Archive for julho \28\UTC 2011

Dicas veganas que não são comida – 2

Mais um singelo post com dicas de textos para alimentar nossos olhos e ouvidos famintos de conteúdo vegan.
(Aqui você acessa o primeiro post de dicas veganas que não são comida)

– A Critique of Consumption-Centered Veganism (Uma crítica do veganismo centrado no consumo)

Mais um belíssimo texto/reflexão do blog H.E.A.L.T.H. Esse novo texto traz uma auto-crítica muito interessante sobre os limites e as contradições das mais bem intencionadas inclinações veganas. Acho muito saudável (trocadilho infame, desculpem) essa constante auto-avaliação. Acho que tem muito vegan que precisa baixar a bola por aí (hehe).

Um dos pontos mais interessantes, pra mim, é a discussão sobre transformar (aprisionar?) o veganismo em um mero privilégio de classe (discussão que passei de raspão no texto sobre o Natura Dog) e de como pode ser complicado enquadrar a alimentação ética, uma alimentação vegan, apenas como uma “escolha”.

Um trecho que destaco:

“Mainstream vegans like to practice veganism as only a matter of what people do to nonhuman animal bodies (i.e. whether they kill, consume, or exploit them) and insist that veganism has nothing to do with what people say or do to other people and their bodies. For instance, consumer vegans are often content calling their food or products “cruelty-free,” even as human animals are exploited and tormented during the production.

While I do think most mainstream vegans have very good intentions, the effects of some of their actions and discourse alienate potential allies. Many potential allies dismiss veganism as a middle-class white people’s pre-occupation with exercising their privilege through being humanitarians for “voiceless,” defenseless, and innocent animals without ever having to address their privilege that comes at the expense people of color and the working class. Examples of class privilege are popular vegan sound bites like “every time you sit down to eat, you can choose cruelty over compassion” and “vote with your dollars/fork.” In the former, one assumes one has any choice in what one eats. In the latter, consumption and purchasing power are equated with political power (and vice versa), which suggest those with less purchasing power do not (and cannot) exercise as much political power.

O texto tá inglês, vou ver se consigo tempo de traduzí-lo num futuro próximo. De qualquer maneira, acho que um tradutor de internet talvez possa quebrar um galho, espero que sim.

– Richard Dawkins escreve sobre vivisecção

O mais famoso ateu militante dos nossos tempos, escreve um pouquinho sobre vivisecção. O que eu achei mais interessante desse texto é que o Dawkins apresenta uma argumentação darwiniana para a velha resposta utilitarista sobre o sofrimento animal. O ponto dele é demasiadamente simples, mas incrivelmente polêmico para toda uma tradição filosófica que vem desde Descartes e que postula uma correlação entre capacidade intelectual e capacidade de sentir dor. Essa mesma tradição foi refinada no século XX, com capacidades existenciais – quase sobrenaturais (seja em Heidegger ou Sartre) ou mesmo na capacidade de criar conceitos (em Wittgenstein e Davidson). O que importa é o seguinte, os animais não possuem as mesmas capacidades cognitivas da gente (quem, cara pálida?) e por isso não sentem o mundo da mesma forma e por isso mesmo não são capazes de sentir dor da mesma forma. Descartes pegava pesado e comparava animais a máquinas, cujo gemido era igual ao ranger de uma roda de charrete.

Mas aí, chega o Dawkins e bota a biologia pra contradizer tudo isso. Diz o nosso amigo (e inimigo de deus) que a dor é um aviso pra você não fazer mais determinadas besteiras (tipo meter o dedo num espinho, sei lá) e apesar da maioria das pessoas correlacionarem isso a capacidades intelectuais mais desenvolvidas seria bastante plausível que justamente espécies com menos capacidades cognitivas sentissem ainda mais dor, já que as espécies mais espertas (e eu tô pensando nos chimpanzés) poderiam articular de maneira inteligente o que é bom e o que é ruim.

– Papagaios dão nomes a seus filhotes

Uma notinha interessante sobre a complexa linguagem dos papagaios, um assunto que me encanta muito. Até porque a “linguagem” muitas vezes é apontada como marco pra levantar a cerca entre humanos e não-humanos, né? Bem, ler sobre isso me lembrou uma das frases que eu mais gostei no “Comer Animais” que eu não me lembro exatamente como é, mas é mais ou menos assim: “qualquer demonstração de inteligência animal que nos surpreende é automaticamente encaixotada como mero instinto”.

(bem, se você detestou tudo isso aqui  e quer saber de comida vegan boa, desculpa aí, eu me comprometo em fazer em breve um post sobre a deliciosa PIZZA VEGAN do lago sul e a minha jornada em busca do vale encantado)

Anúncios

Duas novidades vegan que eu adoro e uma perda vegan que odeio

Inspirado na série do Angeli, vamos para uma rápida atualização vegetal. Como eu não sei (nem quero) ser tão cínico quanto o cartunista, inverti a proporção para o dobro de coisas que eu adoro e apenas metade que odeio.

Duas novidades vegan que eu adoro:

– Crepes veganos no Crepe au Chocolat

Por essa sua vidinha sem-graça vegana não esperava né? Quem manda a novidade é a nossa réporter investigativa, Marina Corbucci (em breve uma resenha/reflexão aqui do DV):

Oi Poney,

Seguinte, outro dia li na Revista Veja Brasília comer & beber que o Crepe au Chocolat está com essa nova linha de   crepes “light” (ai que saco esse nome!) que não contêm glúten, ovos nem leite na massa. Na revista só citavam recheios com carne, então resolvi ligar lá e perguntar tudo certinho.

Me informaram que havia dois crepes salgados com recheio sem carne: um de pasta de abóbora com shitake e cebola caramelizada e outro com antepasto de berinjela e abobrinha e um creme feito a partir de biomassa (feito com a polpa da banana verde cozida, coisa super nutritiva) e creme de soja.

Além disso, três crepes doces com chocolate de soja: um com banana, outro com morango e outro com castanha.A massa não leva nenhum produto de origem animal, apenas farinha de banana verde e água. Fui lá e provei os dois salgados e o de chocosoja com castanha.

Confesso que preferiria mil vezes uma massa com farinha de trigo, ficaria mais consistente e menos seca, mas nada assim tão reprovável (e uma ótima opção para meus conhecidos que evitam ou não podem comer glúten).
A biomassa com creme de soja tem uma textura super legal mas eu continuo achando que creme de soja não combina com comida salgada, muito doce e abaunilhado… Mas também nada que seja incomível! Também achei que o antepasto de berinjela poderia ser mais bem feito…

O de chocolate nem preciso falar né… Há quanto tempo eu desejava um crepe de chocolate!!!

Agora minha sugestão é para que as pessoas que resolvam provar os crepes deixem sua avaliação e possíveis sugestões (eles devem ter um formulário pra isso lá): eu por exemplo sugeriria recheios feitos com tofu (mais adequado que creme de soja), queijo de castanha, pasta de grão de bico… Além do que, não entendo porque coisas veganas têm que ser com chocolate de soja: o meio amargo da Garoto pra mim é uma opção bem melhor (menos doce), mais fácil e mais barata pra eles.

Também vale sugerir novas opções de recheios: tomate seco, palmito, shimeji, espinafre, crepes doces com sorvetes (sorbets) à base de água, calda de chocolate etc. E por que não? Um crepe vegano com glúten! hahaahahhaa!! Quem sabe até uma massa semi-integral, ficaria gostosa… Pena que na hora não pensei em pedir o formulário de sugestões, mas na próxima deixo com certeza.

Ficaadica!
Veganismo 10 x 0 falta de opções em Brasília

Hamburger de shitake e shimeji no Three Burgers

Ali na 413 Norte (quase uma meca do veganismo em Brasília) onde ficava o Cabíria Café e bem do ladinho do Ômega 3, acaba de abrir uma nova lanchonete de hamburgers com opção vegana, o Three Burgers. Conheci o estabelecimento por acaso, passei e resolvi dar uma de enxerido. Para minha grata surpresa, a resposta para minha pergunta toda sem jeito: “Vocês por acaso não teriam algum tipo de hambuger que de repente poderia ser preparado sem carne e tal?” foi uma calorosa: “Temos hamburger VEGAN, sim!” . Que felicidade. E o negócio é uma delícia. Uma resenha será publicada em breve.


 Uma perda vegan que odeio:

– Sem mais sanduíche vegano no Submore

É com muito pesar que passo a notícia que o Submore da Asa Norte (esquina da 115) mudou de nome, de proposta e de negócio e que o único (o único!) item do cardápio que foi retirado foi o sanduíche “Veggie”, a única (a única!) coisa vegana pronta que eles tinham pra oferecer. Sério, vai se lascar novo submore! Vai se lascar! Assim que eu conseguir o contato de lá, eu posto aqui pra todo esse exército de um homem só dos apreciadores do sanduíche veggie (eu) se pronunciar contra mais uma perda do nosso Distrito.

Leia a resenha da época que implementaram o sanduíche lá.

Natura Dog – levando o veganismo pra rua

Desde a extinção do querido – e saudoso – The Dog (por algum tempo, sede do tráfico de informações do DV), o veganismo aqui no distrito ficou órfão de um cachorro-quente de rua. Nada que seja impossível de reproduzir no conforto do lar (afinal, até eu sei fazer e me encaixo naquele pequeno grupelho renegado e mal-quisto de vegans que não sabem cozinhar). Mas também, nada que reproduza o mesmo prazer de sentar no meio fio da entrada da quadra sob o frio seco de Brasa City feito lâmina e se lambuzar todo daquela mistura amorfa de batata-palha, milho e pão molhado. Eu fui criado assim. Tenho certeza que muita gente dessa cidade-cemitério também.

Pois é, para todas as barrigas que sentiam falta dessa experiência existencial transcendental, que está muito além da comida em si,  surgiu nossa redenção encrustrada ali no meinho da Asa Norte: o Natura Dog. Capitaneada pelo Bola, o Natura Dog é a primeira carrocinha de cachorro-quente vegan da cidade. Sei de algumas experiências similares em outros lugares do Brasil, a barraquinha do Mamá, em Curitiba, talvez sendo a mais famosa delas. (alguém aí conhece outras?)

Uma das coisas que eu achei mais bacana foi que existem vários complementos que para onívorxs podem ser triviais num cachorro-quente, mas deviam estar fazendo uma falta danada pra quem é vegan. Tem pasta de alho vegan, purê de batata vegan e creme de azeitona também vegan. Foi escolhido um catchup sem conchonilha para atender todas as sensibilidades e o preço eu considero bastante razoável. Por 10 reais, você pode comer dois hot-dogs, com quatro complementos e ainda marcar seu cartãozinho fidelidade pra escravizar sua alma com salsichas de soja.

Mas o que realmente me encantou na proposta do Natura Dog é o fato de ser o primeiro lugar em Brasa com comida vegan simples e na rua, me corrijam se estiver enganado (tem pastel e acarajé, mas estão mais próximos de gambiarra vegan – sei também que teve uma vez que o pessoal se organizou pra distribuir sopa vegan na rua, mas não durou muito tempo). Bem, ainda no sentido daquela conversa da resenha do Café Corbucci, de que devemos promover as mudanças que gostaríamos de ver nesse mundo e de que todo mundo que cultiva o veganismo faz parte dessas mudanças na nossa cidade, acredito que uma carrocinha de cachorro vegan possui um potencial político muito interessante.

Um pontencial político para questionar o nosso próprio veganismo. Eu vou dedicar um post mais reflexivo e extenso sobre esse assunto em um futuro próximo, mas acho que vale comentar aqui rapidamente a linha tênue que o veganismo caminha, que permite transformar libertação em privilégio de classe, crítica em nicho de mercado e que acho sempre importante repensar. Não que eu tenha uma boa resposta para todos esses dilemas, só não quero ver essa parada que eu acho tão legal que é o veganismo se transformar em mais uma maneira de segregar pobres e ricos, como se fosse mais um “clubinho-que-não-é-pra-qualquer-um”. E toda essa coisa de “orgulho” vegan tem muito a ver com isso daí, vamos admitir.

Promover esse veganismo mais simples e democrático não é tarefa fácil pra ninguém. Da última vez que fui lá, fiquei conversando com o Bola algum tempo sobre a árdua peleja que ele tem de travar com a administração de Brasília para conseguir montar um negócio na rua. Ele também contou que já tinha montado o Natura Dog em 2009, mas teve tudo roubado (!!!) depois da primeira noite de funcionamento. O que me faz pensar que uma carrocinha de comida vegan em Brasília ainda traz toda a carga simbólica de por um pouco de vida nas ruas tão fantasmagóricas dessa cidade. Brasília é a cidade  da negação completa do espaço público como espaço de encontro. A cidade em que você encontra placas como “rua não é lugar pra conversar”. Então, que bom que se gente não pode conversar, agora pelo menos podemos comer.

Há uns dois anos, no comecinho desse Distrito, eu fiz um texto sobre o que ainda considero uma das coisas mais chatas da alimentação vegana: a falta de praticidade na hora de escolher um rango. É tudo muito elaborado ou muito precário. Ou salada de tomate seco e shitake ou saquinho de amendoim japonês. Naquela época, (que apesar da proximidade, já começa a se configurar em minha cabeça como uma era tenebrosa, pré-hamburger vegan do Skys e pré-kebaberias) era difícil de competir com a abundante facilidade – quase um tapa na cara – de um risole de milho com coca, de um pão de queijo com café. Claro, nossas festinhas de confraternização no trabalho continuam sendo momentos de solidão e dor, mas na rua a história é outra.

Graças a iniciativas como o Natura Dog, hoje nosso veganismo tá mole. O Distrito Vegetal deseja longa vida e um verdadeiro mar de salsichas de soja.

Natura Dog
Comercial da 208 Norte
81557972
bolavideos@gmail.com