Posts Tagged ‘reflexões’

a indústria é o problema

dois textos que mostram que a indústria da carne, engrenagem produto/promotora do capital, é uma máquina de horror tanto para os animais humanos, quanto os não-humanos.

Cada um dos textos ajuda a desfazer duas falácias bastante comuns. A primeira é que “as pessoas que se importam/pensam/tem empatia por animais não sentem/fazem o mesmo por humanos”.  A segunda (a partir de um texto bastante preocupado em ser logicamente consistente – o que não é o meu caso) é a que “podemos criar animais  felizes e transformá-los em ‘carne feliz’ sem nenhum problema ético”. Bem, a questão é que mesmo que nessas condições ideaias (que não existem, o texto traz links com exemplos) as relações de propriedade e objetificação (capitalismo stricto sensu, lição 1) permanecem.

Veganismo é questionar (e se importar, porque a empatia tá sempre lá na frente) com tudo isso. 

 

“Moendo Gente” mostra péssimas condições de trabalho nos frigoríficos brasileiros

Investigação realizada pela ONG Repórter Brasil aponta os problemas à saúde e segurança dos empregados das principais indústrias de carnes do país

A rotina dos trabalhadores da indústria de abate de aves, suínos e bovinos envolve inúmeros riscos devido ao manuseio de instrumentos cortantes, a pressão por altíssima produtividade e, não raro, jornadas exaustivas em ambientes frios e insalubres.

What’s Wrong with Happy Meat? (O que há de errado com a carne feliz)

 

“To cause an individual to exist in a vulnerable and dependent condition is arguably to make oneself liable to certain duties of care…One must either refrain from causing it to exist or else arrange for it to have the care it requires once it s exists.”

Finally, it is worth noting that if it’s morally permissible to raise and kill happy animals for food, then it would be morally permissible to raise and kill happy humans who are cognitively similar for virtually any reason, including important ones such as organ replacement. Almost no one would find the latter acceptable, and if the only dividing line is species membership, then there is no reason to think differently about the former.

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O problema de classe do veganismo

Uma das críticas mais comuns a quem tem alguma simpatia pelo veganismo é que se trata de uma ética/cultura/prática elitizada, cara, inacessível. E geralmente a gente fica contra a parede, no esforço para mostrar que não é bem assim, que existem inúmeras alternativas, que pão com molho de tomate é baratinho, etc. Eu tenho passado minha vida fazendo isso.

Mas será que as críticas não tem um pouco de razão? Será que não estamos promovendo uma ética/política/cultura que ainda tem um grave problema de classe ainda para resolver?

Tenho que admitir que sim, o veganismo possui um grave problema de classe (não muito diferente de boa parte da política radical no Brasil). Mas talvez o primeiro passo para desconstruir esse problema é assumir o local de fala e abrir o jogo sobre esse problema. Esse texto é uma tentativa honesta de dar um primeiro passo.

Não pretendo com um post de internet dar uma solução final para o problema de classe nas nossas práticas políticas e de contracultura. Ainda tenho que ler muito neomarxismo pra isso, coisa que não deve acontecer tão cedo. Mas isso não significa que a gente possa escrever um pouco e conversar sobre isso. Não precisamos de plataformas formais ou conhecimentos de determinados procedimentos para falar sobre as nossas vidas. DIY é isso.

A tal elitização do veganismo é inclusive uma das maiores críticas que recebo aqui no blog. E querendo ou não (eu realmente não queria, acreditem), o Distrito Vegetal reflete essa questão de classe: dos mais de 100 estabelecimentos listados no nosso guia, 90% se encontram no Plano Piloto. Tem a ver com a proximidade da minha casa também (tem mais asa norte que asa sul, por exemplo), mas acredito que isso é um fator menos determinante. Infelizmente, os restaurantes também parecem não conseguir escapar de uma lógica de mercado, em que quanto mais específico o cardápio, mais caro (porque isso funciona pros ingredientes e pra mão de obra também).

De qualquer maneira, uma das coisas que aprendi quando comecei a freqüentar shows de rock nas mais longínquas periferias de Brasília é que a classe não é uma categoria intransponível. Podemos promover um olé em certas barreiras e mesmo que a gente perca a bola algumas vezes, ainda dá pra criar o nosso jogo (sou péssimo com metáforas futebolísticas).

Mas para isso, antes de falar o que penso, talvez seja útil falar o que não penso:

Acho problemático o discurso do “o mundo pode ser vegan hoje, todo mundo pode ser, só depende de você”. Não, não depende só de você. Quem dera o mundo fosse tão simples assim e política fosse uma coisa que a gente fizesse só com amigxs (é também, mas não só). Mas babaca mesmo é o discurso de “o veganismo é para poucos, para fortes” ou qualquer baboseira do tipo. A variação classista desse discurso seria algo como “veganismo é pra quem tem grana” ou “não posso ser vegan, moro na periferia”. O que além de não fazer o menor sentido, carrega uma dose de paternalismo bruta, como se as pessoas que tem menos dinheiro tivessem menos capacidade ou sensibilidade para certas questões.

E por último, mas não menos importante, não acredito que em uma espécie de chá-de-cadeira da revolução em que devemos esperar a resolução do problema de classes na nossa sociedade para começar a pensar e agir sobre outras políticas, como a dos animais. “Depois da revolução e de solucionar os dilemas do capital-trabalho podemos começar a pensar em gênero, raça, espécie. Tudo decorre desse primeiro impasse”. O problema é que todo mundo quer reivindicar a  primeira contradição e eu acho é que essa revolução tá demorando demais pra chegar. E enquanto a gente espera milhões de animais são objetificados, torturados e mortos para a alegria tanto de burgueses quanto de proletários.

O veganismo tem um problema de classe. Sim. Mas isso não significa que o veganismo é uma política a se abandonar. Claro que não. A questão é: como a partir disso podemos transformar o veganismo numa coisa melhor?

No fim das contas, o que quero dizer é simples, admitir um problema, uma contradição, em uma política não significa abandonar essa política. A desistência é apenas uma das respostas possíveis diante de um mundo cheio de tantas contradições. Uma resposta conformista e asceta, se você me perguntar. Uma resposta que eu não estou interessado.

Por isso, pensei em alguns pontos, que já explorei bastante em outras reflexões, mas que se reforçados nesse tema da classe podem nos ajudar a pensar um veganismo mais bacana.

Mais sensibilidade a contextos.  Uma ética sem sensibilidade a contextos é uma ética fadada a se enrijecer e morrer. Visto como um monobloco de regras a serem seguidas o veganismo se torna um exercício ermitão, que contradiz o que de mais interessante existe nessa ética. Pra mim, veganismo é uma estratégia de combate ao especismo e exploração animal, é uma política de solidariedade entre espécies (incluindo a nossa) e uma maneira prática de reconhecer os animais como sujeitos.

Dito isso, creio que é importante entender que falar em veganismo vai ter significados distintos para quem mora no Plano Piloto e para quem mora em Águas Lindas.  Assim como o veganismo de alguém que mora nos EUA, com Loving Hut no shopping, vai ser uma experiência de práticas e significados distintos do nosso veganismo de 3º mundo. Diferenças que também podem valer entre alguém perto dos 30 que faz suas próprias compras de produtos de limpeza e um moleque de 15 anos que ainda mora com a mãe e ganha um tênis de couro da avó.

Por isso desconfio tanto quando um cara vegan nível 6 como o Gary Francione (não posso deixar de falar: branco, homem, gringo…) fala em “seja vegan” quase como uma obrigação. Sei que rola uma boa intenção, mas me preocupo em ver garotxs da periferia do planeta lendo isso e pensando: “Ou eu viro vegan (nos padrões do colonizador) ou sou um merda explorador”, quando a coisa não deveria funcionar assim.

Menos purismo. Enjaular o veganismo como uma escolha de consumo é igualmente problemático quando pensamos o problema de classe. O veganismo deveria ser mais do que uma lista de produtos a (não)consumir. Quando a gente equivale uma escolha política à uma escolha de consumo, implicitamente estamos reforçando que quem não tem condições de consumir aquilo tampouco possui agência política. E isso é cruel pra caramba.

Ao mesmo tempo, a própria noção de escolha pode ser problematizada como uma das mais sacanas enganações do capital. Algumas poucas empresas dominam a totalidade do mercado e talvez seja inócuo ficar procurando algum tipo de pureza no meio de tanta sujeira. O nosso leite-de-soja-de-cada-dia também está inserido num contexto global de commodities e outras relações macroeconômicas sacanas que praticam mais-valia em cima trabalhadorxs e exploram animais humanos e não-humanos.

O veganismo deve ser uma das nossas táticas e articulações para combater tudo isso e não para fingir que vivemos em outro mundo, de conto de fadas, em que podemos lavar as mãos e dissimular não-crueldade. Somos parte da engrenagem e só tendo consciência da nossa condição de peça é que podemos fazer alguma coisa. É triste pra caramba, mas faz parte de um desencantamento do mundo que acho importante.

Mais veganismo! Como disse anteriormente, não acho que a identificação de problemas e contradições é determinante para o abandono de uma prática política. Pelo contrário, pode ser um momento de reflexão e aprimoramento. Num mundo em que o capital é tentáculo não vai existir espaço que não esteja permeado pelas contradições intrínsecas a esse modo de produção.

Diante disso, o que você vai fazer? Desistência e apatia é a receita que vem nos ensinando no formato de 40hs de trabalho e novela da Globo desde que nascemos. Tô fora dessa.  Qual a lição do Black Flag? Tem alguma coisa que você acha que é certa e não tá acontecendo? Vai lá e faz.

Os restaurantes vegans são mais caros? Podemos criar alternativas. Ingredientes como arroz, feijão, soja, legumes em geral são bastante baratos, bem mais baratos do que carne proporcionalmente. Você pode aproveitar a cozinhar e aproveitar para ressignificar o espaço e as relações da cozinha da sua casa.

Não tem nada pra comer perto da sua casa? Você pode sugerir algumas coisas para a lanchonete ou o restaurante self-service perto da sua casa. Nem todo mundo vai te ouvir, mas temos exemplos positivos aqui no Distrito Vegetal.  Podemos criar redes de solidariedade, como esse blog, pra trocar dicas, receitas, etc.

Costumo fazer muitos paralelos entre veganismo e bicicletas, coisas aparentemente tão distantes, mas que na minha cabeça estão muito próximas. Vejam se faz algum sentido.  Da mesma forma que não dá pra esperar vivermos em uma cidade totalmente adaptada para locomoção não-motorizada pra andar de bicicleta, e que na verdade quanto mais gente andar de bicicleta mais segura será a cidade; não dá pra esperar todas as contradições do veganismo se resolverem para parar de comer carne, leite e ovos e na verdade quanto mais gente promover o veganismo mais fácil, simples e barato será o veganismo nas nossas cidades.

E assim a gente pode ir criando o nosso veganismo. Uma prática própria, local, com nossas contradições e com nossas conquistas.E o mais legal é que tudo pode começar quando você quiser.

Já jantou hoje?

Três rápidas reflexões (para três tristes vegans)

De simples guia vegano de Brasa City, o Distrito Vegetal foi sofrendo mutações diversas até virar esse ser amorfo de hoje, que compila dicas, caça-mitos, resenhas, scene reports e tudo mais que der na telha sobre veganismo e a nossa cidade cemitério.

Pra quem freqüenta o blog há algum tempo, não deve ser novidade o espaço de reflexão cada vez maior nos artigos do DV. Geralmente eu contrabandeio um pouco de ontologia disfarçada de resenha de pizza ou empresto um pouco de metafísica fingindo que estou apenas falando de leites vegetais. É uma estratégia que tem funcionado bem, mas eu pensei em ser um pouco mais explícito dessa vez.

Eu tenho um ponto de vista bastante particular sobre esse estilo de vida, e pensei em estruturar em três pequenos pontos coisas que me motivam ou que incomodam quando as próprias pessoas que se dizem veganas falam sobre veganismo.

De maneira alguma entendam isso como uma receita ou mesmo uma imposição de visão de mundo. Esse é inclusive um dos pontos de reflexão e árdua tarefa, pensar e falar sobre veganismo sem querer promover a e-vegan-lização.

 

Três rápidas reflexões (para três tristes vegans)

Menos identidade, mais solidariedade
Uma das coisas que parece ser mais bacana quando você começa a cultivar o veganismo é que você passa a fazer parte de um grupo de pessoas legais, certo?  Não sei. Eu sei que é uma sensação legal, você pode usar seu casaco de moletom escrito VEGAN e se sentir parte de uma coisa maior que você. Mas, sendo sincero, eu tenho forte desconfiança sobre essa história de enquadrar o veganismo como uma mera política de identidade. Se eu tivesse que escolher, eu diria que mais prejudica do que ajuda “a causa”.

Isso porque quando você enquadra e define o veganismo nesses termos, de quem “é” ou “não é” vegan há uma série de situações e contextos que são excluídas e desmotivadas. Poxa, veganismo é sobre promover solidariedade entre animais ou entendi errado? Isso inclui as relações inter-espécies, mas intra-espécies. Significa promover solidariedade entre pessoas também.

Um exemplo. Nesses anos todos de veganismo, quantas vezes eu já ouvi a frase “Não adianta de nada parar de comer carne, mas consumir leite. É tão cruel quanto.” Caracas, a impressão que eu tenho ao escutar coisas do tipo é que essas pessoas querem o veganismo como um clubinho fechado que só algumas pessoas  muito especiais podem ter acesso. Poucas frases podem ser tão bem-intencionadas, mas tão desastrosas quanto essa.

Já recebi emails de pessoas dando dicas vegetarianas, mas se desculpando por não serem vegans, dá pra acreditar? Já conversei com amigos que se sentiam totalmente desmotivados em tentar uma dieta vegana porque não sabiam se iam conseguir “ser” vegan, então era melhor nem tentar. Você transforma o veganismo num altar, quanto mais difícil de alcançar melhor, e isso acaba desestimulando um monte de gente que se interessa pelo tema. Pra essas pessoas, eu gostaria de dizer que cada esforço conta, cada pequeno gesto pode ser importante e  nada mais justo do que fazer o que conseguir e estiver dispostx.

Não precisamos pensar no veganismo como um bloco estático de normas, pode ser um conjunto dinâmico de práticas. Eu prefiro pensar assim.

Menos universal, mais local
Caminhando nessa direção, por um mundo menos emblocado, não consigo deixar de me incomodar com aquelas pessoas que entendem o veganismo como uma verdade universal que deve ser aplicada a todas as pessoas em todos os contextos. Se o veganismo é sensível a toda a dor e opressão de um mundo especista, também deveria ser sensível a toda exclusão de um mundo classista, racista, etc.

Promover um veganismo sem sensibilidade a contextos é querer transformá-lo em uma bela vuvuzela da política liberal. É propagar uma ideia mentirosa de que sempre é possível fazer uma escolha. Nesse caso, uma “escolha vegan” (já soa como propaganda de escova de dente). Dizer isso é perverso, porque você iguala o poder de decisão política com um poder de consumo. A conseqüência cruel é que quem não pode consumir determinados produtos, não pode agir politicamente. O horror, diria capitão Kurtz.

Mas eu confesso que é um exercício complicado mesmo. Acreditar que uma determinada conduta é a mais correta eticamente e ao mesmo tempo não querer impô-la ao mundo parece ser muitas vezes impossível. Só que acho importante refletir que essa maneira monolítica de entender a ética foi justamente a responsável por segregar humanos e não-humanos em um primeiro momento. E a gente quer mesmo tentar usar as armas do senhor de engenho pra desmontar a senzala?

Essa aspiração por universalidade costuma cair muito numa ideia de veganismo como exercício de pureza, ou purificação. Bem, isso pode ser bem comum, mas, cá entre nós, é bobo em última instância. A não ser que você esteja acessando esse blog a partir da energia solar gerada pelas placas DIY da sua comunidade anarcohippie, não existe vida fora do Capital. Aquela delícia de leite de soja cruelty free  que você come todo dia com seus sucrilhos cruelty free também é fruto de um sistema de exploração.

Não existe “vida sem crueldade” pra valer. Mas isso significa desistir, lamentar e choramingar? Não, porque ninguém aqui tem mais 13 anos, né? Significa entender a complexidade das questões que estamos lidando diariamente, e ao invés de querer exorcizar as contradições, saber conviver com elas.

Como diria a Carol Adams, o veganismo é uma espécie de trato pessoal para se fazer o menor dano possível. E eu tenho certeza que a Carol mesmo seria a primeira a admitir que o veganismo da madison square garden não pode ser o mesmo do pavão-pavãozinho.

Menos dever, mais devir
Quanto de cristianismo tem o seu veganismo? Essa minha pergunta não tem nada a ver com acreditar em deus ou não. Eu me refiro a quanto de resignação, culpa, proibição e desejo reprimido seu veganismo promove. Eu sei que eu quero um veganismo livre, leve e solto de tudo isso aí.

Mas eu sei também que tem gente que gosta muito de cultivar um veganismo-sofrimento. Veganismo em que o foco está na repressão da vontade de comer certas coisas e não no prazer de comer outras. É bacana pra quem acredita nisso porque assim o veganismo vira uma espécie de “heroísmo moderno e incompreendido”, uma tarefa árdua e complicada. Desnecessário dizer que eu considero isso elitista, desinteressante politicamente e totalmente sem-graça, né?

De qualquer maneira, é curioso perceber como essa visão de veganismo cai bem com os sistemas tradicionais de ética, que costumam funcionar sempre com imperativos. Nesse tipo de relação com o mundo, o certo e o errado estão mais em função de uma punição ou recompensa de uma autoridade do que qualquer outra coisa. E o mais chato é que na questão animal, tanto os “bem-estaristas” ou “direitos dos animais” parecem andar de mãos dadas nesse ponto. Ninguém parece oferecer nada de novo. Apenas divergências no que se “deve” ou “não se deve” fazer.

Pra mim, o imperativo é a receita para mitigar os desejos. E aplacar as vontades é o passo anterior à apatia, ao cinismo e a todo o derrotismo político que eu detesto. Eu realmente só acredito no poder de transformação política que envolva os nossos desejos.  O capitalismo é esse monstro bem-sucedido exatamente por ser essa máquina incessante de produzir desejo. Como que a gente pretende encarar ela de frente com resignação e repressão?

Eu realmente acho que esse não é o caminho. Muito melhor do que reprimir os desejos que o mundo me impõe, é criar e contaminar o mundo com os desejos que eu acho bacana.

E é exatamente isso que eu tô tentando fazer aqui.

xxx

Acesse aqui alguns outros posts com reflexões aqui no Distrito.

Francesca Pizzaria – veganismo como ressocialização e reencantamento

Quem aqui já encarou 70 km de estrada apenas para conseguir uma coisa parecida com que a maioria das pessoas consegue todas as noites apenas com um telefonema? Eu.

Foi mais ou menos essa a dimensão da jornada para conseguir experimentar o que talvez seja a melhor pizza vegan da cidade:  a da Francesca Pizzaria.

Essa história de gostar de comida vegan nos acomete com hábitos cada vez mais estranhos. Mas o legal é quando essa estranheza serve mais para nos reconectar com outras pessoas (humanas ou não, veganas ou não) do que afastar. Eu já escrevi anteriormente como o veganismo pode ser um exercício de misantropia, isso porque comer é muitas vezes mais uma prática de socialização do que apenas o saciamento de uma necessidade. E quando você prefere não comer o que a maioria das pessoas adora comer, o isolamento parece ser um caminho natural. Então, acho bacana demais encontrar formas de aliar minhas crenças e ética com as práticas sociais que moldaram meu caráter.

Comer uma pizza num domingo à noite caprichando no catchup (para horror dos paulistas, puristas) é uma dessas pedras fundamentais da minha constituição.

E poxa, agora com uma opção de pizza, uma opção de cachorro quente, um café todinho vegan, etc. talvez todos aqueles encontros de família ou outras situações que você fica se sentindo a verdadeira ovelinha do Minor Threat, sejam bem mais fáceis de se digerir. Ou pelo menos dá pra ficar sem conversar com a desculpa de que está de boca cheia. É uma boa estratégia.

Bem, durante a jornada que motivou esse post (com toques de “em busca do vale encantado“) atrás da tão sonhada pizza vegana, eu pensava não apenas na potencialidade de ressocialização que é voltar a comer pizza, mas também na capacidade mágica do veganismo fazer a gente ver o mundo com outros olhos. Mais especificamente, eu estava impressionado com a minha própria disposição de fazer tanto esforço simplesmente pra não comer uma pizza tradicional. Penso que esse é um poder de negação (que pode ser politicamente muito interessante) bastante forte.

Ao mesmo tempo, essa negação só é possível porque está em dinâmica constante com uma afirmação. E eu nem me refiro à uma espécie de “orgulho vegan” ou algo do tipo (esse tipo de coisa não me agrada muito), mas sim uma coisa mais simples: o veganismo me faz preferir não comer certas coisas porque me faz preferir comer muitas outras. Parece banal, né? Mas não é não.

Aí entra a tal capacidade do veganismo torcer o olhar. Sem você perceber, o mundo inteiro a sua volta está sendo reencantado com isso. Quem já experimentou a felicidade de descobrir um novo biscoito sem ovos, ou um novo sorvete de fruta sem leite sabe o que é isso. Comer uma pizza pode ser a coisa mais banal do mundo pra maioria das pessoas. Não pra mim. Pra mim, é uma fonte de felicidade plena. E nesse mundo em que as exigências são cada vez mais complexas,  a insatisfação parece uma constante e a felicidade um projeto impossível, se encantar com uma coisa tão simples quanto comer uma pizza ouvindo um disco punk, é demais.

Mas então, falando da comida da Francesca em si, a pizza vegana (é, tem esse nome!) é uma mistura de tofu, castanha e pesto deliciosa. Você também pode pedir pra fazer outros sabores com tofu temperado, sugiro fortemente a de cogumelos selvagens. O dono da pizzaria, o João, é um cara super gente-fina, entusiasta do veganismo e promove muitas coisas bacanas com a Francesca além dos sabores sem queijo. Eles evitam ao máximo produtos industrializados, utilizam vegetais orgânicos,  plantados por eles mesmo e por pequenos agricultores, dão desconto para membros da SVB e até dispensaram o forno a lenha pra evitar a queima de carbono.

Ah, e o melhor eu deixei pro final, é claro. Eles acabaram de abrir uma filial na Vila Planalto. Então nunca mais vou precisar encarar os 70 km por 8 fatias de pizza (o que eu faria de novo com prazer). Só os 1174 km que separam a minha casa da comida crudívora no Rio de Janeiro. Eita disposição.

Francesca Pizzaria:
Lago Sul –  3367-3367

Vila Planalto – 3306-1414
http://www.francesca.com.br/


Pizza!

Dicas veganas que não são comida – 2

Mais um singelo post com dicas de textos para alimentar nossos olhos e ouvidos famintos de conteúdo vegan.
(Aqui você acessa o primeiro post de dicas veganas que não são comida)

– A Critique of Consumption-Centered Veganism (Uma crítica do veganismo centrado no consumo)

Mais um belíssimo texto/reflexão do blog H.E.A.L.T.H. Esse novo texto traz uma auto-crítica muito interessante sobre os limites e as contradições das mais bem intencionadas inclinações veganas. Acho muito saudável (trocadilho infame, desculpem) essa constante auto-avaliação. Acho que tem muito vegan que precisa baixar a bola por aí (hehe).

Um dos pontos mais interessantes, pra mim, é a discussão sobre transformar (aprisionar?) o veganismo em um mero privilégio de classe (discussão que passei de raspão no texto sobre o Natura Dog) e de como pode ser complicado enquadrar a alimentação ética, uma alimentação vegan, apenas como uma “escolha”.

Um trecho que destaco:

“Mainstream vegans like to practice veganism as only a matter of what people do to nonhuman animal bodies (i.e. whether they kill, consume, or exploit them) and insist that veganism has nothing to do with what people say or do to other people and their bodies. For instance, consumer vegans are often content calling their food or products “cruelty-free,” even as human animals are exploited and tormented during the production.

While I do think most mainstream vegans have very good intentions, the effects of some of their actions and discourse alienate potential allies. Many potential allies dismiss veganism as a middle-class white people’s pre-occupation with exercising their privilege through being humanitarians for “voiceless,” defenseless, and innocent animals without ever having to address their privilege that comes at the expense people of color and the working class. Examples of class privilege are popular vegan sound bites like “every time you sit down to eat, you can choose cruelty over compassion” and “vote with your dollars/fork.” In the former, one assumes one has any choice in what one eats. In the latter, consumption and purchasing power are equated with political power (and vice versa), which suggest those with less purchasing power do not (and cannot) exercise as much political power.

O texto tá inglês, vou ver se consigo tempo de traduzí-lo num futuro próximo. De qualquer maneira, acho que um tradutor de internet talvez possa quebrar um galho, espero que sim.

– Richard Dawkins escreve sobre vivisecção

O mais famoso ateu militante dos nossos tempos, escreve um pouquinho sobre vivisecção. O que eu achei mais interessante desse texto é que o Dawkins apresenta uma argumentação darwiniana para a velha resposta utilitarista sobre o sofrimento animal. O ponto dele é demasiadamente simples, mas incrivelmente polêmico para toda uma tradição filosófica que vem desde Descartes e que postula uma correlação entre capacidade intelectual e capacidade de sentir dor. Essa mesma tradição foi refinada no século XX, com capacidades existenciais – quase sobrenaturais (seja em Heidegger ou Sartre) ou mesmo na capacidade de criar conceitos (em Wittgenstein e Davidson). O que importa é o seguinte, os animais não possuem as mesmas capacidades cognitivas da gente (quem, cara pálida?) e por isso não sentem o mundo da mesma forma e por isso mesmo não são capazes de sentir dor da mesma forma. Descartes pegava pesado e comparava animais a máquinas, cujo gemido era igual ao ranger de uma roda de charrete.

Mas aí, chega o Dawkins e bota a biologia pra contradizer tudo isso. Diz o nosso amigo (e inimigo de deus) que a dor é um aviso pra você não fazer mais determinadas besteiras (tipo meter o dedo num espinho, sei lá) e apesar da maioria das pessoas correlacionarem isso a capacidades intelectuais mais desenvolvidas seria bastante plausível que justamente espécies com menos capacidades cognitivas sentissem ainda mais dor, já que as espécies mais espertas (e eu tô pensando nos chimpanzés) poderiam articular de maneira inteligente o que é bom e o que é ruim.

– Papagaios dão nomes a seus filhotes

Uma notinha interessante sobre a complexa linguagem dos papagaios, um assunto que me encanta muito. Até porque a “linguagem” muitas vezes é apontada como marco pra levantar a cerca entre humanos e não-humanos, né? Bem, ler sobre isso me lembrou uma das frases que eu mais gostei no “Comer Animais” que eu não me lembro exatamente como é, mas é mais ou menos assim: “qualquer demonstração de inteligência animal que nos surpreende é automaticamente encaixotada como mero instinto”.

(bem, se você detestou tudo isso aqui  e quer saber de comida vegan boa, desculpa aí, eu me comprometo em fazer em breve um post sobre a deliciosa PIZZA VEGAN do lago sul e a minha jornada em busca do vale encantado)

Cinco Mitos sobre Vegans

Esse é o primeiro trabalho de tradução pirata e contrabando de informação gringa do Distrito Vegetal. Como tudo aqui nesse blog, é precário, tosquinho e feito sem autorização, mas transborda empatia. Espero que seja o primeiro de muitos. Se gostarem, espalhem por aí.

Cinco Mitos sobre Vegans

Por Carol J. Adams*

Apesar do ex-presidente (dos EUA) Bill Clinton não ser tecnicamente um vegan, sua adoção ano passado de uma dieta “baseada em vegetais”, “sem carne” e “sem latícinios” – acompanhada de sua perda de 11 quilos – criou manchetes para um pequeno mas crescente movimento. Afinal, apenas 3,2% dxs estadunidenses (n.t.: alguém aí tem números do Brasil?) são vegetarianxs e apenas 0.5% levantam a bandeira do veganismo, evitando todos os produtos animais e derivados em suas cozinhas e armários.

Mas aí, o veganismo é saudável? Desmasculinizante? Difícil? Saque a real desse estilo de vida pouco usual.

1. Vegans têm problema em conseguir proteína suficiente

“De onde você tira sua proteína?” é provavelmente a pergunta que xs vegans mais devem ouvir. Mas proteína não tem que vir necessariamente de animais. Proteína vegetal não é nem incompleta tampouco inadequada – e ainda é rica em fibras, tem pouca gordura e zero colesterol. Proteína animal, que não contem fibra, é rica em gordura e colesterol, além de estar associada ao risco de doenças do coração, perda de cálcio nos ossos e insuficiência renal.

Nutricionistas concordam que adultos que consomem por volta de 2.000 calorias por dia deveriam consumir cerca de50 gramasde proteína. E o que uma vegan pode fazer? Bem, meia-xícara de grão de bico contém 6g de proteína. Meia xícara de tofu firme contém20 gramas. Um hambúrguer vegetariano tem cerca de15 gramas. Podemos chegar aos50 gramasmuito rapidamente, sem bolo de carne ou bacon.

Qualquer dieta vegana que inclua uma variedade de alimentos de origem vegetal fornece toda a proteína que um indivíduo necessita. Isso é verdade para adultos, adolescentes e, de acordo com o pediatra Benjamin Spock, até mesmo crianças. Como as nutricionistas Brenda Davis e Vesanto Melina explicam em “Becoming Vegan”, a melhor resposta a essa pergunta frequente é: “de todos os vegetais que como”.

2. Vegans têm incontáveis regras do que se pode comer

Para vegans, parece é que quem come carne é que é cheio de regras. Nos Estados Unidos e no Brasil, pessoas comem vacas, mas não cavalos, e galinhas, mas não gatos. Só que entre os hindus na Índia, as vacas são sagradas, e nas Filipinas e Coréia, a Lassie tá no cardápio. Algumas religiões proíbem comer porco, enquanto outras não. Em face dessas mais variadas normas, muitas vezes contraditórias, vegans têm apenas uma regra: Nós não comemos, usamos ou vestimos intencionalmente qualquer coisa de um animal – seja carne, couro, ovos, lá, seda ou mel.

Se o veganismo parece necessitar de um manual de instruções, é porque animais mortos aparecem em lugares inesperados. A maioria dos marshmallows contém gelatina, derivada de ossos de animais. Assim como cápsulas de remédios e filme fotográfico. Alguns lenços têm gordura animal, também. Algumas tortinhas de frutas são feitas com gordura animal. Creme dental pode conter farinha de osso. E shampoo pode ter proteína de ovo.

Claro, a lista parece seguir indefinidamente. Só que só que na sua rede de supermercados mais produtos do que nunca são simpáticos ao veganismo. Em 2011, não é difícil fazer jus ao ideal simples do veganismo: tentar fazer o menor dano possível.

3. Veganismo é desmasculinizante – homens de verdade comem carne

Em 1990, eu escrevi um livro chamado “The Sexual Politics of Meat” para dissecar a idéia de que comer carne de animais faz de alguém forte e viril. O mito ganhou força na década de 60 quando os antropólogos Desmond Morris e Robert Ardrey atribuíram o progresso da civilização ao “homem caçador”. Hoje, mensagens da nossa cultura – do “I am the Man” da campanha publicitária do Burger King até o comercial do Hummer que sugere que um cara que compra tofu deve “restaurar o equilíbrio” comprando um carro gigante – reforçam esse mito. Até mesmo Michael Pollan, que detalha uma caça à javalis no livro “The Omnivore’s Dilemma”, cai como uma presa na idéia de que homens devem fazer presas: “Andar com uma espingarda carregada em uma floresta desconhecida arrupiado com os sinais de sua presa é emocionante”. Para vegans, essa caricatura de uma caçada pornográfica é ridícula. O que o Pollan vê como um dilema, nós damos às boas-vindas como uma decisão.

Mas se homens de verdade um dia comeram carne, já não é bem assim por muito tempo. O lendário corredor olímpico, Carl Lewis, é vegan. O ex-campeão peso pesado de boxe, Mike Tyson, é vegan. O Andre 3000 do Outkast é vegan. Em Austin, um grupo de bombeiros se tornou vegan. Mas, para além dos nomes famosos que abraçaram o veganismo por razões éticas ou de saúde, está o fato incontestável de que comer carne não aumenta sua libido ou fertilidade – e uma dieta vegana não diminui elas também.

4. Vegans se importam mais com animais do que com humanos

Veganismo é um movimento de justiça social que inclui a preocupação com animais, mas também com muitas questões que afetam humanos. As escolhas alimentares que xs vegans fazem abordam os custos ambientais da produção de carne e laticínios, doenças cardíacas, problemas de saúde pública ligados à obesidade e, como Eric Schlosser apontou em “Fast Food Nation”, condições insalubres de trabalho nos matadouros, onde trabalhadores sofrem mais lesões do que em qualquer outra indústria. Na verdade, comer veganamente um dia por semana diminui sua pegada de carbono mais do que comer comida produzida localmente todos os dias da semana.

O custo econômico da crueldade sistêmica aos animais transcende as filmagens escondidas nas fazendas-fábricas. Comer gado alimentado com ração ajuda a elevar o preço das sementes; a alta nos preços contribuiu para as revoltas por comida no Haiti, Bangladesh, Egito e muitos outros lugares ao redor do mundo. A produção industrial de carne permite que bactérias infecciosas como a salmonela entrem sorrateiramente nos nossos suprimentos de comida. E tratar uma geração criada com Big Macs será um desafio fiscal para o SUS e o Medicaid (o programa de saúde para famílias de baixa renda nos EUA).

Se importar com animais significa se importar com pessoas, também.

5. É caro e inconivente ser vegan

Tente o veganismo por um dia e veja o que acontece. É mesmo tão difícil substituir molho de carne por molho de tomate (ou molho inglês por shoyu)? Pedir uma pizza lotada de vegetais ao invés de queijo e carne? Preparar uma salada grande e adicionar grão-de-bico ao invés de peru? Pedir um prato vegan em qualquer restaurante com cozinhas ricas com comida vegana – etíope, tailandesa, vietnamita, chinesa e italiana?

Uma das razões pelas quais Patti Breitman e eu escrevemos “How to Eat Like a Vegetarian Even if You Never Want to Be One” era mostrar às pessoas o quão fácil é ser vegan. Se você está acostumado a uma dieta de carne, frango e porco, o veganismo pode expandir as suas opções. Você pode começar descobrindo a variedade de maneiras de preparar tofu, gluten, tempeh e proteínas vegetais texturizadas – juntamente com mais verduras, grãos e feijões. Em alguns lugares do país, alguns desses produtos podem ser mais difíceis de achar do que hamburgers de carne ou filé mignon, mas eles não são necessariamente mais caros. E mesmo se forem, talvez eles possam ajudar a reduzir alguns custos médicos num longo prazo.

Não-vegans pensam que a mudança é difícil. Não mudar é ainda mais difícil.   

* Carol J. Adams é, nas palavras dela mesma, uma ativista-intelectual vegan-feminista. É autora do livro “The Sexual politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory.

Tradução precária: Poney
Agradecimentos especiais ao Andrei.
Site da Carol: http://caroljadams.blogspot.com

Café Corbucci: o primeiro café vegan da cidade

Olá, estou de volta ao Distrito. Espero que a temporada de enchiladas, tacos y guacamoles ajude com a fome existencial (porque a tradicional eu tenho de sobra) necessária para constante atualização desse blog. Obrigado a quem esperou. Bem, eis que chegou a hora de publicar a já anunciada (com toda modéstia desse mundo) “exclusiva, especial e estrambólica” resenha do recém-inaugurado Café Corbucci. Eu realmente gostaria de escrever um texto especial sobre este que é o primeiro estabelecimento 100% vegano da nossa cidade (pelo menos até onde o meu veganismo de anos 2000 alcança), pois acredito que se trata de um marco muito importante da cultura vegan da nossa cidade. Talvez isso explique em parte a procrastinação e o desleixo com novas postagens aqui no DV. Acho que eu fiquei com receio de não produzir um texto à altura desse novo café. Mas e daí, né? Mesmo sabendo que qualquer combinação de palavras esquisitas nunca vai superar a beleza de um “pão-sem-queijo com tofu defumado”, aí vai.
 
 

Café Corbucci: o primeiro café vegan da cidade

Pela própria natureza dos posts aqui do Distrito Vegetal, acho que dá pra tirar que eu sou uma espécie de vegan otimista. Vocês devem imaginar que existem os mais diferentes tipos de veganismo sendo promovidos por aí. Tem a galera que curte uma e-vegan-lização, assim como tem também uma galera do veganismo de autocomiseração, uma variante menos interessante de “viver é sofrer” (“comer soja é sofrer” daria um bom slogan), que deixaria Schopenhauer e outros pessimistas por aí muito orgulhosos.

Eu tô fora disso daí. E, sinceramente, nem mesmo saberia como agir de forma diferente. Depois de um bom tempo tendo minhas papilas gustativas forjadas a ferro, fogo e pão com molho e batata-palha, impossível esconder minha animação ao ir no supermercado do lado de casa e encontrar danete vegan ou pastinha de tofu com alho. Pensando nisso, acho que a geração que veio antes de mim e pegou era Mesozóica do veganismo na cidade – uma verdadeira Idade das Trevas, pré-Ades, recheada de extrato de soja e horror – deveria ascender rojões todos os dias para celebrar o veganismo vida-mole de 2011.

Mas o que eu acho interessante é perceber que as coisas não vão melhorando por meio de processos completamente alheios e externos a gente. Conscientemente ou não, todo mundo que cultiva (alguma palavra melhor? “Pratica” talvez seja muito disciplinar – hehe) o veganismo em suas mais diferentes maneiras faz parte dessas transformações positivas nos últimos anos. Eu acho isso mágico, porque me parece um dos exemplos mais evidentes de se levar a política para o cotidiano e ao mesmo conseguir transformações reais e significativas com isso. (Quando penso sobre isso não consigo deixar de bagunçar veganismo, bicicletas e feminismo. Vocês também acham que tem tudo a ver?)

E é exatamente nesse espírito  de que “as coisas estão melhorando – nós fazemos as coisas melhorarem” que desde de abril de 2011, Brasília conta com seu primeiro estabelecimento 100% vegano, o Café Corbucci, na 203 norte. Brasa City já possuía um número bastante significativo de lugares com opções veganas. Certamente aquém de grandes capitais da comilança vegetariana mundial (alguém se arrisca a dizer qual seria a cidade número 1? São Francisco?), mas com certeza comparável a outras capitais do lado de baixo do equador. O nosso guia talvez seja uma bela prova disso.

Mesmo assim, todos os estabelecimentos aqui listados, em níveis mais variados, trabalham com ingredientes de origem animal. Para o pavor dos puristas, até então não tinha como você pedir um hamburger em Brasa sem ter a certeza de que ele não estava dividindo a chapa com um vizinho feito de costas de vaca ou peito de galinha. Pra mim isso não era exatamente um problema. “Serve pra pegar B12”, já diria o filósofo, mas confesso que não deixo de me incomodar de estar servindo meu prato no self-service do restaurante “natural” e me deparar com um monte de carne de avestruz, ou mesmo de me frustrar ao mirar de longe aquela bela lasanha pra quando me aprochegar descobrir que se trata ricota ou alguma coisa do tipo. Aposto que todo mundo já passou por isso.

De maneira que, até então, comer veganamente fora de casa em Brasília era sempre um exercício de improviso, gambiarra, troca de ingredientes, conversa e negociação. Eu gosto muito disso, mas gosto ainda mais de saber que posso comer todos os pratos do cardápio e tudo que está exposto na vitrine. É uma sensação ótima, que a gente ainda não sabia como era aqui em Brasília.

Só por isso, acho que já temos motivos de sobra pra celebrar a chegada do Café Corbucci a nossa cidade. Mas eu acho que tem muito mais que isso.

Tenho acompanhado (meio de longe) toda a jornada de implantação do Café. O pessoal de lá conheceu o Distrito Vegetal logo no comecinho e rapidamente se tornaram as melhores fornecedoras de dicas, incentivadoras, correspondentes e repórteres investigativas do blog –denunciando provolone em feijoada, embarcando em campanhas por hamburger sem ovo em estabelecimentos que não dão a mínima pra gente – entre outros atos de vigilantismo vegan.

Esse tipo de escambo solidário sempre foi um dos principais objetivos do Distrito Vegetal. Talvez por compreender isso, é que o pessoal lá tenha gostado tanto do blog. Aparentemente, gostaram tanto que eu fui um dos convidados para a noite de pré-estréia do estabelecimento junto com outros profissionais da imprensa gastronômica da cidade. Um gesto extremamente simpático e inacreditavelmente bacana. Lá estava eu, fingindo que entendo alguma coisa de comida, ao lado de gente que trabalha e vive pra isso. Nunca tinha sido convidado pra nada de graça nessa vida que não fosse show de hardcore. Foi bastante divertido e já fez valer ter começado esse blog.

Só que o que o pessoal do Café Corbucci talvez não tenha se dado conta é que, mesmo sem perceber, elxs estão realizando numa escala muito maior e mais intensa tudo aquilo que o esse Distrito Vegetal sempre teve a pretensão de realizar. Mais do que um novo estabelecimento de comida, eu enxergo nesse pequeno novo espaço a possibilidade concreta de criação de redes de solidariedade para intervir diretamente na realidade e promover algum tipo de ação ética sob uma identidade estratégica que por um motivo ou outro a gente considera importante.

Ficou complicado, né? Deixa eu tentar explicar melhor. Eu acredito que as nossas cidades, as nossas vidas, só terão mudanças positivas a partir do momento que as próprias pessoas interessadas nessas mudanças comecem a realizar alguma coisa nesse sentido. E foi isso que o pessoal do Café fez. No melhor espírito “Henry-Rollins-de shortinho-vivendo-numa-van” (aka faça-você-mesmo), algumas pessoas se juntaram e resolveram “Não tem nenhum estabelecimento vegan em Brasília? Pô, vamos abrir um então”. Animal. Muito melhor do que ficar choramingando por aí (coisa que eu e 99% da humanidade costumamos fazer no tempo livre das nossas vidas mesquinhas).

Além de se tratar de um resultado bastante concreto da união de algumas pessoas na promoção de uma ação ética, o Café acaba por criar uma rede expansiva sobre esse mesmo tema. Provavelmente, todo mundo que for lá (tenha uma alimentação vegana ou não) vai parar pra pensar um pouco sobre as implicações éticas do seu prato de comida. Ou ao menos eu espero. E é aquela coisa. Assim como com o punk rock, a gente não vai mudar o mundo, mas dá pra mudar o nosso e o de muita gente.

Ao mesmo tempo, o Café Corbucci ajuda a promover essa identidade que muita gente torce o nariz, e que muita gente ama de paixão que é o veganismo. Sei lá, eu acho toda essa história de política de identidades uma coisa muito complicada. Tem briga demais entre pós-estruturalistas e pós-colonialistas pra eu ter uma opinião realmente definida e fechada acerca desse tema espinhoso.  Mas de uma coisa eu tenho certeza, é legal pra caralho chegar num lugar e ler “Café Corbucci – comida vegana, sem produtos de origem animal”.

Isso porque, seja o veganismo absoluto mera obra de ficção, ou mesmo a afirmação “eu sou vegan”  carente de sentido em última instância, não importa. No fim das contas, tudo é ficção mesmo. No Café Corbucci, essa palavra, esse rótulo, essa identidade (mesmo que estratégica, nômade, temporária, como você quiser), faz todo o sentido. Não se trata de um lugar de “comida natural”, “comida saudável”, “comida macrobiótica” ou qualquer variante do tipo. Lá a gente não precisa desviar o foco da questão ética (e por conseqüência da crítica ao consumo, da objetificação da vida, yadda yadda yadda). É um espaço VEGAN e as implicações e motivações disso estão bem claras. Eu acho isso ótimo.

Se pra maioria das pessoas que vai lá se trata de apenas mais um café, tudo bem. A falta de encantamento de outros olhos não diminui nem um pouquinho o meu encantamento.

Eu sei que eu escrevi, escrevi e mal falei da comida. Foi mal, Marina. Na verdade, eu nem sei falar sobre comida. Talvez esse blog passe a impressão errada de que eu entendo alguma coisa de comida. Desculpem também por isso, pois eu não entendo porra nenhuma de comida. Deixo essa reivindicação de conhecimento culinário para aquelas que curtem um foies gras e outras coisas abomináveis que eu nunca vou nem provar. O Distrito Vegetal aqui é apenas uma desculpa, um ponto de partida, para falarmos de outras coisas.

Mas tudo bem, no dia da inauguração, quando eu estava lá macaqueando que era da “imprensa” (uma “colega de profissão” até pediu  o meu cartão. “Pô, esqueci de trazer”), eu tomei uma apetitosa sopa de tomate, um wrap com brotinhos e um fandárdigo molho a base de amendoim. Teve também um sanduíche de seitan (Venom!), suco de maçã, café com leite e tortinha cheese-cake de tofu. Tudo delicioso.

Depois disso já voltei mais duas vezes  e pra minha grata surpresa o ambiente estava sempre cheio. Como foi bom sentar ali e comer um pão-de-queijo com capuccino.

Seja bem-vindo, Café Corbucci. E muito obrigado.

Café Corbucci
203 norte, bloco D, loja 53
(esquina dos fundos)
telefone: (61) 32011316