Archive for outubro \24\UTC 2011

Caçadores de Mitos Vegan (rapidinhas vegetais V)

Após um árduo trabalho de investigação de nossxs correspondentes distritais, apresentamos mais uma listinha de descobertas dos CAÇADORES DE MITOS VEGAN (imaginem uma música dramática de fundo):

– Dilletoenviado pela aline.  “conversei com o atendente da dileto no Iguatemi e ele disse que todos “sorbets” eram à base de água, sendo que podiam “conter traços de lactose”, pois feitos na mesma máquia. Os sabores que ele me indicou eram o de limão, morango, framboesa e chocolate 70% (tem outros de chocolate com leite)”. me explicaram que os sorbets de fruta é garantido que não tem “lactose”, já o de chocolate por conter por ser feito na mesma máquina dos outros”. É VEGAN.

– Crepe au Chocolat –
enviado pela Mel.  “Os crepes NÃO SÃO veganos. Decidi jantar hoje no Crepe Au Chocolat e quando cheguei lá, perguntei do que era feita a mssa. O rapaz me respondeu que era uma “farinha especial”. Daí eu insisti e falei: “Mas é farinha de quê?”, daí ele disse: “Vou pegar a embalagem pra mostrar.” Eles usam uma mistura chamada Preparado Aminna, ideal pra crepes, panquecas e afins:
http://www.aminna.com.br/1.0/produtos.php?Fa%E7a%20voc%EA%20mesmo&9 – É o último produto da página. Leva ovo desidratado no preparo”. NÃO É VEGAN (Tcham!)

– Sorbê –
enviado pela Mel. “no final de semana passado eu descobri que, além dos sorvetes à base de frutas da Sorbê (que são veganos), existe um dos cremosos que também é: o de Pistache Diet. É uma delícia! Esse de pistache é muito bom. Eu desci lá na produção deles e pedi pra olhar a embalagem da pasta de pistache que eles usam pra fazer e não tem nada de origem animal, assim como a massa pra dar liga, que é de soja”. É VEGAN.

– Submore
enviado pelo Roberto. “O Submore daAsa Sul ainda tem o sanduíche veggie, muito bom. E também dá pra pedir o vegetariano sem a mussarela, o molho ao pesto eles dizem não ter queijo. Dá pra pedir pela internet: http://www.submore.com.br”. É VEGAN.

– Dudu Bar
enviado por Lia. “É caaaro, mas é bom. O Dudu Bar (303 Sul) tem opções veganas, com indicação no cardápio. Eu provei e gostei muito do cuscuz marroquino com legumes e castanha-do-pará”. É VEGAN.
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Quem quiser divulgar alguma investigação vegana aqui no Distitro Vegetal, fica à vontade. Basta escrever pra poneteo@gmail.com. Até mais.
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Aracaju Vegetal – “scene report vegan” – 2

Vamos ao nosso segundo scene report* vegan, ou relato de cena vegana. Dessa vez quem nos enviou uma guiazinho com excelentes indicações e comentários foi a Nellie Rabanal, que encontrou um tempo entre sessões de yoga e visitas à Atalaia Nova para escrever o texto. Quem quiser bolar um guia de sua cidade,  será muito bem-vindx.  Mandem aí.  Basta escrever pra poneteo@gmail.com

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https://i1.wp.com/imagecache2.allposters.com/images/pic/PTGPOD/OSTOO-00000086-001-FB~Hyacinth-Macaws-Parrots-Eating-Brazil-Nuts-Brazil-Posters.jpg

ARACAJU VEGETAL

por Nellie Rabanal

  • Restaurante Om Shanti (http://www.restauranteomshanti.com/): a minha lista, sem dúvida alguma, é encabeçada por esse restaurante. É o primeiro restaurante 100% vegano de todo o Nordeste. Dá muitas opções de cardápio por dia, além de sempre oferecer diversos tipos de lanches, como pastéis de forno, coxinhas, quiches, etc. Também tem um grande atrativo aos que curtem doces: muitos cupcakes bonitinhos e saborosos, além de diversos sabores de mousses. E ah, para os glutões, aos sábados, é servida uma bela feijoada que você pode repetir quantas vezes desejar/conseguir pela bagatela de 12 reais. Bom, só um adendo: sou meio suspeita em falar dele, porque simplesmente sou apaixonada pela comida da mestre-cuca do lugar Daniela, figuraça conhecida da cidade, seja pelo rock, seja pelos quitutes que ela vendia nos rocks de Aracaju. Ela e o marido são ativistas veganos da cidade e desde há muito sempre promoveram eventos que difundissem as causas veganas, como por exemplo, o Cine Veggie, evento onde tu pagava a módica quantia de 7 conto, via um filminho maneiro e se empanturrava até não poder mais com um belo e colorido jantar =~~
  • Tapioca do Márcio (na caixa d’água do Castelo Branco): então, achar uma tapioca vegana em qualquer lugar nem é muito difícil, viu, mas corre-se o risco de se comer apenas a massa de tapioca com coco e pronto. O diferencial dessa tapioca do Márcio é o preço e as opções que o dono do lugar te oferece. Normalmente, em Aracaju, se come tapioca em pontos turísticos, como a Orla de Atalaia, onde uma simples tapioca pode chegar a custar quase 6 reais. Bom, nessa tapioca do Márcio, você pode escolher a opção de retirar qualquer queijo ou manteiga e incrementar a tua tapioca, seja arrochando milho, ervilha, palmito, cebola, pimentão e até tomate seco. Com toda essa incrementação, ainda sim, a tapioca saía barata pelo preço de R$ 3,50 a R$ 4,00. Sem contar nas opções de tapiocas veganas doces, como a tapioca de goiabada, de banana com canela, de coco, etc.
  • Amendoim: olha, se você não é de Sergipe ou nunca veio aqui e nunca pôde experimentar esse manjar dos deuses, talvez você não entenda a adoração que nós, sergipanos, temos por essas lindas vagens 🙂 e não, não é qualquer amendoim, porque em Recife ou em Natal, o amendoim é feito de uma forma diferente. O amendoim que tô falando é o sergipano e pronto! Bom, essa delícia você encontra em qualquer lugar e quando digo em qualquer lugar é sério. Tem em supermercados, em feiras livres ou um carinha que passa de bike com um saco enorme cheio dele. Normalmente, usa-se como medida uma latinha de óleo por 2 reais. Aqui se come muito sempre acompanhando uma cervejinha. E ah, há algumas más línguas que dizem que o amendoim de Sergipe é melhor do que em outros lugares porque aqui eles seriam cozidos no leite. Mas é mentira das braba isso, normalmente dizem isso como forma  de “valorizar” o produto. Tá ligado quando você pergunta se tem carne no feijão e te respondem “sim sim, tem até calabresa!”. Sacou? E ah, só um adendo: em vários carrinhos de lanche que ficam pelas ruas, terminais rodoviários e etc, é bastante comum vender saquinhos de geladinhos com castanhas de caju, amendoim salgado torrado e amendoim doce com aquela capinha rosinha de açúcar (alguns desses amendoins doces pode ter o corante carmim, por isso sempre pergunte se a capa rosa é só de açúcar caramelizado ou se tem o corante, just in case) a preços camaradas de R$1,00/1,50. E se tiver com desejo de comprar em grandes quantidades, não tem erro: vá para o Mercadão, o Mercado Albano Franco, e lá você compra quilos e quilos. Se tiver sorte, é capaz de encontrar de R$ 10 a 12 reais o quilo da castanha.
  • Saroio/Beiju Molhado/Pé de Moleque/Pamonha/Milho: normalmente, esse conjunto de gostosuras é mais lembrado durante as festas juninas, já que aqui no Nordeste é uma época bastante celebrada (ainda bem, viu, porque comida com milho, coco e afins não tem como dar errado). Porém, durante todo o ano, eles são vendidos e bastante consumidos. Como são comidas bem populares, eles são vendidos, principalmente, em barraquinhas localizados em pontos fixos de bairros bem povoados ou até mesmo por ambulantes que ficam circulando por entre os bairros vizinhos com sua cesta de palha enorme na cabeça. Saroio e beiju molhado normalmente são veganos, já que se usa o leite de coco no lugar do leite. Já a pamonha, é mais dificultoso encontrar uma vegana mesmo, mas não é impossível não, por isso não se acanhe e abuse das perguntas, com detalhes. E pra quem é de fora, só informando que aqui nós temos dois tipos de pés-de-moleque: aquele mais conhecido que é tipo um tablete caramelizado de amendoim e o nosso pé-de-moleque genuíno do Nordeste, ambos veganos. O nosso autêntico pé de moleque é uma massa de puba e coco, enrolado numa folhinha de bananeira como um charutinho amassado. O milho é opção vegana certa, sempre lembrando ao vendedor de “não colocar manteiga, bêlê!”
  • Pastel da ARATIP (Feira de Artesanato e Comidas Típicas de Aracaju): Essa feira se localiza num dos principais pontos turísticos de Aracaju, a Orla de Atalaia, e como o próprio nome sugere, é um conglomerado de barracas de artesanato e de comidas típicas. Mas vamos ao que nos interessa que é a parte da comida: basicamente, lá se vende torta de macaxeira ou de inhame e pastel frito. Em teoria, poderíamos usufruir perfeitamente da torta de macaxeira ou inhame, já que só seria necessário pedir pra se retirar o queijo, maaaas, acho que tal procedimento não é tão confiável: fontes fidedignas afirmam que mesmo após insistentes observações sobre a retirada de queijo e manteiga, ela encontrou um (bom) pedaço de queijo coalho. Assim, acho melhor apostar mesmo no pastel, afinal, tudo frito é uma coisa linda, quem dirá um belo pastel. Há um certo tempo, havia uma barraca bem-feitora que atende pelo nome de “Sergipe Pastel”. Na verdade, eram poucas, é verdade, as opções veganas: tinha o sabor de palmito e a seleta (feito especialmente para atender a demanda dos veganos, que era um pastel com milho e ervilha), porém, segundo amigos que sempre iam pra lá, a opção de palmito sempre acabava rápido e a seleta não estava mais sendo feita, ou seja, não é garantia que atualmente você saia de lá feliz com teu pastelzinho. Uma pena, diga-se de passagem. Além disso, há as opções de pastéis doces: o famoso “pastel de lava” que é o de goiabada, sai bem quentinho e a goiabada fica derretendo suavemente depois de frito (recomenda-se ir com calma, porque realmente sai quente e pros mais desavisados e afoitos, pode queimar feio a tua língua), há também as misturas doces como “pastel de banaiaba” que é o pastel de banana+goiaba (túm dúm!).
  • Acarajé: comer um acarajé completo (completo, leia-se com o bolinho, caruru, vatapá e vinagrete) não é muito comum. Já me acostumei a comer ou só com caruru ou só com vatapá, porque o que ocorre é que muitas vezes, quando não tem camarão no caruru, tem no vatapá e vice-versa (eu como muito numa barraquinha perto da CEHOP, na barraca Acarajé da Jaíra, lá na Av. Adélia Franco, mas lá só rola o bolinho, o vatapá e o vinagrete, o caruru deles leva camarão) e, infelizmente, em alguns lugares, às vezes, ocorre até de colocarem camarão na massa do bolinho. Tsc! A sorte é que ainda há opções veganas: há o acarajé lá do Sol Nascente, fica bem naquela praça central, onde está a Igreja e a quadra de esportes. Também tem o acarajé lá da Av. Augusto Maynard, na esquina do Edf. Rembrant, perto da CD Club, o “Delicious Acarajé”, que tem a fama de ser um dos acarajés mais saborosos da cidade.
  • Restaurante Empório Naturista (Rua Pacatuba, Centro) e Restaurante Ágape (Rua Celso Oliva, 13 de julho): são restaurantes vegetarianos, na verdade. Eles oferecem algumas opções veganas, mas, diga-se de passagem, não é o carro-chefe deles. Vale a pena destacar que, atualmente, o Ágape vem servindo jantar nordestino, ou seja, as opções veganas de tapioca surgem como uma bela escolha. Eu destacaria de legal nesses lugares é a opção de mercadinho que eles oferecem: tem opões de comida industrializada, como feijoadas em caixa, porém os preços são meio caros. Porém, no Empório há pães de ameixa deliciosos e biscoitinhos de aveia, idem e a gelatina ágar ágar.
  • Sorveterias: a “Moniery” lá no Inácio Barbosa e a “Tchê Sorvetes” no Salgado Filho. Ambas com várias opções de sorvete à base de água, normalmente os sabores de frutas. A Tchê tem uma geladeira toda só de opções com água, e em seu favor tem o fato de que os donos são muito atenciosos e interessados no tema, sempre conversam sobre e ainda dão desconto pra ciclista que vai pra lá tomar sorvete de bicicleta na semana do trânsito. Já na Moniery é bom perguntar só pra se certificar, mas de lá uma sugestão dos deuses é o copão de manga + açaí + calda de café (Breno, cara, te dedico!).
  •  Só Sucos: lanchonete localizada na Praça Camerino, e ao contrário do que o nome sugere, não se vende só sucos, porém o forte deles são os sucos sem dúvida. O atrativo do lugar, além do preço justo (uma jarra de 500 ml sai por 4 reais em média), do local agradável e da qualidade das frutas, é o estímulo da criatividade. Pense em qualquer mistura muito louca de frutas pra se fazer um suco e seu desejo será atendido. Uma dica boa é: vá com amigos, cada qual escolhe seu suco e faça  um rodízio de sucos. É de sair rolando! E sugestão de suco: qualquer coisa com jaca! A jaca tem um gosto e cheiro bastante sincero e marcante e até sua alma ficará com gosto de jaca depois de tomar o suco =)

 

  • Potato Mix: essa sugestão de lanche me foi lembrada por Dani, a quituteira do Om Shanti, o primeiro lugar descrito nessa minha listinha. Bom, aberto há pouco tempo lá na Av. Beira Mar, no Posto Petrox (onde há várias outras lanchonetes como o Subway e a temakeria Kadô), esse lugar vende as chamadas batata suíça, que é uma massa de batata bem recheada e frita e a batata inglesa, que por sua vez, é cozida e cortada ao meio onde se põe o recheio. Bom, em teoria, ambas poderiam ser opções veganas ou vegetarianas, pois há muitas opções de recheios para isso: berinjela, brócolis, tomate, cebola, championgs, cogumelos e por aí vai…O lamentável é que essa minha amiga, ao procurar se informar sobre como as batatas eram feitas, descobriu que nem para os ovo-lactos a batata suíça é recomendada: depois que as batatas são cozidas, elas são preparadas com caldo de carne para fazer a massa de batata e poder ser frita. Bom, restou a opção de batata inglesa que é apenas a batata cozida não passando por nenhum processo após o cozimento, daí é só montar o recheio de sua preferência, pedindo pra retirar ou colocar algum ingrediente de acordo com teu gosto.

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* Em zines punks ao redor do mundo, um tipo de artigo bastante encontrado é o chamado Scene Report. Um Scene Report é uma espécie de relato com descrições de bandas, shows, zines e discos de um lugar específico. Como ultimamente o DV tem recebido cada vez mais visitas de outros estados, imaginei como seria simpático começar a publicar scene reports de comida vegan em outras cidades fora do nosso distrito. Acho que além de ser uma boa pra pessoas que viajam bastante, também não deixa de ser uma maneira legal de expandir o alcance da nossa comunidade.

A ideia do Scene Report não é ser um índice completo de opções veganas de outras cidades (seria bacana se para isso fossem criados blogs específicos como esse aqui), mas apenas um pequeno guia de turismo vegano. Curto, simpático e com comentários bem parciais.

Confira também:

Rio Vegetal – “scene report vegan” – 1

Três rápidas reflexões (para três tristes vegans)

De simples guia vegano de Brasa City, o Distrito Vegetal foi sofrendo mutações diversas até virar esse ser amorfo de hoje, que compila dicas, caça-mitos, resenhas, scene reports e tudo mais que der na telha sobre veganismo e a nossa cidade cemitério.

Pra quem freqüenta o blog há algum tempo, não deve ser novidade o espaço de reflexão cada vez maior nos artigos do DV. Geralmente eu contrabandeio um pouco de ontologia disfarçada de resenha de pizza ou empresto um pouco de metafísica fingindo que estou apenas falando de leites vegetais. É uma estratégia que tem funcionado bem, mas eu pensei em ser um pouco mais explícito dessa vez.

Eu tenho um ponto de vista bastante particular sobre esse estilo de vida, e pensei em estruturar em três pequenos pontos coisas que me motivam ou que incomodam quando as próprias pessoas que se dizem veganas falam sobre veganismo.

De maneira alguma entendam isso como uma receita ou mesmo uma imposição de visão de mundo. Esse é inclusive um dos pontos de reflexão e árdua tarefa, pensar e falar sobre veganismo sem querer promover a e-vegan-lização.

 

Três rápidas reflexões (para três tristes vegans)

Menos identidade, mais solidariedade
Uma das coisas que parece ser mais bacana quando você começa a cultivar o veganismo é que você passa a fazer parte de um grupo de pessoas legais, certo?  Não sei. Eu sei que é uma sensação legal, você pode usar seu casaco de moletom escrito VEGAN e se sentir parte de uma coisa maior que você. Mas, sendo sincero, eu tenho forte desconfiança sobre essa história de enquadrar o veganismo como uma mera política de identidade. Se eu tivesse que escolher, eu diria que mais prejudica do que ajuda “a causa”.

Isso porque quando você enquadra e define o veganismo nesses termos, de quem “é” ou “não é” vegan há uma série de situações e contextos que são excluídas e desmotivadas. Poxa, veganismo é sobre promover solidariedade entre animais ou entendi errado? Isso inclui as relações inter-espécies, mas intra-espécies. Significa promover solidariedade entre pessoas também.

Um exemplo. Nesses anos todos de veganismo, quantas vezes eu já ouvi a frase “Não adianta de nada parar de comer carne, mas consumir leite. É tão cruel quanto.” Caracas, a impressão que eu tenho ao escutar coisas do tipo é que essas pessoas querem o veganismo como um clubinho fechado que só algumas pessoas  muito especiais podem ter acesso. Poucas frases podem ser tão bem-intencionadas, mas tão desastrosas quanto essa.

Já recebi emails de pessoas dando dicas vegetarianas, mas se desculpando por não serem vegans, dá pra acreditar? Já conversei com amigos que se sentiam totalmente desmotivados em tentar uma dieta vegana porque não sabiam se iam conseguir “ser” vegan, então era melhor nem tentar. Você transforma o veganismo num altar, quanto mais difícil de alcançar melhor, e isso acaba desestimulando um monte de gente que se interessa pelo tema. Pra essas pessoas, eu gostaria de dizer que cada esforço conta, cada pequeno gesto pode ser importante e  nada mais justo do que fazer o que conseguir e estiver dispostx.

Não precisamos pensar no veganismo como um bloco estático de normas, pode ser um conjunto dinâmico de práticas. Eu prefiro pensar assim.

Menos universal, mais local
Caminhando nessa direção, por um mundo menos emblocado, não consigo deixar de me incomodar com aquelas pessoas que entendem o veganismo como uma verdade universal que deve ser aplicada a todas as pessoas em todos os contextos. Se o veganismo é sensível a toda a dor e opressão de um mundo especista, também deveria ser sensível a toda exclusão de um mundo classista, racista, etc.

Promover um veganismo sem sensibilidade a contextos é querer transformá-lo em uma bela vuvuzela da política liberal. É propagar uma ideia mentirosa de que sempre é possível fazer uma escolha. Nesse caso, uma “escolha vegan” (já soa como propaganda de escova de dente). Dizer isso é perverso, porque você iguala o poder de decisão política com um poder de consumo. A conseqüência cruel é que quem não pode consumir determinados produtos, não pode agir politicamente. O horror, diria capitão Kurtz.

Mas eu confesso que é um exercício complicado mesmo. Acreditar que uma determinada conduta é a mais correta eticamente e ao mesmo tempo não querer impô-la ao mundo parece ser muitas vezes impossível. Só que acho importante refletir que essa maneira monolítica de entender a ética foi justamente a responsável por segregar humanos e não-humanos em um primeiro momento. E a gente quer mesmo tentar usar as armas do senhor de engenho pra desmontar a senzala?

Essa aspiração por universalidade costuma cair muito numa ideia de veganismo como exercício de pureza, ou purificação. Bem, isso pode ser bem comum, mas, cá entre nós, é bobo em última instância. A não ser que você esteja acessando esse blog a partir da energia solar gerada pelas placas DIY da sua comunidade anarcohippie, não existe vida fora do Capital. Aquela delícia de leite de soja cruelty free  que você come todo dia com seus sucrilhos cruelty free também é fruto de um sistema de exploração.

Não existe “vida sem crueldade” pra valer. Mas isso significa desistir, lamentar e choramingar? Não, porque ninguém aqui tem mais 13 anos, né? Significa entender a complexidade das questões que estamos lidando diariamente, e ao invés de querer exorcizar as contradições, saber conviver com elas.

Como diria a Carol Adams, o veganismo é uma espécie de trato pessoal para se fazer o menor dano possível. E eu tenho certeza que a Carol mesmo seria a primeira a admitir que o veganismo da madison square garden não pode ser o mesmo do pavão-pavãozinho.

Menos dever, mais devir
Quanto de cristianismo tem o seu veganismo? Essa minha pergunta não tem nada a ver com acreditar em deus ou não. Eu me refiro a quanto de resignação, culpa, proibição e desejo reprimido seu veganismo promove. Eu sei que eu quero um veganismo livre, leve e solto de tudo isso aí.

Mas eu sei também que tem gente que gosta muito de cultivar um veganismo-sofrimento. Veganismo em que o foco está na repressão da vontade de comer certas coisas e não no prazer de comer outras. É bacana pra quem acredita nisso porque assim o veganismo vira uma espécie de “heroísmo moderno e incompreendido”, uma tarefa árdua e complicada. Desnecessário dizer que eu considero isso elitista, desinteressante politicamente e totalmente sem-graça, né?

De qualquer maneira, é curioso perceber como essa visão de veganismo cai bem com os sistemas tradicionais de ética, que costumam funcionar sempre com imperativos. Nesse tipo de relação com o mundo, o certo e o errado estão mais em função de uma punição ou recompensa de uma autoridade do que qualquer outra coisa. E o mais chato é que na questão animal, tanto os “bem-estaristas” ou “direitos dos animais” parecem andar de mãos dadas nesse ponto. Ninguém parece oferecer nada de novo. Apenas divergências no que se “deve” ou “não se deve” fazer.

Pra mim, o imperativo é a receita para mitigar os desejos. E aplacar as vontades é o passo anterior à apatia, ao cinismo e a todo o derrotismo político que eu detesto. Eu realmente só acredito no poder de transformação política que envolva os nossos desejos.  O capitalismo é esse monstro bem-sucedido exatamente por ser essa máquina incessante de produzir desejo. Como que a gente pretende encarar ela de frente com resignação e repressão?

Eu realmente acho que esse não é o caminho. Muito melhor do que reprimir os desejos que o mundo me impõe, é criar e contaminar o mundo com os desejos que eu acho bacana.

E é exatamente isso que eu tô tentando fazer aqui.

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Acesse aqui alguns outros posts com reflexões aqui no Distrito.