Minha triste vida vegan – edição farroupilha

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Porque quem não consegue rir de si mesmo, morre sem entender a piada no final.

Continuamos a nossa série de lamentações veganas com um curto relato de uma tragicômica desventura que participei no último fim de semana em Porto Alegre. Se você também tem uma boa história no naipe Classe Média Sofre da vida sem carne, e gostaria de vê-la publicada aqui, escreva pra poneteo@gmail.com

 – rua vazia, barriga vazia, uma epopeia por comida vegan em Porto Alegre. 

Saímos de Caxias do Sul já com a barriga roncando. Era quase onze da noite e a lembrança do delicioso macarrão com nozes que a Eveline fez no almoço só aumentava a fome, que já era gigante, depois de três dias intensos de punk rock pelo Rio Grande do Sul. Vasculhei o nosso saquinho de comida e todos os salgadinhos já tinham acabado. Só restava aquele pacote de negresco e um biscoito de café, e como todo mundo sabe: 1) só comida salgada mata a fome; 2) café só é bom no estado líquido mesmo.

Chegamos na casa gigante da Julia com os planos feitos: pedir uma pizza sem queijo e esperar algumas horas, com a barriga cheia, o avião de volta pra Brasília. Naquela hora os restaurantes já estariam fechados e a gente tava contente em pedir uma massa qualquer com alguns vegetais por cima, já que tínhamos comido tantas delícias veganas nas últimas refeições. Para nossa ingrata surpresa, nenhuma pizzaria queria nos atender.  Devia ser um pouco depois da meia-noite, e mesmo com o pessoal chorando no telefone, ninguém quis levar pizza pra gente. Barbaridade.

Foi aí que o Daniel, o mais esfomeado do grupo, entrou em desespero. “Não é possível, Porto Alegre”. Munido de uma internet sem fio, ele foi consultar o oráculo sobre o que poderia existir 24 horas na capital gaúcha. Nada. Todos os telefones mudos. Lembraram de um boteco pra comer batata-frita. Fechado no domingo. Cadê o Sky’s nessas horas?

Já era quase uma da manhã quando alguém disse que tinha um Habib’s a algumas quadras dali. Qualquer coisa em frente haveria um Subway. Era só atravessar um parque bizarro. Vamos nessa. Já estava sonhando com aquele homus ralo e uma batatinha-frita, refeição companheira de tantas madrugadas.  Após uma caminhada num frio de lascar, vislumbro as luzes acessas do fast-food árabe e começo a cantarolar o tema do Rocky Balboa enquanto subo as escadas para me deparar com a lanchonete fechada. Vamos no pão com folha do subway, então. Ouvi dizer que o molho de cebola doce é vegan. Fechado também. Porra, na noite anterior em Lajeado, interior gaúcho, o subway tava aberto até às 4h da manhã, recheado de gente bombada voltando da balada. Que que tá acontecendo Porto Alegre?

A partir daí começamos a vagar sem rumo e desepenrançosxs pelas ruas vazias de POA. Descendo a avenida Goethe nos deparamos só com vitrines fechadas para nosso desespero. O Villaverde, já começando a delirar de fome, avistou de longe um lugar possivelmente aberto e começou a gritar “PIZZA! AQUI TEM PIZZA!”. Os gritos ecoavam por aquela filial de cidade cemitério. Cinco segundos depois “NÃO TEM PIZZA NÃO! NÃO TEM PIZZA NÃO”.

Já bem distantes do que pretendíamos caminhar inicialmente,  encontramos um botequinho prestes a fechar. Lá eles serviam uma centena de variedades de “xis”, o apelido gaúcho pra sanduíche. E no meio delas, duas opçõe vegetarianas! Será que toda essa epopeia teria um final feliz? Aparentemente não, porque o hamburger vegetariano tava em falta. “Ah, então faz só com pão e salada mesmo, mas anota aí: são quatro xis sem queijo, sem ovo e sem maionese”.

Sentamos ao lado de uns caras folgados enchendo o saco tomando cerva e aguardamos. Recebemos felizes os pacotinhos fechados e cada um deles com as especificações escritas a mão. Peguei o meu: “vegetariano – sem ovo, sem queijo sem maionese” Era o fim de uma saga em busca de uma refeição. Mas alegria de vegan dura pouco. Tava tudo ali: queijo ovo e maionese. Só podia ser pra sacanear. Imaginei gargalhadas maquiavélicas da cozinheira saindo da cozinha. Às três da manhã só restava cair na risada junto.

Epílogo: 
O voo de volta para casa, ainda constituía uma espécie de esperança torta, já que a Avianca agora dispõe de refeição vegetariana nos voos domésticos e a gente tinha feito a solicitação pra isso. Esperança estraçalhada no balcão de check-in. “Desculpem, mas não conseguimos a refeição de vocês. Podemos oferecer um amendoim?”. Ah! Se lascar! Deixa eu dormir que eu ganho mais.

4 responses to this post.

  1. Posted by Demóstenes on abril 19, 2012 at 19:27

    Deviam ter falado com o chef Alan Chaves do Bonobo pelo facebook, ele fica acordado até altas horas consumindo carboidratos madruga a dentro. Ele mora na minor house perto da Av Independência. Com certeza ele receberia vocês.

    Responder

  2. Posted by andrei on abril 20, 2012 at 23:18

    que história maravilhosa. trágica, mas muito bem narrada.
    fico imaginando o daniel mandando um “QUE QUE TÁ ACONTECENDO PORTO ALEGRE???”.
    saudades de vcs.
    beijos.

    Responder

  3. Oi, gostei do texto mas tenho uma dúvida:
    Vocês iam pedir pizza, e não conseguiram. Depois vocês iam comer um xis, só que, a massa da pizza ou do pão do hambúrguer que vocês iam comer não levaria leite?

    Responder

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