Cinco Mitos sobre Vegans

Esse é o primeiro trabalho de tradução pirata e contrabando de informação gringa do Distrito Vegetal. Como tudo aqui nesse blog, é precário, tosquinho e feito sem autorização, mas transborda empatia. Espero que seja o primeiro de muitos. Se gostarem, espalhem por aí.

Cinco Mitos sobre Vegans

Por Carol J. Adams*

Apesar do ex-presidente (dos EUA) Bill Clinton não ser tecnicamente um vegan, sua adoção ano passado de uma dieta “baseada em vegetais”, “sem carne” e “sem latícinios” – acompanhada de sua perda de 11 quilos – criou manchetes para um pequeno mas crescente movimento. Afinal, apenas 3,2% dxs estadunidenses (n.t.: alguém aí tem números do Brasil?) são vegetarianxs e apenas 0.5% levantam a bandeira do veganismo, evitando todos os produtos animais e derivados em suas cozinhas e armários.

Mas aí, o veganismo é saudável? Desmasculinizante? Difícil? Saque a real desse estilo de vida pouco usual.

1. Vegans têm problema em conseguir proteína suficiente

“De onde você tira sua proteína?” é provavelmente a pergunta que xs vegans mais devem ouvir. Mas proteína não tem que vir necessariamente de animais. Proteína vegetal não é nem incompleta tampouco inadequada – e ainda é rica em fibras, tem pouca gordura e zero colesterol. Proteína animal, que não contem fibra, é rica em gordura e colesterol, além de estar associada ao risco de doenças do coração, perda de cálcio nos ossos e insuficiência renal.

Nutricionistas concordam que adultos que consomem por volta de 2.000 calorias por dia deveriam consumir cerca de50 gramasde proteína. E o que uma vegan pode fazer? Bem, meia-xícara de grão de bico contém 6g de proteína. Meia xícara de tofu firme contém20 gramas. Um hambúrguer vegetariano tem cerca de15 gramas. Podemos chegar aos50 gramasmuito rapidamente, sem bolo de carne ou bacon.

Qualquer dieta vegana que inclua uma variedade de alimentos de origem vegetal fornece toda a proteína que um indivíduo necessita. Isso é verdade para adultos, adolescentes e, de acordo com o pediatra Benjamin Spock, até mesmo crianças. Como as nutricionistas Brenda Davis e Vesanto Melina explicam em “Becoming Vegan”, a melhor resposta a essa pergunta frequente é: “de todos os vegetais que como”.

2. Vegans têm incontáveis regras do que se pode comer

Para vegans, parece é que quem come carne é que é cheio de regras. Nos Estados Unidos e no Brasil, pessoas comem vacas, mas não cavalos, e galinhas, mas não gatos. Só que entre os hindus na Índia, as vacas são sagradas, e nas Filipinas e Coréia, a Lassie tá no cardápio. Algumas religiões proíbem comer porco, enquanto outras não. Em face dessas mais variadas normas, muitas vezes contraditórias, vegans têm apenas uma regra: Nós não comemos, usamos ou vestimos intencionalmente qualquer coisa de um animal – seja carne, couro, ovos, lá, seda ou mel.

Se o veganismo parece necessitar de um manual de instruções, é porque animais mortos aparecem em lugares inesperados. A maioria dos marshmallows contém gelatina, derivada de ossos de animais. Assim como cápsulas de remédios e filme fotográfico. Alguns lenços têm gordura animal, também. Algumas tortinhas de frutas são feitas com gordura animal. Creme dental pode conter farinha de osso. E shampoo pode ter proteína de ovo.

Claro, a lista parece seguir indefinidamente. Só que só que na sua rede de supermercados mais produtos do que nunca são simpáticos ao veganismo. Em 2011, não é difícil fazer jus ao ideal simples do veganismo: tentar fazer o menor dano possível.

3. Veganismo é desmasculinizante – homens de verdade comem carne

Em 1990, eu escrevi um livro chamado “The Sexual Politics of Meat” para dissecar a idéia de que comer carne de animais faz de alguém forte e viril. O mito ganhou força na década de 60 quando os antropólogos Desmond Morris e Robert Ardrey atribuíram o progresso da civilização ao “homem caçador”. Hoje, mensagens da nossa cultura – do “I am the Man” da campanha publicitária do Burger King até o comercial do Hummer que sugere que um cara que compra tofu deve “restaurar o equilíbrio” comprando um carro gigante – reforçam esse mito. Até mesmo Michael Pollan, que detalha uma caça à javalis no livro “The Omnivore’s Dilemma”, cai como uma presa na idéia de que homens devem fazer presas: “Andar com uma espingarda carregada em uma floresta desconhecida arrupiado com os sinais de sua presa é emocionante”. Para vegans, essa caricatura de uma caçada pornográfica é ridícula. O que o Pollan vê como um dilema, nós damos às boas-vindas como uma decisão.

Mas se homens de verdade um dia comeram carne, já não é bem assim por muito tempo. O lendário corredor olímpico, Carl Lewis, é vegan. O ex-campeão peso pesado de boxe, Mike Tyson, é vegan. O Andre 3000 do Outkast é vegan. Em Austin, um grupo de bombeiros se tornou vegan. Mas, para além dos nomes famosos que abraçaram o veganismo por razões éticas ou de saúde, está o fato incontestável de que comer carne não aumenta sua libido ou fertilidade – e uma dieta vegana não diminui elas também.

4. Vegans se importam mais com animais do que com humanos

Veganismo é um movimento de justiça social que inclui a preocupação com animais, mas também com muitas questões que afetam humanos. As escolhas alimentares que xs vegans fazem abordam os custos ambientais da produção de carne e laticínios, doenças cardíacas, problemas de saúde pública ligados à obesidade e, como Eric Schlosser apontou em “Fast Food Nation”, condições insalubres de trabalho nos matadouros, onde trabalhadores sofrem mais lesões do que em qualquer outra indústria. Na verdade, comer veganamente um dia por semana diminui sua pegada de carbono mais do que comer comida produzida localmente todos os dias da semana.

O custo econômico da crueldade sistêmica aos animais transcende as filmagens escondidas nas fazendas-fábricas. Comer gado alimentado com ração ajuda a elevar o preço das sementes; a alta nos preços contribuiu para as revoltas por comida no Haiti, Bangladesh, Egito e muitos outros lugares ao redor do mundo. A produção industrial de carne permite que bactérias infecciosas como a salmonela entrem sorrateiramente nos nossos suprimentos de comida. E tratar uma geração criada com Big Macs será um desafio fiscal para o SUS e o Medicaid (o programa de saúde para famílias de baixa renda nos EUA).

Se importar com animais significa se importar com pessoas, também.

5. É caro e inconivente ser vegan

Tente o veganismo por um dia e veja o que acontece. É mesmo tão difícil substituir molho de carne por molho de tomate (ou molho inglês por shoyu)? Pedir uma pizza lotada de vegetais ao invés de queijo e carne? Preparar uma salada grande e adicionar grão-de-bico ao invés de peru? Pedir um prato vegan em qualquer restaurante com cozinhas ricas com comida vegana – etíope, tailandesa, vietnamita, chinesa e italiana?

Uma das razões pelas quais Patti Breitman e eu escrevemos “How to Eat Like a Vegetarian Even if You Never Want to Be One” era mostrar às pessoas o quão fácil é ser vegan. Se você está acostumado a uma dieta de carne, frango e porco, o veganismo pode expandir as suas opções. Você pode começar descobrindo a variedade de maneiras de preparar tofu, gluten, tempeh e proteínas vegetais texturizadas – juntamente com mais verduras, grãos e feijões. Em alguns lugares do país, alguns desses produtos podem ser mais difíceis de achar do que hamburgers de carne ou filé mignon, mas eles não são necessariamente mais caros. E mesmo se forem, talvez eles possam ajudar a reduzir alguns custos médicos num longo prazo.

Não-vegans pensam que a mudança é difícil. Não mudar é ainda mais difícil.   

* Carol J. Adams é, nas palavras dela mesma, uma ativista-intelectual vegan-feminista. É autora do livro “The Sexual politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory.

Tradução precária: Poney
Agradecimentos especiais ao Andrei.
Site da Carol: http://caroljadams.blogspot.com

8 responses to this post.

  1. Posted by andrei on junho 11, 2011 at 16:12

    detonou. mandei algumas sugestões por email.

    Responder

  2. Posted by Marcella de Melo Silva on junho 12, 2011 at 15:50

    Pessoal,

    Muito legal o artigo. Sou tradutora, e não tem nada de precária e tosca na tradução de vocês! Tá ótimo. Se precisarem de ajuda pra traduzir alguma coisa, me falem, tentarei ajudar na medida do possível! Abraços, Marcella.

    Responder

  3. Não conhecia o texto, porém grande parte das informações é sabida pelos vegans leitores curiosos. Mas é incrível como essa temática torna-se elucidativa todas as vezes que leio. Sempre tem detalhes que chamam a atenção. E ler isso é como ver um vídeo da Thrasher antes de andar de skate. Recarrega as baterias. Parabéns pelo blog, amigos.

    Responder

  4. Posted by Lagarto on junho 14, 2011 at 18:52

    Eu curti pra calaho! Parabéns!

    Responder

  5. Posted by Dessa on junho 18, 2011 at 6:50

    Ta, posso ser anarcochatasxeinsuportávelbrochante? =P

    mas qual é a utilidade de se provar que o veganismo “não acaba com a virilidade”?
    Eu acho que o veganismo e anti sexismo andam muito juntos, uma espécie de ecofeminismo. A mesma industrialização, desenvolvimento e guerra – que é o grande pênis do mundo – estupra mulheres e a natureza, aliás achar a preocupação com animais algo bobo e não viril tem muito a ver com a ideologia patriarcal hétero de destruição em função do poder, da nossa sociedade entende? e se o veganismo destrói virilidade, que bom! Acho que a masculinidade é algo que deve ser desconstruída mesmo, Pq pelo menos o tipo de ideologia vegana que acho bastante coerente é a abolicionista, que defende a desconstrução do sexismo , especismo, racismo e homofobia juntos pq estes provém de um mesmo modelo de sociedade em que um oprime o outro ao máximo para provar coisas uns aos outros como por exemplo a masculinidade.
    Apesar da brincadeira no início sei que não foi defendendo a figura masculina de poder que ela escreveu o texto e nem vcs =P foi só um acréscimo aí à discussão e espero que seja mais um argumento qdo ouvirmos esse tipo de coisa.
    ps: o post do café corbucci reacendeu ânimos em mim num momento crise existencial de militância =)
    Beijão

    Responder

  6. Posted by poney on junho 20, 2011 at 18:48

    eu concordo totalmente com você.
    da minha parte, adoraria que a Carol Adams tivesse dito que a comida vegan é desmasculinizante sim, e que isso é muito massa! hehe.

    de qualquer maneira, o que eu acho realmente problemático é essa associação entre virilidade-vitalidade-masculinidade. Talvez seja porque ela esteja escrevendo para um público mais amplo (esse artigo foi publicado no NY Times, ou algo do tipo), mas seria realmente interessante desassociar vitalidade e masculinidade… acho que ela faz isso no livro dela, não? (eu ainda não li…)

    Responder

    • Posted by Dessa on junho 28, 2011 at 2:29

      “sua sexista, num sei que òó”
      -vcs leram meu livro?
      “não”
      hauhaushuha

      Brincadeira. Desassociar particularmente vitalidade e masculinidade (nessas palavras) eu não lembro, mas que ela faz essa crítica do comportamento viril ser associado à comer carne, faz. engraçado essa “síndrome de Peta” né, na hora de dialogar com o grande público.
      Acho que ela achou que seria um choque cultural forte e talvez a diferença muito grande de idéias – desconstruir a forma em que se relaciona com os animais E a virilidade, algo que é dada muita importância na nossa sociedade – iria assustar e fazer com que eles repelissem a idéia e não agregaria à ideologia e ela preferiu começar aos poucos a desconstrução, to chutando.

      Livros dela:
      http://madudf.blogspot.com/2008/11/carol-adams-livros-gratuitos.html

      Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: