O problema de classe do veganismo

Uma das críticas mais comuns a quem tem alguma simpatia pelo veganismo é que se trata de uma ética/cultura/prática elitizada, cara, inacessível. E geralmente a gente fica contra a parede, no esforço para mostrar que não é bem assim, que existem inúmeras alternativas, que pão com molho de tomate é baratinho, etc. Eu tenho passado minha vida fazendo isso.

Mas será que as críticas não tem um pouco de razão? Será que não estamos promovendo uma ética/política/cultura que ainda tem um grave problema de classe ainda para resolver?

Tenho que admitir que sim, o veganismo possui um grave problema de classe (não muito diferente de boa parte da política radical no Brasil). Mas talvez o primeiro passo para desconstruir esse problema é assumir o local de fala e abrir o jogo sobre esse problema. Esse texto é uma tentativa honesta de dar um primeiro passo.

Não pretendo com um post de internet dar uma solução final para o problema de classe nas nossas práticas políticas e de contracultura. Ainda tenho que ler muito neomarxismo pra isso, coisa que não deve acontecer tão cedo. Mas isso não significa que a gente possa escrever um pouco e conversar sobre isso. Não precisamos de plataformas formais ou conhecimentos de determinados procedimentos para falar sobre as nossas vidas. DIY é isso.

A tal elitização do veganismo é inclusive uma das maiores críticas que recebo aqui no blog. E querendo ou não (eu realmente não queria, acreditem), o Distrito Vegetal reflete essa questão de classe: dos mais de 100 estabelecimentos listados no nosso guia, 90% se encontram no Plano Piloto. Tem a ver com a proximidade da minha casa também (tem mais asa norte que asa sul, por exemplo), mas acredito que isso é um fator menos determinante. Infelizmente, os restaurantes também parecem não conseguir escapar de uma lógica de mercado, em que quanto mais específico o cardápio, mais caro (porque isso funciona pros ingredientes e pra mão de obra também).

De qualquer maneira, uma das coisas que aprendi quando comecei a freqüentar shows de rock nas mais longínquas periferias de Brasília é que a classe não é uma categoria intransponível. Podemos promover um olé em certas barreiras e mesmo que a gente perca a bola algumas vezes, ainda dá pra criar o nosso jogo (sou péssimo com metáforas futebolísticas).

Mas para isso, antes de falar o que penso, talvez seja útil falar o que não penso:

Acho problemático o discurso do “o mundo pode ser vegan hoje, todo mundo pode ser, só depende de você”. Não, não depende só de você. Quem dera o mundo fosse tão simples assim e política fosse uma coisa que a gente fizesse só com amigxs (é também, mas não só). Mas babaca mesmo é o discurso de “o veganismo é para poucos, para fortes” ou qualquer baboseira do tipo. A variação classista desse discurso seria algo como “veganismo é pra quem tem grana” ou “não posso ser vegan, moro na periferia”. O que além de não fazer o menor sentido, carrega uma dose de paternalismo bruta, como se as pessoas que tem menos dinheiro tivessem menos capacidade ou sensibilidade para certas questões.

E por último, mas não menos importante, não acredito que em uma espécie de chá-de-cadeira da revolução em que devemos esperar a resolução do problema de classes na nossa sociedade para começar a pensar e agir sobre outras políticas, como a dos animais. “Depois da revolução e de solucionar os dilemas do capital-trabalho podemos começar a pensar em gênero, raça, espécie. Tudo decorre desse primeiro impasse”. O problema é que todo mundo quer reivindicar a  primeira contradição e eu acho é que essa revolução tá demorando demais pra chegar. E enquanto a gente espera milhões de animais são objetificados, torturados e mortos para a alegria tanto de burgueses quanto de proletários.

O veganismo tem um problema de classe. Sim. Mas isso não significa que o veganismo é uma política a se abandonar. Claro que não. A questão é: como a partir disso podemos transformar o veganismo numa coisa melhor?

No fim das contas, o que quero dizer é simples, admitir um problema, uma contradição, em uma política não significa abandonar essa política. A desistência é apenas uma das respostas possíveis diante de um mundo cheio de tantas contradições. Uma resposta conformista e asceta, se você me perguntar. Uma resposta que eu não estou interessado.

Por isso, pensei em alguns pontos, que já explorei bastante em outras reflexões, mas que se reforçados nesse tema da classe podem nos ajudar a pensar um veganismo mais bacana.

Mais sensibilidade a contextos.  Uma ética sem sensibilidade a contextos é uma ética fadada a se enrijecer e morrer. Visto como um monobloco de regras a serem seguidas o veganismo se torna um exercício ermitão, que contradiz o que de mais interessante existe nessa ética. Pra mim, veganismo é uma estratégia de combate ao especismo e exploração animal, é uma política de solidariedade entre espécies (incluindo a nossa) e uma maneira prática de reconhecer os animais como sujeitos.

Dito isso, creio que é importante entender que falar em veganismo vai ter significados distintos para quem mora no Plano Piloto e para quem mora em Águas Lindas.  Assim como o veganismo de alguém que mora nos EUA, com Loving Hut no shopping, vai ser uma experiência de práticas e significados distintos do nosso veganismo de 3º mundo. Diferenças que também podem valer entre alguém perto dos 30 que faz suas próprias compras de produtos de limpeza e um moleque de 15 anos que ainda mora com a mãe e ganha um tênis de couro da avó.

Por isso desconfio tanto quando um cara vegan nível 6 como o Gary Francione (não posso deixar de falar: branco, homem, gringo…) fala em “seja vegan” quase como uma obrigação. Sei que rola uma boa intenção, mas me preocupo em ver garotxs da periferia do planeta lendo isso e pensando: “Ou eu viro vegan (nos padrões do colonizador) ou sou um merda explorador”, quando a coisa não deveria funcionar assim.

Menos purismo. Enjaular o veganismo como uma escolha de consumo é igualmente problemático quando pensamos o problema de classe. O veganismo deveria ser mais do que uma lista de produtos a (não)consumir. Quando a gente equivale uma escolha política à uma escolha de consumo, implicitamente estamos reforçando que quem não tem condições de consumir aquilo tampouco possui agência política. E isso é cruel pra caramba.

Ao mesmo tempo, a própria noção de escolha pode ser problematizada como uma das mais sacanas enganações do capital. Algumas poucas empresas dominam a totalidade do mercado e talvez seja inócuo ficar procurando algum tipo de pureza no meio de tanta sujeira. O nosso leite-de-soja-de-cada-dia também está inserido num contexto global de commodities e outras relações macroeconômicas sacanas que praticam mais-valia em cima trabalhadorxs e exploram animais humanos e não-humanos.

O veganismo deve ser uma das nossas táticas e articulações para combater tudo isso e não para fingir que vivemos em outro mundo, de conto de fadas, em que podemos lavar as mãos e dissimular não-crueldade. Somos parte da engrenagem e só tendo consciência da nossa condição de peça é que podemos fazer alguma coisa. É triste pra caramba, mas faz parte de um desencantamento do mundo que acho importante.

Mais veganismo! Como disse anteriormente, não acho que a identificação de problemas e contradições é determinante para o abandono de uma prática política. Pelo contrário, pode ser um momento de reflexão e aprimoramento. Num mundo em que o capital é tentáculo não vai existir espaço que não esteja permeado pelas contradições intrínsecas a esse modo de produção.

Diante disso, o que você vai fazer? Desistência e apatia é a receita que vem nos ensinando no formato de 40hs de trabalho e novela da Globo desde que nascemos. Tô fora dessa.  Qual a lição do Black Flag? Tem alguma coisa que você acha que é certa e não tá acontecendo? Vai lá e faz.

Os restaurantes vegans são mais caros? Podemos criar alternativas. Ingredientes como arroz, feijão, soja, legumes em geral são bastante baratos, bem mais baratos do que carne proporcionalmente. Você pode aproveitar a cozinhar e aproveitar para ressignificar o espaço e as relações da cozinha da sua casa.

Não tem nada pra comer perto da sua casa? Você pode sugerir algumas coisas para a lanchonete ou o restaurante self-service perto da sua casa. Nem todo mundo vai te ouvir, mas temos exemplos positivos aqui no Distrito Vegetal.  Podemos criar redes de solidariedade, como esse blog, pra trocar dicas, receitas, etc.

Costumo fazer muitos paralelos entre veganismo e bicicletas, coisas aparentemente tão distantes, mas que na minha cabeça estão muito próximas. Vejam se faz algum sentido.  Da mesma forma que não dá pra esperar vivermos em uma cidade totalmente adaptada para locomoção não-motorizada pra andar de bicicleta, e que na verdade quanto mais gente andar de bicicleta mais segura será a cidade; não dá pra esperar todas as contradições do veganismo se resolverem para parar de comer carne, leite e ovos e na verdade quanto mais gente promover o veganismo mais fácil, simples e barato será o veganismo nas nossas cidades.

E assim a gente pode ir criando o nosso veganismo. Uma prática própria, local, com nossas contradições e com nossas conquistas.E o mais legal é que tudo pode começar quando você quiser.

Já jantou hoje?

33 responses to this post.

  1. Posted by júlio on maio 11, 2012 at 1:02

    inspirador o texto. acho que essa ponte entre o ovo-lacto e o veganismo (cito essa porque é a mais próxima da minha realidade) minimiza a medida que há “devoção” e bem-estar em ser assim. meio crente e meio polícia falar isso, talvez, mas vejo muita conveniência e estagnação justificadas em “tal coisa ser gostosa demais pra eu parar de comer” ou “já faço o bastante não comendo a carne”, o que só prova que a sua dieta é nada mais que um enquadramento, uma convenção social, uma pseudo vontade de reduzir quando na verdade não se faz o mínimo, desde procurar receita e fazer comida em casa até se conformar com o pão com queijo e ovo dito única opção nas ruas. o veganismo custa caro e pode ser complicado, inviável, mas quem adjetiva o hábito é você, é sua consciência. ler o texto me fez me enxergar como mais um conformadinho e reclamão (não tô buscando a pureza, nada disso), e que prefere transferir a responsabilidade ao invés de se aprofundar no que hoje nada mais é que uma afinidade. de afinidade pra bem-estar rola uma distância brutal, e que só muda se você quiser que mude. do veganismo-sacrifício pro veganismo-prazer, já, ou quando eu quiser que seja assim.

    Responder

    • Posted by Rosanne Pizzato on junho 18, 2012 at 1:00

      O veganismo precisa iniciar no nosso coração, quando isto acontece ganhamos força e vencemos obstáculos. Quando conheço pessoas novas e elas querem saber por que não como nada de origem animal, respondo que sou contra o sofrimento animal. Só isto. Esta resposta causa um certo desconforto, pois fica implícito que quem come é a favor deste sofrimento. Nunca entendi por que falam que a alimentação vegana é cara. Arroz, feijão, batata, lentilha,massa, couve, cenoura, entre muitos outros, não custa caro. Esta desculpa é muito “podre” e sempre me irrita. As pessoas sempre procuram se justificar e o caminho não é este. Quando alguém diz que é difícil resistir a determinados pratos, é por que não sente a real compaixão necessária para não comer animais ou derivados. Não tem como forçar. Desta mesma forma, quem sente esta compaixão, fica sem comer quando esta fora de casa e não encontra uma opção vegan.

      Responder

  2. Achei super bem escrito o seu post.

    Ainda assim, na minha cabeça vêm muitas ideias sobre o assunto:

    De fato, hoje o veganismo é um negócio meu chic (http://www.businessweek.com/magazine/content/10_46/b4203103862097.htm)

    Adiciono o larry page na lista por ter tido infos de que ele só come no restaurante vegano do google.

    E, de fato também, quem mora longe de onde trabalha (normalmente pessoas de menor renda), e portanto tem long commute vai ter que comer na rua o dia inteiro e vai tentar minimizar a conta. Esse povo normalmente come mal e acaba virando obeso e/ou com diabetes. Isso é o que eu vejo na rua, de alguma forma o IBGE discorda (http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1699&id_pagina=1)

    Tem a pirâmide de preocupações, se tu não tem nada melhor para fazer (faço parte do grupo) você fica pensando de onde vem a comida e o que melhor comer para o meio ambiente e para ti mesmo. Se tu está cheio de problema, sem tempo para nada, a qualidade da comida/de onde vem as coisas, é absolutamente irrelevante.

    Esses são os argumentos a favor da tese do elitismo.

    Os argumentos contra são que: (1) é muito mais barato comer sem derivados de produtos animais (viver eu não sei dizer, mas quem precisa de maquiagem, bolsa de couro e algum produto de limpeza besides detergente, sabonete e sabão em pó? Sei que um sofá de couro é muito mais caro que um de tecido ou de couro sintético) (2) mesmo na rua, pedir a salada é mais barato que pedir o filé, em Bh existem restaurantes por kilo que se vc não pegar carne o quilo é mais barato.
    (3) esse é o mais importante na conta final: comendo bem vc não precisa de tantos remédios/procedimentos cirurgicos. Não demora, as seguradoras de saúde vão considerar isso no preço. Além disso, são mais dias trabalhados no ano (pessoas doentes faltam ao trabalho). O modo de vida é responsável por 98% dos cancers e 99% das doencas de coração, que juntas são responsáveis por enorme parte das mortes. Quer não gastar com remédios e médicos, seja vegano.

    Responder

  3. Posted by tui on maio 11, 2012 at 7:58

    Curti o texto e o comentário acima, mas eu gostaria de mostrar outra realidade: até 2 meses atrás,eu morava em Olinda, acordava cedíssimo no sábado e ia de bike,com um caixote acoplado ao “bagageiro”,à feirinha orgânica. Ela começa às 4 da manha (com tudo recém colhido!) e terminava às 6:30, 7 estourando…
    Eu sou naturalmente notívaga, entao pra mim é dureza acordar essa hora! mas eu fazia um pequeno esforço toda semana e era recompensada com a visao da geladeira cheia de fresquinhos sem pesticidas nem aditivados (já repararam nos atuais cenouroes e batatoes enormes e sem gosto q se encontram nos supermercados da vida?!?)…valia MUITO a pena e eu voltava SEMPRE FELIZ!
    Mas e agora, que moro longe e to sem carro, trazer as coisas de ônibus é um suplício!
    mas outra vez, todos os esforços e auto-motivaçoes têm razao de ser quando consigo trazer para a minha vida toda a SAÚDE que houver nessa vida!

    Quanto a o “veganismo xiita”, nao concordo…se tenho acesso a mel retirado pelo próprio apicultor, queijo da cabra q o próprio camponês cria durante anos,
    ou ainda 2 ovos de galinhas que vivem livres num terreiro enorme, só comendo e ciscando o dia inteiro? qual a crueldade nisso??

    AGIR COM CONSCIÊNCIA E SEM FANATISMO!
    RESPEITAR OS ANIMAIS E BUSCAR SAÚDE AO NOSSO COTIDIANO E AO MUNDO!

    abraços,

    Tui*

    Responder

  4. Posted by Aline on maio 11, 2012 at 20:37

    O interessante é que, na realidade, o veganismo só é mais caro quando queremos coisas diferentes! Tofu, tempeh, restaurante gourmet, agave, etc etc. Mas no dia a dia, arroz e feijão, é bem mais barato!! Quando vou a restaurantes onívoros, minha refeição é sempre mais em conta… Até porque costumo comer o que é denominado “acompanhamento” ou “entrada”!! Fui a um restaurante japonês ano passado aqui em Bsb (esqueci e nome) e me fizeram o preço infantil no buffet, o que achei ótimo, já que adoro rolls veganos e palitos de vegetais, dentre outras delícias que existem em restaurantes japoneses!!
    Realmente, na lanchonete aqui onde trabalho, por exemplo, a única opção que poderia ser considerada vegana seria o suco e talvez algum picolé de fruta… Salgado? O máximo que vai ter é um enrolado de queijo. Então trago meu lanche todos os dias de casa. Quando não posso almoçar em casa levo marmita também, pq sei que provavelmente não vai ter nada interessante pra mim! Às vezes tenho boas surpresas, mas a regra é “tem salada”…
    Agora… para o lado da saúde… orgânicos são caros para vegetarianos e onívoros!! Vegetais orgânicos e não transgênicos são mais caros mesmo, mas também é a carne orgânica, o ovo caipira, o leite não sei o quê! Então a diferença não é ser vegano ou não!
    Infelizmente concordo que os restaurantes especializados em Brasília são em geral mais caro, dificultando um lanchinho em conta quando as coisas estão apertadas… Mas, como vc disse, isso não é motivo para desistirmos do que acreditamos. Até porque, conforme a história da bicicleta, quanto mais pessoas procurarem um menu vegetal (mais em conta), mais opções vão aparecer. Acho que mesmo o aumento da lista aqui no distrito vegetal mostra isso, o que é incrível!!

    Responder

  5. Posted by Aline on maio 11, 2012 at 20:38

    Ps.: Esqueci só de dizer. Gostei muito do post! Gosto dessas reflexões e de poder “conversar” sobre esses assuntos!

    Responder

  6. Posted by Alzira Valeria on maio 13, 2012 at 22:13

    Texto inspirador e corajoso. Menos hiprocrisia e mais debate para que cada os pratos veganos estejam sempre nas nossas mesas.

    Responder

  7. […] O que é Distrito Vegetal? « O problema de classe do veganismo […]

    Responder

  8. Posted by Fabiu on maio 18, 2012 at 19:26

    Então… Meio que nessa linha de raciocínio posso enquadrar as mega corporações que estão investindo na carne, ovos e leite “feliz”. O que essas empresas querem é ter um espaço nos supermercados com “produtos” mais caros. Ou seja, o rico compra e se sente bem ético, e o pobre que não tem grana leva a culpa, além de ser explorado no dia a dia. Por isso chamo esse bem-estarismo a la WSPA de duplo apartheid. Não interessa nem aos animais humanos quanto a não humanos. É o capital se expondo em sua maior voracidade!
    Há quantas décadas vegetais orgânicos são para a elite underground? Por que não se tornam padrão? Não querem perder a dominação.
    Mais do que exigir orgânicos serem padrão, enquanto não mudarmos nossa postura lógica de trabalho na sociedade, como por exemplo plantar nossa comida sem depender de transporte que consequentemente gera toneladas de desperdício, tudo isso será miragem.

    Responder

  9. Posted by Fabiu on maio 18, 2012 at 19:39

    E uma coisa que veganXs podem entender: Tempo, cultura, informações demandam de um mínimo de condição social. Vamos na raiz!

    Responder

  10. Posted by Roberta P. B. on maio 19, 2012 at 17:56

    Quem tem mais condições financeiras certamente terá mais chances de comprar mais e melhores produtos vegans, mas uma dieta vegan pode sair muito mais barata do que aquela de quem come carne. Carne é muito mais caro do que frutas, verduras. Um viés do texto é que talvez o veganismo esteja muito associado ao nível de instrução e, infelizmente, ele está, em geral, relacionado com o nível econômico em nosso país.

    Responder

  11. Só uma correção. Você disse “E enquanto a gente espera milhões de animais são objetificados, torturados e mortos para a alegria tanto de burgueses quanto de proletários.”
    Na verdade é pra alegria de burgueses MAIS do que de proletários 😉

    Responder

    • Posted by poney on maio 21, 2012 at 13:18

      bem, o que eu quis dizer é que o esquadro da classe é insuficiente pra pensar a questão do especismo.

      Responder

  12. Posted by Cristiane Carvalho on maio 21, 2012 at 18:18

    Em casa somos vegetarianos e estamos tentando adotar o veganismo. Aos poucos estamos deixando de comprar produtos de limpeza e higiene pessoal que testam ou tem componentes de origem animal. Não tenho tido grandes dificuldades pq não tenho grandes pretensões no quesito alimentação. Noto hoje que o $ dura mais, os pratos são mais variados, conheci e utilizo novos temperos. Mas, sempre comentamos que, ao excluírmos produtos de origem animal, produtos que são testados em animais , produtos com agrotóxicos e transgênicos ficamos com pouquíssimas opções. Ainda assim, não desistimos.
    Mas, concordo que o vegetarianismo e o veganismo tem a ver com classe social, pois é preciso ter acesso a um conhecimento que não está nas novelas, nos comerciais de TV ou nos Datenas da vida. Pode parecer preconceito, mas não é. Tenho plena consciência de que as pessoas são vítimas do meio em que vivem. Eu só tive um pouco de sorte, apesar de ter demorado 39 anos pra perceber que não devo me servir da vida dos animais.
    Isso, sem falar da questão do capitalismo, que nos transforma em máquinas de trabalho, e os animais em mercadorias, com a finalidade de dar lucro a uns poucos inescrupulosos. Espero que um dia a justiça seja feita.
    E parabéns pelo post e pelo site : )

    Responder

  13. Posted by Simone Lima on junho 3, 2012 at 21:28

    Poney, como sempre , post genial.É engraçado que da mesma forma que a gente ouve aqui que veganismo é coisa de classe média- e-alta, eu ovuia nos EUA que veganismo é algo pra países ricos, e totalmente ilusório para o terceiro mundo. Como se para ser vegano você precisasse de carnes fake carésimas , iogurte de leite de coco gourmet e o latte de soja do starbucks. Eu sempre respondia que na verdade em países como o Brasil o arroz, o feijão, a abóbora, a miandioca são muito mais baratas. e que portanto é plenamente possível se ter uma alimentação vegana a preços populares. O que ocorre, é claro, é uma histórica e cultural supervalorização da carne: quem nunca viu um pai de família miserável ir no supermercado e gastar parte de um do seu minguado sustento comprando carne, mesmo que de terceira,, para botar na mesa? Quem não viu as propagandas de barateamento do frango nacional como uma estratégia de segurança alimentar? ( super seguro, hormônios e conservantes na dieta….!) `Botar carne na mesa ainda é considerado marca de status, e ainda tem quem ache que só carne alimenta.
    São poucos os nutricionistas ,pessoas influentes nas opiniões públicas, educadores, líderes comunitários, etc, que têm uma visão mais acurada de nutrição, mas eu- educadora que sou- acredito no poder da informação, da formação de leitores e “consumidores” de conhecimento mais críticos, mais investigativos e neste sentido, mais abertos a informações sobre o que de fato no nutre e quais são os custos ( pro planeta, pros animais, pra nossa saúde) daquele frango barato.

    Nos EUA, onde a miséria tem outra face- a da obesidade porque comidas industrializadas e fast foods são muito mais baratas do que comidas frescas- testemunhei um fenômeno interessante de interesse por comida vegana por conta das implicações de saúde. Washington é uma cidade com muitos bairros com uma porcentagem de pessoas pobres alta. Lá eu voluntariava com o Compassion Over Killing e panfletava o guia vegano de lá em entradas de metrô. No primeiro dia que fui panfletar numa estação de metrô de bairro”pobre”, tinha uma expectativa de que nossa mensagem ia ser mal recebida. (ou seja, eu tinha engolido o esteriótipo de que ser vegano é coisa de classe média branca americana). Qual não foi minha surpresa ao descobrir que a recepctividade aos nossos guias era tão grande quanto ou maior do que em bairros hipster. O fator primordial era saúde: a população pobre norte americana é obesa, tem diabetes, hipertensão e todas estas mazelitas que o Brasil quer ter com seus programas de crescimento sem sustentabilidade. Então muita gente fazia a maior festa ao conversar conosco. Tenho que dizer que a Oprah tinha um apel gigante nisso. Ah, mas ela não é vegana, ficou só por uma semana, tinha um chef particular. Mas tanto ela como Bill Clinton colocaram em rede nacional, lá, a questão do veganismo pra saúde, e não se pode negar a influência que pessoas assim têm. Puristas gritarão: ah, mas eles nem são veganos de verdade , estão bastardizando a palavra, fazem só pra defender a própria saúde, blablablá. , Clinton ainda usa couro, blablablá. Tô nem aí, sério. Não porque eu queira ser mezzo-vegan como eles, não porque eu não ache que a razão primordial de ser vegana é como vivem e como morrem os animais explorados por seres humanos; mas porque estrategicamente, qualquer coisa que divulgue a idéia, coloque-a lado a lado com outras coisas legais ( saúde! proteção ao ambiente!! compaixão!! libertação!!!) me ajuda em meu trabalho de tornar mais pessoas sensíveis ao que comem, usam e consomem.

    Responder

  14. Posted by só um onívoro. on junho 6, 2012 at 6:01

    Cara, adorei seu post. Não quero – e talvez nem possa – dar xaropação moral. Só um pequeno, e talvez desnecessário, complemento: nossa país é gigante e nossas opções são diferentes em cada lugar. Já passei por grandes dificuldades no nordeste por exemplo. Não é legal acusar alguém de falta de esforço – e de maneira ALGUMA você fez isso – e, apesar de concordar que existam opções (que com certeza tirarão pessoas de sua zona de conforto), devo dizer que carne não é tão cara como dizem por aí. Há estímulos do estado? Claro! Mas, hoje, por exemplo, o peito de frango e bisteca estavam bem baratos no super maia. Isso não é só status (como a Simone disse). Na boa, tocar nessa dimensão de classe, como você fez, é muito relevante. Buscar soluções é fantástico. Mas admitir isso é lindo: e me faz querer voltar ao vegetarianismo. Não me sinto culpado por ainda comer carne, mas não apenas respeito, como admiro, quem optou pelo veganismo. Sei bem que não é fácil. Mas isso é muito importante. O corbucci, por exemplo, é caríssimo! Claro, ele atende a outra faixa de público, mas me incomoda pensar que uma certa bandeira vegetariana em brasília esteja destinada à classe média/alta. Enquanto as pessoas falam de feijão, mandioca e arroz, vejo o vegetarianismo se afirmar comercialmente com outros olhares., Juro que sou o primeiro a abrir mão de carne, mas não vejo a carne como mero “status”. Dependendo do dia que vou ao mercado, sai literalmente mais barato comprar carne de terceira – em termos medicinais até mais saudável que carne de primeira, vamos ressaltar(pois carne de primeira tem a ver principalmente com gordura) – que comprar certos vegetais ou fungos. Sou de classe média, formado em universidade, empregado. óbvio, tenho escolhas. Mas quem sou eu pra condenar moralmente alguém por não comprar shitake (ou, ainda mais cruel, achar que a pessoa seja obrigada a comer arroz, feijão e abóbora em seu dia-a-dia)? Enfim, se quiser, pode apagar. É apenas um desabafo. Pois já penei muito, mesmo como estudante de classe média, pra manter uma dieta vegetariana. E acho bacana colocar nesses termos. Um abraço, acompanharei – ainda com mais frequência – o blog. E ainda pretendo voltar ao veganismo. Que, em meu caso, acima de uma empatia por outras espécies – que confesso não ter – me trouxe vários benefícios de saúde. (=

    Responder

    • Posted by poney on junho 6, 2012 at 19:04

      poxa, por que eu apagaria o seu comentário? acho que uma das coisas mais legais que esse post está fazendo é esse diálogo. e se temos pessoas tão diferentes dialogando, melhor ainda. =)

      Responder

  15. Eu iria dizer que esse foi o melhor post do distrito vegetal mas na real foi uma das melhores coisas sobre veganismo que eu já li, gosto mais de Poney do que Regan. Por levantar algo, que eu não tinha uma resposta “definitiva” dentro de mim mesma e pra mim mesma para depois falar aos outros realmente acreditando nisso, e “”solucionar”” de uma forma que embora eu não tivesse parado pra pensar assim antes eu me identificava com cada palavra. Parabéns =)

    ps: mas assim…desiste do futebol ta? (brincadeira! haha)

    Responder

    • Posted by poney on junho 8, 2012 at 3:30

      haha! valeu! é muito bacana ler isso, eu sinto que a maioria das publicações sobre veganismo ainda é muito apresentando o veganismo, o que é muito legal e tal, mas acabam faltando espaços para pensar criticamente o veganismo. não dá pra ficar sendo constantemente reapresentado pra um negócio por uma década. hehe.

      ps:
      desisti do futebol em 1997,

      Responder

  16. Posted by Sara on junho 7, 2012 at 18:07

    Obrigada por exprimir de maneira tão clara e didática o que está por trás dessas práticas e dentro da gente…pura metalinguagem!

    Responder

  17. Poney, o texto é bem vindo para o debate. Aprofundar a questão é necessário, sim! O texto realmente não dá conta, meu comentário muito menos. Mas estou atento ao debate. Eu mesmo já promovi este debate quando o veganismo ainda era – não por acaso – bem restrito. Sem detalhar as possíveis vertentes, veganismo é uma opção. A necessidade de se alimentar é condição e como tal diretamene relacionada as possibilidades reais, objetivas! Por isso, minha sugestão, é que o tema das opções alimentares sejam debatidas no interior das necessidades humanas, sendo a principal, a alimentar. Deslocá-la desse espaço, na minha opnião, é tangenciar as contradições que não cabem mais sob o tapete que assola os de baixo. A alimentação não só é um dos negócios mais lucrativos no mundo (mais que o petróleo, p.e.) como também uma poderosa ferramenta de controle da população mundial (há mais de 50 anos o brasileiro Josué de Castro já denunciava a política da fome no mundo mais devastadora que as duas grandes guerras juntas, porém, sem comoção que gerasse mudanças nas estruturas que provocam a fome – comer não é alimentar-se!). A alimentação (ou o minimo vital, como chamaria alguns), campo, cidade, capital, trabalho, produção, consumo e classe estão completamente relacionados. Resolver suas contradições ainda é uma necessidade. Pensemos nisso quando o jantar estiver na mesa. Abraço!

    Responder

  18. http://vegcasa.blogspot.com.br/
    Eu acho o veganismo elitizado. Aqui em Belém eu desenvolvo um trabalho de distribuição de alimentação Vengan com um cardápio variado q cabe no bouço das classes baixa (onde eu me enquadro) temos a ideia de desmistificar justamente isso q o veganismo é para poucos. Ministro oficinas de rango vegan via internet (pessoalmente tbm) no qual não peço q a pessoa compre nada e criamos os pratos com os ingredientes q a pessoa possui em casa pra mostra q o único limite para a culinária vegan é a violência e maus tratos para com os animais.
    A distribuição é feita de bike!

    Responder

    • Posted by marcela on dezembro 18, 2014 at 5:48

      Eu acho legal a intenção da postagem, mas pelo menos aqui em Fortaleza, ser vegano é caro sim. Afinal, quando você é vegano, quanto mais variedade melhor! E com pouco dinheiro, claro que dá pra ser vegano, mas com um LIMITADÍSSIMO leque de opções.

      Responder

  19. […] querem (e devem!) ter o prazer de comer besteiras de vez em quando. E esse é um dos impasses do veganismo e a questão de classe, fácil falar que existe arroz, feijão, mandioca, lentilha (existe mesmo e é uma delícia) […]

    Responder

  20. […] 2 O problema de classe do veganismo 27 COMENTÁRIOS maio 2012 […]

    Responder

  21. Posted by Luiz Eduardo on maio 8, 2014 at 18:57

    Acho que é uma postagem parcial, pois sei que produtos industrializados veganos são caros, mas na verdade, é coisa para quem quer comer besteira tipo hambúrguer, ou salsicha…. Um kilo de carne passa dos 20,00 R$.. Enquanto posso comprar 5 kilos de arroz, alguns de feijão e varios condimentos como cenoura, couve, brócolis….
    O que me alimentaria por dias, e a 1 kilo de carne iria em um dia só, talvez em dois..
    Então a alimentação vegana, direto da terra é super barata, tirando o fato de que podemos fazer hortas urbanas e diminuir ainda mais os gastos…
    Veganismo só é caro, para quem não sabe se alimentar…
    Dá para conciliar produtos naturais e industrializados veganos tendo uma renda baixa, sou vegano a quase dois anos, não ganho nem 200,00 R$ por mês(o que gasto a maioria em ônibus e ajudando as despesas de casa, o que resta eu compro o que como, e o que a minha família prepara também, já fiz as contas de o quanto gasto mensalmente, minha alimentação não custa mais do que 100,00 R$, isso por que ainda compro minhas comidas industrializadas de vez em quando, e minha mãe compra o arroz e feijão(o que já inclui na conta)os legumes e verduras, cada hora um compra)!!
    Então é mito de que veganismo é caro, só é caro para quem só se alimenta de produtos unicamente veganos, comprados em lojas de produtos orgânicos, em um bairro classe média!!

    Responder

  22. Posted by marcela on dezembro 18, 2014 at 5:46

    Assim, acho legal que você tente expor de outra maneira a questão do veganismo elitizado. Mas a realidade é que é caro ser vegano sim. Claro que você consegue ser vegano sem dinheiro, mas você vai ter beeeeem menos variedade, cores e sabores do que uma pessoa que pode comprar quinua, chia, grão de bico, amêndoas, castanha do pará, etc.
    Digo isso porque diversas vezes firmo uma meta de abolir os derivados animais da minha vida, mas na hora da fome o yogurte é o que eu tenho e não o leitinho de amêndoas com cacau alcalino.

    Responder

  23. Posted by Virginia on setembro 13, 2015 at 1:29

    Concordo com seu posicionamento e me identifico com esses problemas de classe. Na realidade comecei a pesquisar sobre a política ontem e resolvi conversar com meu amigo Fábio Chaves do Vista se para entender e começar a adaptar a idéia.Hj sou desempregada e faço doces confeitos para ajudar com as despesas. Moro sozinha com 3 crianças.A adaptação aqui será bem difícil e ainda ap9s minha conversa com o Fábio chegou aqui em casa mtas carnes e leite.E agora o que fazer né.Se puderem compartilhar receitas me ajudariam muito.Além disso vou procurar começar os confeitos veganos e assim que der certo vou postar pra vcs. Grande abraço a todos.

    Responder

    • Olá Virginia, você tem alguma pagina que divulga seus confeitos? Conheço alguns sites que tem podem ter receitas interessantes para você, e também te dar ideias para adaptações. Caso queria conversar mais a respeito disso ( adoro cozinhar e afins ) meu email é ruansoaresleite@gmail.com que já passo algumas sites bem práticos como o ” Presunto Vegetariano ” que tem receitas lindissimas e da para vender tranquilamente. Abração!.

      Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: