coisa diferente dessas duas matrizes.

    Responder

  10. Posted by felipe Cortez on fevereiro 9, 2012 at 13:40

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