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Francesca Pizzaria – veganismo como ressocialização e reencantamento

Quem aqui já encarou 70 km de estrada apenas para conseguir uma coisa parecida com que a maioria das pessoas consegue todas as noites apenas com um telefonema? Eu.

Foi mais ou menos essa a dimensão da jornada para conseguir experimentar o que talvez seja a melhor pizza vegan da cidade:  a da Francesca Pizzaria.

Essa história de gostar de comida vegan nos acomete com hábitos cada vez mais estranhos. Mas o legal é quando essa estranheza serve mais para nos reconectar com outras pessoas (humanas ou não, veganas ou não) do que afastar. Eu já escrevi anteriormente como o veganismo pode ser um exercício de misantropia, isso porque comer é muitas vezes mais uma prática de socialização do que apenas o saciamento de uma necessidade. E quando você prefere não comer o que a maioria das pessoas adora comer, o isolamento parece ser um caminho natural. Então, acho bacana demais encontrar formas de aliar minhas crenças e ética com as práticas sociais que moldaram meu caráter.

Comer uma pizza num domingo à noite caprichando no catchup (para horror dos paulistas, puristas) é uma dessas pedras fundamentais da minha constituição.

E poxa, agora com uma opção de pizza, uma opção de cachorro quente, um café todinho vegan, etc. talvez todos aqueles encontros de família ou outras situações que você fica se sentindo a verdadeira ovelinha do Minor Threat, sejam bem mais fáceis de se digerir. Ou pelo menos dá pra ficar sem conversar com a desculpa de que está de boca cheia. É uma boa estratégia.

Bem, durante a jornada que motivou esse post (com toques de “em busca do vale encantado“) atrás da tão sonhada pizza vegana, eu pensava não apenas na potencialidade de ressocialização que é voltar a comer pizza, mas também na capacidade mágica do veganismo fazer a gente ver o mundo com outros olhos. Mais especificamente, eu estava impressionado com a minha própria disposição de fazer tanto esforço simplesmente pra não comer uma pizza tradicional. Penso que esse é um poder de negação (que pode ser politicamente muito interessante) bastante forte.

Ao mesmo tempo, essa negação só é possível porque está em dinâmica constante com uma afirmação. E eu nem me refiro à uma espécie de “orgulho vegan” ou algo do tipo (esse tipo de coisa não me agrada muito), mas sim uma coisa mais simples: o veganismo me faz preferir não comer certas coisas porque me faz preferir comer muitas outras. Parece banal, né? Mas não é não.

Aí entra a tal capacidade do veganismo torcer o olhar. Sem você perceber, o mundo inteiro a sua volta está sendo reencantado com isso. Quem já experimentou a felicidade de descobrir um novo biscoito sem ovos, ou um novo sorvete de fruta sem leite sabe o que é isso. Comer uma pizza pode ser a coisa mais banal do mundo pra maioria das pessoas. Não pra mim. Pra mim, é uma fonte de felicidade plena. E nesse mundo em que as exigências são cada vez mais complexas,  a insatisfação parece uma constante e a felicidade um projeto impossível, se encantar com uma coisa tão simples quanto comer uma pizza ouvindo um disco punk, é demais.

Mas então, falando da comida da Francesca em si, a pizza vegana (é, tem esse nome!) é uma mistura de tofu, castanha e pesto deliciosa. Você também pode pedir pra fazer outros sabores com tofu temperado, sugiro fortemente a de cogumelos selvagens. O dono da pizzaria, o João, é um cara super gente-fina, entusiasta do veganismo e promove muitas coisas bacanas com a Francesca além dos sabores sem queijo. Eles evitam ao máximo produtos industrializados, utilizam vegetais orgânicos,  plantados por eles mesmo e por pequenos agricultores, dão desconto para membros da SVB e até dispensaram o forno a lenha pra evitar a queima de carbono.

Ah, e o melhor eu deixei pro final, é claro. Eles acabaram de abrir uma filial na Vila Planalto. Então nunca mais vou precisar encarar os 70 km por 8 fatias de pizza (o que eu faria de novo com prazer). Só os 1174 km que separam a minha casa da comida crudívora no Rio de Janeiro. Eita disposição.

Francesca Pizzaria:
Lago Sul –  3367-3367

Vila Planalto – 3306-1414
http://www.francesca.com.br/


Pizza!

Natura Dog – levando o veganismo pra rua

Desde a extinção do querido – e saudoso – The Dog (por algum tempo, sede do tráfico de informações do DV), o veganismo aqui no distrito ficou órfão de um cachorro-quente de rua. Nada que seja impossível de reproduzir no conforto do lar (afinal, até eu sei fazer e me encaixo naquele pequeno grupelho renegado e mal-quisto de vegans que não sabem cozinhar). Mas também, nada que reproduza o mesmo prazer de sentar no meio fio da entrada da quadra sob o frio seco de Brasa City feito lâmina e se lambuzar todo daquela mistura amorfa de batata-palha, milho e pão molhado. Eu fui criado assim. Tenho certeza que muita gente dessa cidade-cemitério também.

Pois é, para todas as barrigas que sentiam falta dessa experiência existencial transcendental, que está muito além da comida em si,  surgiu nossa redenção encrustrada ali no meinho da Asa Norte: o Natura Dog. Capitaneada pelo Bola, o Natura Dog é a primeira carrocinha de cachorro-quente vegan da cidade. Sei de algumas experiências similares em outros lugares do Brasil, a barraquinha do Mamá, em Curitiba, talvez sendo a mais famosa delas. (alguém aí conhece outras?)

Uma das coisas que eu achei mais bacana foi que existem vários complementos que para onívorxs podem ser triviais num cachorro-quente, mas deviam estar fazendo uma falta danada pra quem é vegan. Tem pasta de alho vegan, purê de batata vegan e creme de azeitona também vegan. Foi escolhido um catchup sem conchonilha para atender todas as sensibilidades e o preço eu considero bastante razoável. Por 10 reais, você pode comer dois hot-dogs, com quatro complementos e ainda marcar seu cartãozinho fidelidade pra escravizar sua alma com salsichas de soja.

Mas o que realmente me encantou na proposta do Natura Dog é o fato de ser o primeiro lugar em Brasa com comida vegan simples e na rua, me corrijam se estiver enganado (tem pastel e acarajé, mas estão mais próximos de gambiarra vegan – sei também que teve uma vez que o pessoal se organizou pra distribuir sopa vegan na rua, mas não durou muito tempo). Bem, ainda no sentido daquela conversa da resenha do Café Corbucci, de que devemos promover as mudanças que gostaríamos de ver nesse mundo e de que todo mundo que cultiva o veganismo faz parte dessas mudanças na nossa cidade, acredito que uma carrocinha de cachorro vegan possui um potencial político muito interessante.

Um pontencial político para questionar o nosso próprio veganismo. Eu vou dedicar um post mais reflexivo e extenso sobre esse assunto em um futuro próximo, mas acho que vale comentar aqui rapidamente a linha tênue que o veganismo caminha, que permite transformar libertação em privilégio de classe, crítica em nicho de mercado e que acho sempre importante repensar. Não que eu tenha uma boa resposta para todos esses dilemas, só não quero ver essa parada que eu acho tão legal que é o veganismo se transformar em mais uma maneira de segregar pobres e ricos, como se fosse mais um “clubinho-que-não-é-pra-qualquer-um”. E toda essa coisa de “orgulho” vegan tem muito a ver com isso daí, vamos admitir.

Promover esse veganismo mais simples e democrático não é tarefa fácil pra ninguém. Da última vez que fui lá, fiquei conversando com o Bola algum tempo sobre a árdua peleja que ele tem de travar com a administração de Brasília para conseguir montar um negócio na rua. Ele também contou que já tinha montado o Natura Dog em 2009, mas teve tudo roubado (!!!) depois da primeira noite de funcionamento. O que me faz pensar que uma carrocinha de comida vegan em Brasília ainda traz toda a carga simbólica de por um pouco de vida nas ruas tão fantasmagóricas dessa cidade. Brasília é a cidade  da negação completa do espaço público como espaço de encontro. A cidade em que você encontra placas como “rua não é lugar pra conversar”. Então, que bom que se gente não pode conversar, agora pelo menos podemos comer.

Há uns dois anos, no comecinho desse Distrito, eu fiz um texto sobre o que ainda considero uma das coisas mais chatas da alimentação vegana: a falta de praticidade na hora de escolher um rango. É tudo muito elaborado ou muito precário. Ou salada de tomate seco e shitake ou saquinho de amendoim japonês. Naquela época, (que apesar da proximidade, já começa a se configurar em minha cabeça como uma era tenebrosa, pré-hamburger vegan do Skys e pré-kebaberias) era difícil de competir com a abundante facilidade – quase um tapa na cara – de um risole de milho com coca, de um pão de queijo com café. Claro, nossas festinhas de confraternização no trabalho continuam sendo momentos de solidão e dor, mas na rua a história é outra.

Graças a iniciativas como o Natura Dog, hoje nosso veganismo tá mole. O Distrito Vegetal deseja longa vida e um verdadeiro mar de salsichas de soja.

Natura Dog
Comercial da 208 Norte
81557972
bolavideos@gmail.com

Café Corbucci: o primeiro café vegan da cidade

Olá, estou de volta ao Distrito. Espero que a temporada de enchiladas, tacos y guacamoles ajude com a fome existencial (porque a tradicional eu tenho de sobra) necessária para constante atualização desse blog. Obrigado a quem esperou. Bem, eis que chegou a hora de publicar a já anunciada (com toda modéstia desse mundo) “exclusiva, especial e estrambólica” resenha do recém-inaugurado Café Corbucci. Eu realmente gostaria de escrever um texto especial sobre este que é o primeiro estabelecimento 100% vegano da nossa cidade (pelo menos até onde o meu veganismo de anos 2000 alcança), pois acredito que se trata de um marco muito importante da cultura vegan da nossa cidade. Talvez isso explique em parte a procrastinação e o desleixo com novas postagens aqui no DV. Acho que eu fiquei com receio de não produzir um texto à altura desse novo café. Mas e daí, né? Mesmo sabendo que qualquer combinação de palavras esquisitas nunca vai superar a beleza de um “pão-sem-queijo com tofu defumado”, aí vai.
 
 

Café Corbucci: o primeiro café vegan da cidade

Pela própria natureza dos posts aqui do Distrito Vegetal, acho que dá pra tirar que eu sou uma espécie de vegan otimista. Vocês devem imaginar que existem os mais diferentes tipos de veganismo sendo promovidos por aí. Tem a galera que curte uma e-vegan-lização, assim como tem também uma galera do veganismo de autocomiseração, uma variante menos interessante de “viver é sofrer” (“comer soja é sofrer” daria um bom slogan), que deixaria Schopenhauer e outros pessimistas por aí muito orgulhosos.

Eu tô fora disso daí. E, sinceramente, nem mesmo saberia como agir de forma diferente. Depois de um bom tempo tendo minhas papilas gustativas forjadas a ferro, fogo e pão com molho e batata-palha, impossível esconder minha animação ao ir no supermercado do lado de casa e encontrar danete vegan ou pastinha de tofu com alho. Pensando nisso, acho que a geração que veio antes de mim e pegou era Mesozóica do veganismo na cidade – uma verdadeira Idade das Trevas, pré-Ades, recheada de extrato de soja e horror – deveria ascender rojões todos os dias para celebrar o veganismo vida-mole de 2011.

Mas o que eu acho interessante é perceber que as coisas não vão melhorando por meio de processos completamente alheios e externos a gente. Conscientemente ou não, todo mundo que cultiva (alguma palavra melhor? “Pratica” talvez seja muito disciplinar – hehe) o veganismo em suas mais diferentes maneiras faz parte dessas transformações positivas nos últimos anos. Eu acho isso mágico, porque me parece um dos exemplos mais evidentes de se levar a política para o cotidiano e ao mesmo conseguir transformações reais e significativas com isso. (Quando penso sobre isso não consigo deixar de bagunçar veganismo, bicicletas e feminismo. Vocês também acham que tem tudo a ver?)

E é exatamente nesse espírito  de que “as coisas estão melhorando – nós fazemos as coisas melhorarem” que desde de abril de 2011, Brasília conta com seu primeiro estabelecimento 100% vegano, o Café Corbucci, na 203 norte. Brasa City já possuía um número bastante significativo de lugares com opções veganas. Certamente aquém de grandes capitais da comilança vegetariana mundial (alguém se arrisca a dizer qual seria a cidade número 1? São Francisco?), mas com certeza comparável a outras capitais do lado de baixo do equador. O nosso guia talvez seja uma bela prova disso.

Mesmo assim, todos os estabelecimentos aqui listados, em níveis mais variados, trabalham com ingredientes de origem animal. Para o pavor dos puristas, até então não tinha como você pedir um hamburger em Brasa sem ter a certeza de que ele não estava dividindo a chapa com um vizinho feito de costas de vaca ou peito de galinha. Pra mim isso não era exatamente um problema. “Serve pra pegar B12”, já diria o filósofo, mas confesso que não deixo de me incomodar de estar servindo meu prato no self-service do restaurante “natural” e me deparar com um monte de carne de avestruz, ou mesmo de me frustrar ao mirar de longe aquela bela lasanha pra quando me aprochegar descobrir que se trata ricota ou alguma coisa do tipo. Aposto que todo mundo já passou por isso.

De maneira que, até então, comer veganamente fora de casa em Brasília era sempre um exercício de improviso, gambiarra, troca de ingredientes, conversa e negociação. Eu gosto muito disso, mas gosto ainda mais de saber que posso comer todos os pratos do cardápio e tudo que está exposto na vitrine. É uma sensação ótima, que a gente ainda não sabia como era aqui em Brasília.

Só por isso, acho que já temos motivos de sobra pra celebrar a chegada do Café Corbucci a nossa cidade. Mas eu acho que tem muito mais que isso.

Tenho acompanhado (meio de longe) toda a jornada de implantação do Café. O pessoal de lá conheceu o Distrito Vegetal logo no comecinho e rapidamente se tornaram as melhores fornecedoras de dicas, incentivadoras, correspondentes e repórteres investigativas do blog –denunciando provolone em feijoada, embarcando em campanhas por hamburger sem ovo em estabelecimentos que não dão a mínima pra gente – entre outros atos de vigilantismo vegan.

Esse tipo de escambo solidário sempre foi um dos principais objetivos do Distrito Vegetal. Talvez por compreender isso, é que o pessoal lá tenha gostado tanto do blog. Aparentemente, gostaram tanto que eu fui um dos convidados para a noite de pré-estréia do estabelecimento junto com outros profissionais da imprensa gastronômica da cidade. Um gesto extremamente simpático e inacreditavelmente bacana. Lá estava eu, fingindo que entendo alguma coisa de comida, ao lado de gente que trabalha e vive pra isso. Nunca tinha sido convidado pra nada de graça nessa vida que não fosse show de hardcore. Foi bastante divertido e já fez valer ter começado esse blog.

Só que o que o pessoal do Café Corbucci talvez não tenha se dado conta é que, mesmo sem perceber, elxs estão realizando numa escala muito maior e mais intensa tudo aquilo que o esse Distrito Vegetal sempre teve a pretensão de realizar. Mais do que um novo estabelecimento de comida, eu enxergo nesse pequeno novo espaço a possibilidade concreta de criação de redes de solidariedade para intervir diretamente na realidade e promover algum tipo de ação ética sob uma identidade estratégica que por um motivo ou outro a gente considera importante.

Ficou complicado, né? Deixa eu tentar explicar melhor. Eu acredito que as nossas cidades, as nossas vidas, só terão mudanças positivas a partir do momento que as próprias pessoas interessadas nessas mudanças comecem a realizar alguma coisa nesse sentido. E foi isso que o pessoal do Café fez. No melhor espírito “Henry-Rollins-de shortinho-vivendo-numa-van” (aka faça-você-mesmo), algumas pessoas se juntaram e resolveram “Não tem nenhum estabelecimento vegan em Brasília? Pô, vamos abrir um então”. Animal. Muito melhor do que ficar choramingando por aí (coisa que eu e 99% da humanidade costumamos fazer no tempo livre das nossas vidas mesquinhas).

Além de se tratar de um resultado bastante concreto da união de algumas pessoas na promoção de uma ação ética, o Café acaba por criar uma rede expansiva sobre esse mesmo tema. Provavelmente, todo mundo que for lá (tenha uma alimentação vegana ou não) vai parar pra pensar um pouco sobre as implicações éticas do seu prato de comida. Ou ao menos eu espero. E é aquela coisa. Assim como com o punk rock, a gente não vai mudar o mundo, mas dá pra mudar o nosso e o de muita gente.

Ao mesmo tempo, o Café Corbucci ajuda a promover essa identidade que muita gente torce o nariz, e que muita gente ama de paixão que é o veganismo. Sei lá, eu acho toda essa história de política de identidades uma coisa muito complicada. Tem briga demais entre pós-estruturalistas e pós-colonialistas pra eu ter uma opinião realmente definida e fechada acerca desse tema espinhoso.  Mas de uma coisa eu tenho certeza, é legal pra caralho chegar num lugar e ler “Café Corbucci – comida vegana, sem produtos de origem animal”.

Isso porque, seja o veganismo absoluto mera obra de ficção, ou mesmo a afirmação “eu sou vegan”  carente de sentido em última instância, não importa. No fim das contas, tudo é ficção mesmo. No Café Corbucci, essa palavra, esse rótulo, essa identidade (mesmo que estratégica, nômade, temporária, como você quiser), faz todo o sentido. Não se trata de um lugar de “comida natural”, “comida saudável”, “comida macrobiótica” ou qualquer variante do tipo. Lá a gente não precisa desviar o foco da questão ética (e por conseqüência da crítica ao consumo, da objetificação da vida, yadda yadda yadda). É um espaço VEGAN e as implicações e motivações disso estão bem claras. Eu acho isso ótimo.

Se pra maioria das pessoas que vai lá se trata de apenas mais um café, tudo bem. A falta de encantamento de outros olhos não diminui nem um pouquinho o meu encantamento.

Eu sei que eu escrevi, escrevi e mal falei da comida. Foi mal, Marina. Na verdade, eu nem sei falar sobre comida. Talvez esse blog passe a impressão errada de que eu entendo alguma coisa de comida. Desculpem também por isso, pois eu não entendo porra nenhuma de comida. Deixo essa reivindicação de conhecimento culinário para aquelas que curtem um foies gras e outras coisas abomináveis que eu nunca vou nem provar. O Distrito Vegetal aqui é apenas uma desculpa, um ponto de partida, para falarmos de outras coisas.

Mas tudo bem, no dia da inauguração, quando eu estava lá macaqueando que era da “imprensa” (uma “colega de profissão” até pediu  o meu cartão. “Pô, esqueci de trazer”), eu tomei uma apetitosa sopa de tomate, um wrap com brotinhos e um fandárdigo molho a base de amendoim. Teve também um sanduíche de seitan (Venom!), suco de maçã, café com leite e tortinha cheese-cake de tofu. Tudo delicioso.

Depois disso já voltei mais duas vezes  e pra minha grata surpresa o ambiente estava sempre cheio. Como foi bom sentar ali e comer um pão-de-queijo com capuccino.

Seja bem-vindo, Café Corbucci. E muito obrigado.

Café Corbucci
203 norte, bloco D, loja 53
(esquina dos fundos)
telefone: (61) 32011316

Ômega 3, saúde e a e-vegan-lização.

Depois do estrondoso e explosivo sucesso do nosso Guia Vegano 2011, acho que está na hora de voltar para as nossas resenhas mesquinhas e reflexões baratas. O Guia continua em constante atualização e pode ser acessado e divulgado pelo link: https://distritovegetal.wordpress.com/2011/01/21/o-grande-guia-vegano-brasilia-2011/. Vou dar um jeito dele ficar mais visível aqui no blog, conforme outras besteiras menos importantes sejam postadas.

De qualquer maneira, gostaria de agradecer todo mundo que visitou e distribuiu o guia. Muitas pessoas conheceram o se empolgaram com a ideia do DV nesses últimos tempos, o que é muito bacana. Como a gente diz: veganismo é que nem punk rock, fica melhor quando a gente faz junto. E de preferência, com chimbau dobrado.

A gente também está preparando o primeiro grande evento de degustação coletiva do Distrito Vegetal. A ideia é criar rankings de categorias específicas do rango vegan na cidade. Pra inaugurar, obviamente, iremos nos debruçar sobre a maior iguaria vegana que deus não criou: “o melhor açaí da cidade”.  Consultoras especializadas já foram convocadas. Um engenheiro formado está responsável pela auditoria do experimento. Tudo será devidamente documentado e, evidentemente, postado aqui. Mais detalhes em breve.

Mas sim, vamos ao Ômega 3.

Ômega 3
Localizado ali na 413 Norte (uma espécie de Rua dos Restaurantes versão vegan? — lá, além do Ômega, temos o burger gourmet do gringo, a pizza de cogumelos da Dona Lenha e a vitamina com leite de soja do Bendito Suco), o Ômega 3 tem escalado selvagemente uma seleta lista e  se tornado um dos meus estabelecimentos favoritos do distrito.

A proposta do lugar é oferecer alimentação saudável. Minha sugestão é fugir das comidas com creatina (a menos que você queira ‘pocar’) e focar em tudo no cardápio que não possui nem o cheirinho de galináceos e outros derivados animais.

O legal é que lá você tem mais uma opção pra escolher. Poder de escolha não é uma coisa que a gente tá muito acostumado depois que resolve se alimentar veganamente, né? Ou pode até estar, se colocarmos de outra forma, estamos sempre “escolhendo não escolher”. Acho que eu prefiro encarar as coisas dessa forma, me parece menos recalcado.

De qualquer maneira, você pode ir um dia lá e experimentar o escondidinho de shimeji. Numa outra oportunidade, peça o sanduíche vegan. Se quiser ir um dia só pra comer a bruschetta (não me cobrem nenhum trocadilho infame) ou apenas tomar um açaí com paçoquinha, tá valendo também. Se não me engano, também rola um risoto, saladas e sanduíche pra montar. Achei tudo bem gostoso, bem temperado. Também rola mais uma opção de sobremesa vegana, o que faz com que a gente tire um pouco daquele gostinho de ‘soup nazi‘ toda vez que você quer comer um doce vegan fora de casa.  Rola um creme de abacate com limão, uma delícia de morango e, a minha favorita, tortinha de banana com leite de castanhas.

O que eu acho mais bacana é você ter no cardápio opções explicitamente “vegan”, escrito assim mesmo, não apenas ‘sem lactose’ ou outro termo qualquer. Pode parecer besteira, mas pra mim isso é muito importante. Afinal, essas restrições não são apenas condições que o mundo nos impôs, mas escolhas que a gente coloca pro mundo. O ômega inclusive promoveu uma semana em comemoração ao dia vegano internacional, ocasião em que eu acabei conhecendo o lugar.

Como nem tudo são (couve)flores, seria bacana se houvesse mais opções de sucos (sabe aquelas misturas extravagantes do Rio Sucos?) e o preço poderia ser um pouco mais moderado. Eu acho que os valores são jogados lá pra cima. Me parece um  sintoma da lógica de mercado aplicado a nichos específicos, mas isso é uma conversa pra outra reflexão.

Veganismo-bagunça
O que eu gostaria realmente de comentar brevemente nesse post é sobre a intricada relação entre veganismo e saúde. Esse tema foi levantado recentemente em um comentário aqui no DV, em que me pintavam como um propagador de hábitos veganos destrutivos, que vive de estragar o próprio corpo e produzir entulho para o planeta. Aparentemente, tudo isso porque a gente curte um PCO vegan.

Já não deve ser novidade pra ninguém que acompanha esse blog que a gente não enxerga o veganismo como uma prática monolítica de significados exclusivos. As motivações, razões e argumentos sobre o veganismo são multíplos. E é bom que seja assim. Nada de verdades absolutas por aqui.

Da minha parte, o foco no veganismo tem a ver mais com uma crítica ao consumo do que uma tentativa de exercício de pureza, mais com uma questão de ética de tratamento com os animais do que saúde do corpo, mais com a produção de desejos interessantes do que sublimação de impulsos desejantes.

E não que essas coisas estejam plenamente definidas e hermeticamente separadas. Tá tudo misturado: ética, política, ecologia e saúde. E sempre em disputa. Gosto de comer comida saudável e produzida/colhida localmente, assim como gosto de vir pro trabalho de bicicleta. O ponto importante pra mim  é que é uma preferência moral, não uma proibição. Proibição só gera ressentimento, infelicidade, desistência.

Alimentação saudável é um dos ingredientes do veganismo pra mim, mas apenas um deles, bagunçado com tantos outros. Uma das metas desse ano pra mim, inclusive, é investir numa vida refri free youth. Porque eu acho que refrigerante não faz bem, mas também pelo peso simbólico e político que a coca-cola possui. Mas não quero que abdicar seja sacrifício, quero me sentir bem por não tomar isso.

Tenho dúvidas se uma dieta vegana é a mais saudável de todas. Mas não tenho muitos problemas com isso. Não acredito que meu corpo se assemelhe a um templo que merece respeito. Tampouco estou disposto a jogar o jogo da coerência. Essa é a prática mais cruel pra alguém que simpatiza com o veganismo e gostaria de dar passos nessa direção. É o jogo do tudo ou nada, ou você é perfeitamente coerente com tudo que você acredita ou nada do que faz adianta. Eu tô fora disso daí, aceito as contradições do meu molho de tomate produzido por multinacionais.

Faça a coisa certa
No final das contas, mesmo com essa multiplicidade toda, parece que dá pra tirar uma coisa que é comum a todo veganismo. A gente faz isso porque acha que é a “coisa certa” a se fazer, não é mesmo? Eu acho. Agora, isso significa que a minha noção de certo deve ser empurrada pra todo o resto do mundo, em todos os contextos? Eu acho que não.

Acho importante todo mundo que se dispõe ao veganismo tomar um chazinho de humildade ontológica. O mundo não partilha dos mesmos olhos que você. A pretensão de abraçar o mundo com a minha noção de certo partilha o mesmo ímpeto colonizador que em princípio segregou humanos e não-humanos. Eu não quero promover o veganismo por meio de uma eveganlização, nunca consegui entender esse impulso cristão de querer dizer como as outras pessoas (humanas ou não) devem viver as suas vidas.

Respeitar as escolhas das outras pessoas é uma mostra importante de que você está confortável com as suas escolhas. O daniel me disse isso esses dias, e eu achei muito bonito.

Bem, já falei demais. Um pouco mais sobre o que eu penso sobre veganismo pode ser lido nos posts com a tag “reflexões”, que dá pra acessar aqui.

Ômega 3 – 413 Norte Bloco D
Telefone: 3273-1671

Palazzo, vida simples e o quadrilátero vegano da Asa Norte

(mais uma vez, se a fome aperta e tá difícil ler um monte de besteiras, salte logo pras últimas linhas que lá estão todas as informações que realmente interessam. Não há demérito nenhum em subordinar o cérebro à barriga, afinal essa última costuma trazer muito mais felicidade mesmo)

Se é realmente verdade que o veganismo é esse exercício cruel de empatia que acaba por nos afastar da humanidade e nos isolar em pequenos grupos cínicos (mentira, é o maior legal), fico me perguntando o quanto de desapego e abandono envolvem esse negócio de tentar ser vegan. É verdade que a gente começa a abrir mão de um bocado de coisas, mas todo movimento de dizer ‘não’ pra alguma coisa já pressupõe dizer ‘sim’ para um outro tanto de coisas, não acham?

(Algumas pessoas com sinceridade avassaladora arriscariam a dizer que veganismo é o desapego do paladar. A ideia desse Distrito é justamente levantar uma bandeira de “NÃO” pra essa tese. Apesar de que talvez eu fosse a última pessoa que deveria manter um blog como esse. Meus critérios podem ser resumidos de maneira bastante clara: “é vegan? então, é bom”).

Bem, tô longe de ser um exemplo de desapego, com minhas coleções de discos velhos e revistas em quadrinhos, mas como já disse antes por aqui, vejo com o melhor dos olhos esse tipo de prática. Afinal, o sistema que nos ensinaram adestraram a viver é esse, da apropriação (e do descarte) excessiva. E é o que fazem com os animais. Apenas mais um item na lista.

De maneira que fico feliz demais quando essa postura ética, que às vezes pode parecer tão complicada, cheia de gambiarras, leituras de rótulos e perguntas inconvenientes, consegue andar de braços dados com uma vida simples e desapegada. Muitas vezes, a gente consegue tudo isso com espírito comunitário e ajuda mútua, essa era a principal motivação pra criação do Distrito Vegetal.

Enquanto não posso abandonar tudo pra viver numa comunidade anarcohippie em que plantaremos tudo o que consumirmos e as guitarras sejam movidas a energia solar, vou tentando nesse dia a dia urbanóide descomplicar tudo que estiver ao meu alcance, capacidade e vontade. Se livrar do carro e não ter televisão podem estar mais próximos de parar de comer carne do que a gente imagina.

E foi num exercício pleno de camaradagem vegan, aqui nos comentários do DV, que eu fiquei sabendo que agora a gente tinha um lugar tomar milk shake sem leite. E o melhor, perto da minha casa, e ainda, sem ser num shopping center! Muita felicidade. Trata-se da sorveteria Palazzo, na 706/07 Norte, ali do lado do Manara.

Tenho tentado me especializar em destrinchar toda as possibilidades do rolê vegano na Asa Norte. É onde eu moro, ando de bicicleta e por onde pego ônibus. Pra mim, esse exercício tem tudo a ver com promover uma vida simples (posso ir a pé fazer qualquer uma dessas refeições) e estreitar laços comunitários (você realmente passa a viver mais onde mora).

As coisas estão tão boas por aqui nos últimos tempos que tenho apelidado essa área de Quadrilátero Vegan da Asa Norte. Assim como o Alan Moore não curte muito sair do bairro dele lá em Northampton, eu poderia muito bem me aposentar e ficar só de bobeira por aqui. As pontas do quatrilátero seriam: o Sky’s na 716, a Palazzo na 706 e o Kebaara na 409. a última ponta não decidi ainda, mas tenho certeza que tem um monte de delícia vegan espalhada nos poucos km2 que compreendem essa área.

(fica aí a sugestão de que cada pessoa descubra os quitutes sem galináceos perto de sua casa e passem pra gente publicar aqui. Imagina? O pentágono vegan da Ceilândia, o octaedro vegano de Planaltina? Seria demais)

Voltando a Palazzo, uma crítica: o preço é caro. E isso realmente não combina com uma vida simples, né? Por outro lado, bem, como eu posso dizer de forma clara? É MILK-SHAKE VEGAN, PORRA. Acho que vale a pena, mas cada uma que sabe. São três sabores sem lactose: chocolate, morango e maçã-verde. Quem sabe indo mais a gente consiga ampliar a paleta de cores.

O atendimento é ótimo, bastante compreensível com as restrições alimentares que quisermos imaginar aí pros próximos anos.  Tô louco pra voltar e pedir uma banana split vegan. Sei lá quantos anos que eu não tomo isso na rua. A decoração é toda cheia de pinturas de castelos, então além de tomar sorvete pode ser um bom ponto de encontro pra quem curte jogar um RPG e ouvir um metal melódico. Cada um, cada um né?

E fala a verdade, quem é que não tava morrendo de saudade de tomar um sorvetinho nos belos finais de tarde do nosso Distrito? No final das contas, um soja-milk-shake acaba nos jogando de volta nos braços dos rituais humanos que a gente pena pra se livrar.

Palazzo – milk shake e sorvetes vegan
706/707 Norte – Telefone: ???
http://sorvetespalazzo.com.br/

Kebaara e a misantropia vegan de pequenos grupos


Primeiramente, deixa eu contar logo à boa notícia para os esôfagos vegans mais apressadinhos (a gente sabe como eles podem ser um tanto impacientes): finalmente, temos de volta Falafel à preços acessíveis no nosso Distrito (nem-tanto)Vegetal. Informações e detalhes você encontra logo abaixo das inúmeras elucubrações que serão desenvolvidas em 3…2…

…1. Dia desses saí pra jantar com o pessoal do trabalho da minha namorada. A gente foi num restaurante mexicano na asa sul que eu não conhecia, El Paso Texas. Ele inclusive está presente na nossa lista inicial de restaurantes com opções veganas, lista esta que necessita urgentemente de uma longa, penosa e esmiuçada atualização. (primeira meta para 2011?)

Lá, me surpreendi com a surpresa das pessoas em relação ao nosso vegetarianismo estrito. Pra algumas daquelas pessoas (só algumas), parecia que nós éramos de outro planeta. Por um instante me senti um herói, por estar fazendo algo tão sofrido, tão difícil, tão árduo: parar de comer bife. Fala sério, eu detesto isso. Muito melhor ver as nossas atitudes como simples, fáceis e claro, agradáveis. Acho que o mundo não precisa de mais heroísmo. Vegano ou não.

Seja como for, momentos como esse, são sempre boas oportunidades de desenvolver a paciência, falar um pouco sobre o que você acredita (se a pessoa está interessada em ouvir – nada pior do que pregação vegan) e mais importante, tomar um chazinho de realidade. Cuidado, pode ser amargo.

Eu sei que isso demonstra um grave traço de anti-sociabilidade, mas a verdade é que eu não tô mais acostumado a conviver com pessoas que comem carne, ou que achem estranho não comer. Não consigo evitar de pensar que todos esses anos de veganismo foram moldando minhas relações sociais para uma subcultura bastante específica e esquisita.

E eu gosto disso.

Por outro lado, pode ser que as coisas nem sejam tão assim, mas como eu cresci sob a régua e o esquadro da estrutura punk rock de organização social, em que tudo são cenas, rolês, grupos de apoio, cultura subterrânea, eu acabo vendo o mundo dessa maneira. Sei lá.

O que eu sei é que pensar em tudo isso me leva a uma conclusão paradoxal, mas muito interessante. O veganismo, apesar de uma postura (difícil substancializar) que cultiva a empatia por outros seres acaba provocando um isolamento e um estranhamento com a nossa própria espécie. Eu costumo brincar e chamar isso da “misantropia vegan de pequenos grupos”.

Talvez possamos dizer assim: flexionar o olhar para “o outro” (que não precisa ser alguém da cisão humano-animal, mas pode ser, no meu caso específico, uma garota ou um homossexual, por exemplo) faz com que a gente perca cada vez mais a identidade com o que é “o próprio”.

E mais uma vez, eu não vejo essas implicações de maneira negativa. Certamente não. Primeiro, porque eu não acho que se afastar da (ou não se ver mais na) humanidade seja algo ruim. Acredito que é justamente esse afastamento que permite a empatia necessária pra um passo ético como o veganismo. Muita humanidade, muita razão é igual a muito degrau, muita dominação. Segundo, porque eu realmente aprecio os arranjos micropolíticos e vejo neles uma capacidade de transformação bastante significativa. No fim das contas, essa é a ideia por trás desse blog desde o começo, de que veganismo é algo que fica mais legal quando a gente faz junto.

Já escrevi um bocado sobre isso e pretendo escrever mais no futuro. Espero que não se incomodem de eu utilizar um pouco do nosso distrito para isso.

Mas tudo isso pra falar do que mesmo? Do Falafel! Pois é, agora além de limitar meu círculo social, eu posso limitar minha necessidade de locomoção (nota mental: parar com tanto cinismo) e ainda aumentar o espectro do meu cardápio! Tem um kebara na asa norte (409) e outro na asa sul (209) e eles servem um delicioso sanduíche de falafel num preço acessível.

O pão pode ser ciabatta ou sírio, ambos veganos. Tem um monte de tempero, molho e acompanhamento sem galináceos também. Sugiro caprichar no homus, botar quente no babaghanoush e se afundar nos picles. E ainda tem um combo com batata-frita. Tem alguma coisa que fica ruim com batata-frita? Péra aí, eu respondo: Não.

Em boa parte da Europa ocidental, o falafel é a comida de rua mais popular entre vegetas. Me salvou várias vezes por lá. Fico muito feliz de finalmente termos um esquema desse mais prático aqui em Brasa. Alguns lugares não servem mais o falafel (Manara e Nilo, esse último fechou) e outros são boys demais e tem uma estrutura restaurantal diferente desse esquema prático e fast-food que a gente curte.

Como vocês sabem tão bem como eu, a praticidade da comida vegan na rua é um dos maiores empecilhos da nossa prática misantropa. Bem, nem isso é desculpa mais.

Kebaara: falafael + batata-frita + atendimento camarada.
408 Norte e 209 Sul. Telefone: 3443-0204

P.S.: Eu nunca nem tinha procurado ler nada sobre misantropia, usava o termo com deslavada fanfarronice. Mas olha só que interessante: “Os misantropos expressam uma antipatia geral para com a humanidade e a sociedade, mas geralmente têm relações normais com indivíduos específicos (familiares, amigos, companheiros, por exemplo). A misantropia pode ser motivada por sentimentos de isolamento ou alienação social, ou simplesmente desprezo pelas características prevalecentes da humanidade/sociedade.”

Acho que encaixa bem com essa pegada vegan não-humanista.  hehe.

tcham!

“encher o saco: a melhor estratégia da ação direta vegana”

ou…“pela extinção voluntária das gambiarras vegan” ou ainda: “novidades vegetas no Submore!”

Com o passar dos anos fui me especializando em gambiarras vegetarianas. Se você decide adotar uma alimentação estrita, não há muito pra onde correr. É isso ou aprender a cozinhar. Eu sei que a  segunda opção é mais prazerosa e mais  nutritiva, eu até descolei uns livros de receitas e já me aventurei com bolos e panquecas sem galináceos, mas devo confessar que sou uma mera marionete nas imperdoáveis mãos da preguiça.

Minha meta era, portanto, virar uma espécie de Macgyver do veganismo. Depois de guiado pelo mestre Hery (esse come até pedra se for vegan), fui responsável por dar vida a muitas aberrações por aí. Pizza de muzzarela sem muzzarela, misto-quente sem queijo e sem presunto, macarrão ao molho bolonhesa sem molho bolonhesa. Um mundo cruel, vocês devem imaginar.

Quatro dicas importantes pra quem quer se jogar nesse mundo, nessa vida bandida, da gambiarra vegan. 1) paladar é eufemismo burguês. É vegan? É gostoso; 2) comida enlatada é a sua melhor amiga. Com ela você consegue feijão, grão de bico, molho de tomate e outras delícias pra incrementar o pão seco e o macarrão sem molho;  3)Tudo fica melhor com batata-palha; e 4) Saber conversar, ter paciência e cara de pau com quem te atende é a melhor estratégia. Negocie trocas de ingredientes, pergunte pelo que mais eles tem na cozinha, peça pra inventar um prato novo.

Assim é possível extrair uma refeição vegana de praticamente qualquer cardápio. (podemos até bolar um desafio desses nos futuro, hein?)

O suprassumo da gambiarra vegana atende pela alcunha de PCO Vegan. Em alguns estados do nordeste também pode ser encontrado sob o nome de “Menina-Mocinha” ou na versão mais radical, “Cassaco Menstruado”. Trata-se da combinação extrema entre pão francês, uma lata de molho de tomate e batata-palha. A sugestão de acompanhamento é suquinho pó da morte (preferencialmente de um sabor bem artificial) numa garrafa de água mineral. Um manjar de sobrevivência que acaba saindo por menos de R$ 2 pra cada pessoa do casal.

Mas a gambiarra não pode ser o nosso horizonte, claro. ‘Ser realista e demandar o impossível’, é o que dizem né? Bem, eu tô demandando! Demandando queijo vegan que derrete, bolo de cenoura que incha, salsicha que não desmancha. Até agora nada, beleza. O punk nos ensinou que não se trata de esperar, mas de fazer, certo?

E tem várias coisas que você pode fazer pelo veganismo. Explodir o laboratório de psicologia da UnB, pixar vacas pelas ruas da cidade (achei animal quem fez isso, fica registrado  o agradecimento), adotar animais abandonados, etc. Apoio todos, mas o exercício de ação direta vegan que mais tenho aplicado é simples: encher o saco.

Importante frisar que a encheção aqui se refere à determinadas práticas específicas: enviar emails com sugestões para o lugar que você gosta de comer, trocar um lero com a gerente do estabelecimento, conversar com o pessoal que te atende, preencher as fichinhas de sugestões, essas coisas. Tudo na tranquilidade. Não confundam isso com pregação. Nada mais deselegante do que quem é vegeta sendo chatx com quem come carne. Se você acha chato aquele seu tio que vive fazendo piada ou pegando no seu pé no churrasco, não reproduza a mesma lógica, né?

Já mostramos no distrito como essa estratégia pode dar certo. Hoje temos hamburger vegan no sky’s e rolês com fartura depois dos shows de rock, graças aos emails que mandamos ao pessoal da lanchonete mostrando que nem só de açaí e batata-frita se sustenta um intestino. Por outro lado, já quebramos a cara também, o pessoal sacana do Marvin nos ignorou completamente. Pior pra lá.

Pois bem, eis que recentemente, ao pedir um rango no submore da Asa Norte (3349-4848), já preparado para aplicar todas as técnicas da gambiarra vegan, eu me deparo com uma grata surpresa: o cardápio foi modificado, dois sanduíches vegetarianos foram incluídos e um deles é vegan! Que beleza. Pão ciabatta, legumes grelhados e pasta de homus.  De muito bom gosto. Não são aquele leguminhos da lata de seleta não, são umas couve-flores bombadas, umas cenouras anabolizadas, tudo passado deliciosamente no azeite. Fino.

As gambiarras veganas no submore já tinham sido objeto de análise no nosso Distrito. Em junho de 2009, eu havia escrito (e nem me lembrava):

Você tem a opção de montar uma salada ou de montar um sanduíche. Eu geralmente peço um sanduíche, na baguete ou no pão sírio. Substituto os frios e as pastas por alface, tomate, milho, grão de bico, cebola ou se seu espírito for mais aventureiro, uva passas ou manga (urgh). Não há nenhum sanduíche quente vegetariano,o que é uma pena e um desperdício. Sempre deixo uma notinha nas sugestões pedindo sanduíches quentes sem carne.

Hoje, mais de um ano depois, conseguimos. Tem sanduíche quente vegan e vegetariano no Submore. Nem acho que foi por causa da minha encheção de saco em particular, não. Mas eu continuo sonhando com um mundo em que todo mundo encha tanto o saco que não haverá mais gambiarra. Dá até camisa: “pela extinção do cassaco menstruado”.

Serviço:
Submore, 115 norte.
Agora com opções veganas quentes.

Tuza’s: o gostinho da comida vegan pós-apocalíptica

Todo esse nosso papinho de comida vegan, esses sonhos e devaneios de distritos mais vegetais,  sempre anda de mãos dadas com conversas sobre alimentos verdes, comida saudável pra gente e pro resto das não-gente.

O que é muito legal, nenhum problema. Sou um baita entusiasta de comida orgânica, viva, crudívora. Acho que o melhor rango que já comi até hoje foi num crudívoro no Leblon. Sorte de vocês que esse não é um “Rio Vegetal” senão vocês teriam que aguentar longas dissertações a respeito da lasanha com queijo de macadâmia, do shake de leite de castanhas, ou do brownie com chantilly de banana. Foram experiências transcendentais as que eu obtive com esses alimentos, constrangendo profundamente minhas companhias céticas.

Mas bem, eu sempre fico pensando (às vezes penso demais) em como seria cultivar hábitos veganos em um mundo em que simplesmete não haja mais espaços para cultivos saudáveis. Tive um gostinho de como é se alimentar em um mundo massiva-e-agressivamente industrializado, urbanizado e concretado quando estive em Osaka, Japão. E posso dizer que não foi das coisas mais agradáveis. Muito Subway com abacate.

Por outro lado, os fast-food de junk food vegan que eu adoro me dão outro gostinho desse mundo. E é um gostinho muito do gostosinho esse último.

Beleza, tudo o que eu quero dizer pode ser resumido na seguinte pergunta: Dá pra ser vegan depois de tudo acabar? ou ainda, Afinal de contas, aquela latinha de comida de cachorro do Mad Max 2 era vegan ou não?

Talvez uma resposta possível esteja no bairro inflamado pela especulação imobiliária no DF. Acho que em Águas Claras podemos ter um gostinho do que é a culinária vegana em um mundo pós-apocalíptico.

(Esse papo me lembra uma das mais cretinas perguntas que todo mundo que para de comer carne é obrigado a escutar: “mas aí, se você tivesse sozinho, numa ilha deserta, depois do trágico acidente de avião que trazia você e umas vacas, morrendo de fome…”)

Águas Claras é uma espécie de bomba-relógio em formas verticais. Não sei o que vai acontecer com aquele lugar quando todos os prédios estiverem construídos e habitados. Talvez ela colapse dentro de si como um buraco negro ou algo do tipo, não sei bem. O que me importa é que mesmo naquele espaço semi-construído (me refiro àquele lado mais oeste de Creedence, ali nos arredores da estação Concessionárias – que nome mais agradável não?) tomado de poeira e asfalto, a gente conseguiu encontrar alguma comida vegan para acalentar e acalmar nossas barrigas.

E o que poderia florescer de vegano no meio do pó? A refeição mais básica de qualquer alimentação vegana, a mais gloriosa combinação desde o arroz com feijão: açaí e batata-frita. Sei que posso soar demasiado bronco ao fazer essa declaração, mas é a minha refeição favorita. Assim como a maior felicidade parece estar na realização das necessidades fisiológicas mais básicas, a maior alegria culinária pra mim está numa tigela de açaí com batata.

Na Lanchonete Tuza’s, uma espécie de Sky’s da região, você pode se esbaldar com litros da iguaria do norte batida com diferentes frutas (dica: peça pra trocar o saquinho de leite condensado por dois de granola) e uma cabulosa porção de batata-frita. Sério, é muita batata. Oleosa, deliciosa, daquelas que provocam até dor nos rins depois de mastigadas e engolidas.

A especialidade do lugar são sanduíches com muito bacon, ovos e presuntos.  Mas quem sabe um dia a gente consegue colocar uma sojinha no meio de tanta carne? Já colocamos em outros lugares, o norte deve ser esse.

Norte que é também da onde veio o Açaí, trazido do Pará. As batatas não sei onde foram plantadas. Certamente não em Águas Claras. Acho que só nascem carros ali. Mas o mundo não acaba todo de uma vez, não é mesmo? Ele vai se desmanchando em pedaços e eu realmente espero que as plantações de coquinho no Pará sejam uma das últimas a ir embora.

Tudo bem, confesso que pintei Águas Claras com cores um tanto dramáticas. Já me adiantaram que lá existe um bom restaurante Mexicano, tem também o Salamandra, e a gente descobriu um tempinho depois A Toca do Açaí que conta com um wrap vegano, hamburgers de soja e, é claro, açaí. Quem tiver mais sugestões do que comer veganamente em Águas Claras, mande pra gente.

Até que o armagedom não é tão mal assim, né?

Tuza’s Burger
3209-6566
http://www.tuzasburguer.com.br/

tem açaí, véi!

Girassol: tchau veganismo sacrifício, olá veganismo satisfação

Promessa é dívida. E como toda dívida, a gente enrola um pouquinho pra pagar.
Vamos a resenha dessa semana.

Há alguns raros posts atrás, comentei desse estranho mundo que mistura adultescência e restaurantes que se  vendem como naturais.  Na ocasião, destaquei o meu favorito dentre os estabelecimentos desse Distrito muito-pouco-Vegetal, o Sabor Vital.

(Fico me perguntando o que são restaurantes não-naturais? Concebo lugares com comida vegana de natureza sacana, com batata-frita com óleo de soja transgênica de latifúndio. Vai ver que esse nome é só pra omitir adjetivos. Na minha cabeça vai ficar assim: restaurantes de natureza bacana, restaurantes de natureza sacana).

Certo. Quem me conhece sabe que eu sou um cara um tanto hiperbólico e superlativo. Talvez a leitura desse blog dê algumas indicações desse sintoma. O “melhor do mundo” é uma categoria com uma mobilidade incrível na minha vida. Nesse ímpeto de empolgação favoritista, acabei cometendo uma grave injustiça. Foi minha barriga quem me avisou, uma semana depois, quando voltei ao delicioso, ao sublime, ao sensacional (eita superlativos!) Girassol, ali na 408 sul.

O Girassol entra facilmente no topo da lista de melhor restaurante da cidade. Essa história de que dois não ocupam o mesmo lugar no espaço é uma lei que a gente revoga fácil. A comida é fenomenal. O restaurante é totalmente (abertamente) vegetariano – nada de compartir espaço com carne de avestruz, tudo bem, me chame de fresco – e com uma considerável variedade de pratos vegan. Acredito que lá merece o troféu de arroz da cidade (até imaginei a tacinha dourada com a carinha do Andreas Kisser).

Há uma descrição completa dos ingredientes na bancada e as pessoas são bastante solicítas em tirar dúvidas sobre detalhes da preparação da comida. Eu costumo desempenhar esse papel de chato da galera, mas não é algo que me orgulhe. É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazê-lo, certo? Ah, ainda rola uma tortinha de cacau e uma gelatina vegetal. Também rola de ir a noite, montar um sanduíche de tofu e matar de ciúmes aquele pão-com-tomate de noites solitárias.

Mas o que eu queria comentar mesmo é que comer no Girassol me fez entrar num vortex temporal, de volta ao ano de 1999. A primeira vez que fui num restaurante vegetariano em toda minha vida. Meu pai que me levou. Naquele clima engravatado do post anterior. Eu era apenas um gordinho nerd e metaleiro que adorava comer hamburger de fast food. Bem, pensando bem, talvez não tenha mudado tanta coisa assim. Só que o hamburger hoje é de soja.

Na ocasião, paguei aquele clássico mico de pedir refrigerante nesse tipo de estabelecimento. “Só possuímos suco, senhor”, “ah, vai de laranja então”. Gostei da comida, completamente diferente do que eu estava acostumado. Lembro de acreditar piamente na minha incapacidade de um dia viver sem comer carne. O curioso é que algum tempo depois seria eu que bartlebiamente estaria declinando o churrasco da família. Só que foi tudo muito fácil.

Gosto de dizer isso pras pessoas: parar de comer carne foi uma mudança muito tranquila de hábitos que pareciam tão arraigados quanto minha constituição. Às vezes a gente não faz ideia de como não se manter o mesmo pode ser uma experiência agradável.

Sei que tem um monte de gente que adora cultivar uma visão de veganismo como sacrifício ou até mesmo fazer paralelos com da alimentação vegana com uma batalha, com uma guerra. Talvez isso faça essas pessoas se sentirem mais importantes com o que elas consideram importante. Tudo bem, mas eu não estou nem um pouco interessado em ver as coisas por essa ótica.

Pra mim, veganismo é um grande prazer, uma prática que me traz bastante alegria.  E não há nada de alegre em se sacrificar ou em cultivar sacrifício. Não acho que política alguma dê certo se não mobilizar o desejo das pessoas. É por isso que o Capital dá tão certo. E a melhor maneira de combater esses desejos-estímulos que causam tanto sofrimento (como um belo hamburger asséptico de fast-food) não é com repressão, repreensão e ressentimento, mas cultivando os desejos de coisas que achamos bonitas, interessantes e bacanas.

Ah, quase esqueci. O Girassol ainda conta com uma feirinha de orgânicos ao sábados.  Lembra da história da natureza bacana ali em cima? depois a gente conversa mais sobre isso.

Girassol.
409 Sul Bloco B
Tel: (61) 3242-1542

Sabor Vital: o favorito da adultescência

Até pouquissímo tempo atrás, almoço não era coisa que se fazia em restaurantes.

Durante uma fase lebówskica, conturbado período de muito pijama e pouco trabalho, o almoço era uma refeição tipicamente caseira. O último resquício de uma rotina que me salvou da insanidade. O mundo poderia estar em pedaços lá fora, mas o tempero inabalável do feijão continuaria o mesmo dia após dia. Era bom, economizava no bolso (que estava sempre vazio) e tinha a segurança de estar comendo alguma coisa segurament vegana.

Antes disso, quando ainda era um jovem mancebo universitário, vivia plenamente aquele cotidiano recheado de silverinha de soja e sucos de cores do Restaurante Universitário da UnB. Me chamem de masoquista, mas eu ainda gosto de almoçar lá. Acho que até vale uma resenha pro Distrito Vegetal. Espero dar a sorte de ir num dia com bife de glúten acebolado.

De qualquer maneira, comer em restaurantes self-services é uma coisa recente na minha vida. Provavelmente tem alguma coisa a ver com esse mundo da adultescência em que fui arremessado, mas que ainda permanece como um estranho. Esse mundo de roupas com mais de um botão, vocês sabem bem como é.

(Parênteses. Dica de sobrevivência nesse mundo selvagem da adultescência: mesmo que você não goste de futebol, procure saber por alto os resultados da rodada do final de semana. Pode salvar sua vida)

Nesse último ano, então, comecei a frequentar a diversa fauna dos restaurantes “naturais”. Não sei bem o que isso significa, mas dá pra perceber que dentro dessa gaveta gastronômica aparentemente restrita dá pra encontrar um monte de coisas diferentes.

Tem restaurante natural que serve até carne de avestruz e nenhuma opção vegana, frequentado majoritariamente por yuppies histéricos. Tem restaurante natural frequentados por vegetarianos com cara de doente, em que fica difícil de comer porque o simpático casal hippie do seu lado parece não se importar com o fato do nenê deles ter se cagado nas calças inteira. Tem restaurante que é mantido por motivos religiosos, tem uns que você sabe que o que importa é a grana mesmo.

E no meio disso tudo, tem o meu favorito: Sabor Vital. Ali na 316 norte, no setor hospitalar norte. Não é o restaurante vegetariano com mais opções da cidade, mas tampouco servem qualquer tipo de carne. É um restaurante vegetariano relativamente simples. Mas por que então, eles merecem esse título do DV?

O lance é que cada uma das coisinhas que eles servem é deliciosamente bem-feita. Pô, todo restaurante que você come rola um tofu, né? Pois é, o tofu com gengibre do Sabor Vital é melhor do que esse daí. Rolam também aquelas pastinhas de tofu pra jogar em cima do alface, de alho, de cenoura, de rúcula, só que são melhores. O feijão é melhor, a farofa com banana é melhor. Tem AMOR, sei lá.

Outro ponto positivo: o restaurante descrimina todos os ingredientes de tudo que é servido lá. Acho essa ideia demais, porque o esforço da indústria da carne é de justamente desassociar aquele delicioso hamburger ascético com o sofrimento e o trabalho que o gerou. Cabe aí uma leitura marxista heterodoxa do consumo da carne como alienação do trabalho e fetiche da mercadoria. Mas essa eu deixo pra outro post, ou outro blog.

Nem todos os pratos são veganos, mas pelo menos você pode saber exatamente qual o óleo foi usado naquela pamonhazinha de tofu que está preste a devorar.  A diversidade de saladas é jóia. Sempre tem umas três opções diferentes de proteína como “prato principal”, sendo no mínimo uma vegana. Tem lasanhas, tortas, bifes, hamburgers, kibes.

Hoje teve feijoada lá. Estava uma delícia.

Uma coisa legal, foi que eu conheci o Sabor Vital por indicação de um comentário aqui no Distrito Vegetal. Prova de que essa articulação entre barrigas e mentes às vezes pode dar certo, não é?

Sabor Vital
316 Norte, bloco A – loja 316
Telefone: 3349 2171