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Kebaara e a misantropia vegan de pequenos grupos


Primeiramente, deixa eu contar logo à boa notícia para os esôfagos vegans mais apressadinhos (a gente sabe como eles podem ser um tanto impacientes): finalmente, temos de volta Falafel à preços acessíveis no nosso Distrito (nem-tanto)Vegetal. Informações e detalhes você encontra logo abaixo das inúmeras elucubrações que serão desenvolvidas em 3…2…

…1. Dia desses saí pra jantar com o pessoal do trabalho da minha namorada. A gente foi num restaurante mexicano na asa sul que eu não conhecia, El Paso Texas. Ele inclusive está presente na nossa lista inicial de restaurantes com opções veganas, lista esta que necessita urgentemente de uma longa, penosa e esmiuçada atualização. (primeira meta para 2011?)

Lá, me surpreendi com a surpresa das pessoas em relação ao nosso vegetarianismo estrito. Pra algumas daquelas pessoas (só algumas), parecia que nós éramos de outro planeta. Por um instante me senti um herói, por estar fazendo algo tão sofrido, tão difícil, tão árduo: parar de comer bife. Fala sério, eu detesto isso. Muito melhor ver as nossas atitudes como simples, fáceis e claro, agradáveis. Acho que o mundo não precisa de mais heroísmo. Vegano ou não.

Seja como for, momentos como esse, são sempre boas oportunidades de desenvolver a paciência, falar um pouco sobre o que você acredita (se a pessoa está interessada em ouvir – nada pior do que pregação vegan) e mais importante, tomar um chazinho de realidade. Cuidado, pode ser amargo.

Eu sei que isso demonstra um grave traço de anti-sociabilidade, mas a verdade é que eu não tô mais acostumado a conviver com pessoas que comem carne, ou que achem estranho não comer. Não consigo evitar de pensar que todos esses anos de veganismo foram moldando minhas relações sociais para uma subcultura bastante específica e esquisita.

E eu gosto disso.

Por outro lado, pode ser que as coisas nem sejam tão assim, mas como eu cresci sob a régua e o esquadro da estrutura punk rock de organização social, em que tudo são cenas, rolês, grupos de apoio, cultura subterrânea, eu acabo vendo o mundo dessa maneira. Sei lá.

O que eu sei é que pensar em tudo isso me leva a uma conclusão paradoxal, mas muito interessante. O veganismo, apesar de uma postura (difícil substancializar) que cultiva a empatia por outros seres acaba provocando um isolamento e um estranhamento com a nossa própria espécie. Eu costumo brincar e chamar isso da “misantropia vegan de pequenos grupos”.

Talvez possamos dizer assim: flexionar o olhar para “o outro” (que não precisa ser alguém da cisão humano-animal, mas pode ser, no meu caso específico, uma garota ou um homossexual, por exemplo) faz com que a gente perca cada vez mais a identidade com o que é “o próprio”.

E mais uma vez, eu não vejo essas implicações de maneira negativa. Certamente não. Primeiro, porque eu não acho que se afastar da (ou não se ver mais na) humanidade seja algo ruim. Acredito que é justamente esse afastamento que permite a empatia necessária pra um passo ético como o veganismo. Muita humanidade, muita razão é igual a muito degrau, muita dominação. Segundo, porque eu realmente aprecio os arranjos micropolíticos e vejo neles uma capacidade de transformação bastante significativa. No fim das contas, essa é a ideia por trás desse blog desde o começo, de que veganismo é algo que fica mais legal quando a gente faz junto.

Já escrevi um bocado sobre isso e pretendo escrever mais no futuro. Espero que não se incomodem de eu utilizar um pouco do nosso distrito para isso.

Mas tudo isso pra falar do que mesmo? Do Falafel! Pois é, agora além de limitar meu círculo social, eu posso limitar minha necessidade de locomoção (nota mental: parar com tanto cinismo) e ainda aumentar o espectro do meu cardápio! Tem um kebara na asa norte (409) e outro na asa sul (209) e eles servem um delicioso sanduíche de falafel num preço acessível.

O pão pode ser ciabatta ou sírio, ambos veganos. Tem um monte de tempero, molho e acompanhamento sem galináceos também. Sugiro caprichar no homus, botar quente no babaghanoush e se afundar nos picles. E ainda tem um combo com batata-frita. Tem alguma coisa que fica ruim com batata-frita? Péra aí, eu respondo: Não.

Em boa parte da Europa ocidental, o falafel é a comida de rua mais popular entre vegetas. Me salvou várias vezes por lá. Fico muito feliz de finalmente termos um esquema desse mais prático aqui em Brasa. Alguns lugares não servem mais o falafel (Manara e Nilo, esse último fechou) e outros são boys demais e tem uma estrutura restaurantal diferente desse esquema prático e fast-food que a gente curte.

Como vocês sabem tão bem como eu, a praticidade da comida vegan na rua é um dos maiores empecilhos da nossa prática misantropa. Bem, nem isso é desculpa mais.

Kebaara: falafael + batata-frita + atendimento camarada.
408 Norte e 209 Sul. Telefone: 3443-0204

P.S.: Eu nunca nem tinha procurado ler nada sobre misantropia, usava o termo com deslavada fanfarronice. Mas olha só que interessante: “Os misantropos expressam uma antipatia geral para com a humanidade e a sociedade, mas geralmente têm relações normais com indivíduos específicos (familiares, amigos, companheiros, por exemplo). A misantropia pode ser motivada por sentimentos de isolamento ou alienação social, ou simplesmente desprezo pelas características prevalecentes da humanidade/sociedade.”

Acho que encaixa bem com essa pegada vegan não-humanista.  hehe.

tcham!

Tuza’s: o gostinho da comida vegan pós-apocalíptica

Todo esse nosso papinho de comida vegan, esses sonhos e devaneios de distritos mais vegetais,  sempre anda de mãos dadas com conversas sobre alimentos verdes, comida saudável pra gente e pro resto das não-gente.

O que é muito legal, nenhum problema. Sou um baita entusiasta de comida orgânica, viva, crudívora. Acho que o melhor rango que já comi até hoje foi num crudívoro no Leblon. Sorte de vocês que esse não é um “Rio Vegetal” senão vocês teriam que aguentar longas dissertações a respeito da lasanha com queijo de macadâmia, do shake de leite de castanhas, ou do brownie com chantilly de banana. Foram experiências transcendentais as que eu obtive com esses alimentos, constrangendo profundamente minhas companhias céticas.

Mas bem, eu sempre fico pensando (às vezes penso demais) em como seria cultivar hábitos veganos em um mundo em que simplesmete não haja mais espaços para cultivos saudáveis. Tive um gostinho de como é se alimentar em um mundo massiva-e-agressivamente industrializado, urbanizado e concretado quando estive em Osaka, Japão. E posso dizer que não foi das coisas mais agradáveis. Muito Subway com abacate.

Por outro lado, os fast-food de junk food vegan que eu adoro me dão outro gostinho desse mundo. E é um gostinho muito do gostosinho esse último.

Beleza, tudo o que eu quero dizer pode ser resumido na seguinte pergunta: Dá pra ser vegan depois de tudo acabar? ou ainda, Afinal de contas, aquela latinha de comida de cachorro do Mad Max 2 era vegan ou não?

Talvez uma resposta possível esteja no bairro inflamado pela especulação imobiliária no DF. Acho que em Águas Claras podemos ter um gostinho do que é a culinária vegana em um mundo pós-apocalíptico.

(Esse papo me lembra uma das mais cretinas perguntas que todo mundo que para de comer carne é obrigado a escutar: “mas aí, se você tivesse sozinho, numa ilha deserta, depois do trágico acidente de avião que trazia você e umas vacas, morrendo de fome…”)

Águas Claras é uma espécie de bomba-relógio em formas verticais. Não sei o que vai acontecer com aquele lugar quando todos os prédios estiverem construídos e habitados. Talvez ela colapse dentro de si como um buraco negro ou algo do tipo, não sei bem. O que me importa é que mesmo naquele espaço semi-construído (me refiro àquele lado mais oeste de Creedence, ali nos arredores da estação Concessionárias – que nome mais agradável não?) tomado de poeira e asfalto, a gente conseguiu encontrar alguma comida vegan para acalentar e acalmar nossas barrigas.

E o que poderia florescer de vegano no meio do pó? A refeição mais básica de qualquer alimentação vegana, a mais gloriosa combinação desde o arroz com feijão: açaí e batata-frita. Sei que posso soar demasiado bronco ao fazer essa declaração, mas é a minha refeição favorita. Assim como a maior felicidade parece estar na realização das necessidades fisiológicas mais básicas, a maior alegria culinária pra mim está numa tigela de açaí com batata.

Na Lanchonete Tuza’s, uma espécie de Sky’s da região, você pode se esbaldar com litros da iguaria do norte batida com diferentes frutas (dica: peça pra trocar o saquinho de leite condensado por dois de granola) e uma cabulosa porção de batata-frita. Sério, é muita batata. Oleosa, deliciosa, daquelas que provocam até dor nos rins depois de mastigadas e engolidas.

A especialidade do lugar são sanduíches com muito bacon, ovos e presuntos.  Mas quem sabe um dia a gente consegue colocar uma sojinha no meio de tanta carne? Já colocamos em outros lugares, o norte deve ser esse.

Norte que é também da onde veio o Açaí, trazido do Pará. As batatas não sei onde foram plantadas. Certamente não em Águas Claras. Acho que só nascem carros ali. Mas o mundo não acaba todo de uma vez, não é mesmo? Ele vai se desmanchando em pedaços e eu realmente espero que as plantações de coquinho no Pará sejam uma das últimas a ir embora.

Tudo bem, confesso que pintei Águas Claras com cores um tanto dramáticas. Já me adiantaram que lá existe um bom restaurante Mexicano, tem também o Salamandra, e a gente descobriu um tempinho depois A Toca do Açaí que conta com um wrap vegano, hamburgers de soja e, é claro, açaí. Quem tiver mais sugestões do que comer veganamente em Águas Claras, mande pra gente.

Até que o armagedom não é tão mal assim, né?

Tuza’s Burger
3209-6566
http://www.tuzasburguer.com.br/

tem açaí, véi!

Submore: transformado comida saudável em não-saudável

Sempre confundem minha alimentação sem galináceos com alimentação saudável. Quem dera. Gostaria eu de só comer grãos e leguminosas orgânicas, combinadas de uma maneira nutricionalmente bacana. Em duas postagens de Distrito Vegetal, você já percebe que não é o caso. Não é fácil assim se livrar de uma vida inteira de gordinho à base de junk food e da maneira única que todas aquelas comidas deliciosamente gordurosas combinam com um estilo de vida de vídeo-game, quadrinhos e vinis de rock.

A confusão, ainda assim, é muito comum. Pessoas se assustam quando levanto pra catar um Bono em cima do frigobar. “Pensei que você não comia essas coisas industrializadas”, “não, não” respondo mastigando os 90% de gordura trans pra dentro da barriga. Não que seja algo pra se orgulhar, mas ao mesmo tempo em que problematizamos uma indústria que mata e explora uma infinidade de seres vivos, também podemos problematizar toda a paranóia em torno de um “corpo saudável” e como isso se relaciona com a imposição de padrões estéticos escrotos. Ao mesmo tempo em que  que a própria cultura de comer mal e ver nisso um valor pode ser muito conivente com capitalismos, colonialismos e tantas outras opressões, por mais vegan que seja o seu prato de comida. Bem, gosto de pensar que cada pessoa faz o que pode e o que se sente bem. Veganismo como um devir constante.

Certo. O ponto é que se você quer comer fora de casa veganamente, muitas das opções possíveis vão ser lugares de comida saudável, ou Healthy Food, como chamam por aí colonialmente. Uma desses é o Submore que fica ali no final da Asa Norte. O lugar é bem agradável e o pessoal parece disposto a compreender as gambiarras necessárias ao cardápio para se pedir uma comida sem galináceos. Legal.

Você tem a opção de montar uma salada ou de montar um sanduíche. Eu geralmente peço um sanduíche, na baguete ou no pão sírio. Substituto os frios e as pastas por alface, tomate, milho, grão de bico, cebola ou se seu espírito for mais aventureiro, uva passas ou manga (urgh). Não há nenhum sanduíche quente vegetariano,o que é uma pena e um desperdício. Sempre deixo uma notinha nas sugestões pedindo sanduíches quentes sem carne. A única pasta vegana é uma de ameixa, que dá um gosto meio estranho ao sanduba, melhor trocar por alface ou outra salada. Rola um molho de mostarda com mel, se você come mel, ou de picles com azeite.

A porção de batata-frita custa R$ 3,50. É pouquinha batata, bem-feitinha, e nos permite aquela combinação mágica (o prato típico do veganismo brasiliense e já citado anteriormente aqui no DV): açaí com batata-frita. Pô, o açaí é o destaque do submore. O famoso açaí do Juan, La Nieve. Que também é o açaí de uma porrada de lugar chique de Brasília, como aquela Mormaii, que eu nunca fui. Você pode ligar lá na fábrica pra comprar direto com o Seu Francisco. Passei uma parte significativa da minha vida fazendo rock naquela fábrica e recomendo fortemente.

No final das contas é aquele trio típico: sanduíche, batata e açaí. Falta só o brinquedinho pra completar o McLanche Feliz.

Serviço:
Submore, 115 norte.

PS.:Em breve, uma série de postagens com avaliações desleixadamente criteriosas em torno da disputa: qual o melhor açaí do Distrito Vegetal? Deixem suas sugestões.