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O problema de classe do veganismo

Uma das críticas mais comuns a quem tem alguma simpatia pelo veganismo é que se trata de uma ética/cultura/prática elitizada, cara, inacessível. E geralmente a gente fica contra a parede, no esforço para mostrar que não é bem assim, que existem inúmeras alternativas, que pão com molho de tomate é baratinho, etc. Eu tenho passado minha vida fazendo isso.

Mas será que as críticas não tem um pouco de razão? Será que não estamos promovendo uma ética/política/cultura que ainda tem um grave problema de classe ainda para resolver?

Tenho que admitir que sim, o veganismo possui um grave problema de classe (não muito diferente de boa parte da política radical no Brasil). Mas talvez o primeiro passo para desconstruir esse problema é assumir o local de fala e abrir o jogo sobre esse problema. Esse texto é uma tentativa honesta de dar um primeiro passo.

Não pretendo com um post de internet dar uma solução final para o problema de classe nas nossas práticas políticas e de contracultura. Ainda tenho que ler muito neomarxismo pra isso, coisa que não deve acontecer tão cedo. Mas isso não significa que a gente possa escrever um pouco e conversar sobre isso. Não precisamos de plataformas formais ou conhecimentos de determinados procedimentos para falar sobre as nossas vidas. DIY é isso.

A tal elitização do veganismo é inclusive uma das maiores críticas que recebo aqui no blog. E querendo ou não (eu realmente não queria, acreditem), o Distrito Vegetal reflete essa questão de classe: dos mais de 100 estabelecimentos listados no nosso guia, 90% se encontram no Plano Piloto. Tem a ver com a proximidade da minha casa também (tem mais asa norte que asa sul, por exemplo), mas acredito que isso é um fator menos determinante. Infelizmente, os restaurantes também parecem não conseguir escapar de uma lógica de mercado, em que quanto mais específico o cardápio, mais caro (porque isso funciona pros ingredientes e pra mão de obra também).

De qualquer maneira, uma das coisas que aprendi quando comecei a freqüentar shows de rock nas mais longínquas periferias de Brasília é que a classe não é uma categoria intransponível. Podemos promover um olé em certas barreiras e mesmo que a gente perca a bola algumas vezes, ainda dá pra criar o nosso jogo (sou péssimo com metáforas futebolísticas).

Mas para isso, antes de falar o que penso, talvez seja útil falar o que não penso:

Acho problemático o discurso do “o mundo pode ser vegan hoje, todo mundo pode ser, só depende de você”. Não, não depende só de você. Quem dera o mundo fosse tão simples assim e política fosse uma coisa que a gente fizesse só com amigxs (é também, mas não só). Mas babaca mesmo é o discurso de “o veganismo é para poucos, para fortes” ou qualquer baboseira do tipo. A variação classista desse discurso seria algo como “veganismo é pra quem tem grana” ou “não posso ser vegan, moro na periferia”. O que além de não fazer o menor sentido, carrega uma dose de paternalismo bruta, como se as pessoas que tem menos dinheiro tivessem menos capacidade ou sensibilidade para certas questões.

E por último, mas não menos importante, não acredito que em uma espécie de chá-de-cadeira da revolução em que devemos esperar a resolução do problema de classes na nossa sociedade para começar a pensar e agir sobre outras políticas, como a dos animais. “Depois da revolução e de solucionar os dilemas do capital-trabalho podemos começar a pensar em gênero, raça, espécie. Tudo decorre desse primeiro impasse”. O problema é que todo mundo quer reivindicar a  primeira contradição e eu acho é que essa revolução tá demorando demais pra chegar. E enquanto a gente espera milhões de animais são objetificados, torturados e mortos para a alegria tanto de burgueses quanto de proletários.

O veganismo tem um problema de classe. Sim. Mas isso não significa que o veganismo é uma política a se abandonar. Claro que não. A questão é: como a partir disso podemos transformar o veganismo numa coisa melhor?

No fim das contas, o que quero dizer é simples, admitir um problema, uma contradição, em uma política não significa abandonar essa política. A desistência é apenas uma das respostas possíveis diante de um mundo cheio de tantas contradições. Uma resposta conformista e asceta, se você me perguntar. Uma resposta que eu não estou interessado.

Por isso, pensei em alguns pontos, que já explorei bastante em outras reflexões, mas que se reforçados nesse tema da classe podem nos ajudar a pensar um veganismo mais bacana.

Mais sensibilidade a contextos.  Uma ética sem sensibilidade a contextos é uma ética fadada a se enrijecer e morrer. Visto como um monobloco de regras a serem seguidas o veganismo se torna um exercício ermitão, que contradiz o que de mais interessante existe nessa ética. Pra mim, veganismo é uma estratégia de combate ao especismo e exploração animal, é uma política de solidariedade entre espécies (incluindo a nossa) e uma maneira prática de reconhecer os animais como sujeitos.

Dito isso, creio que é importante entender que falar em veganismo vai ter significados distintos para quem mora no Plano Piloto e para quem mora em Águas Lindas.  Assim como o veganismo de alguém que mora nos EUA, com Loving Hut no shopping, vai ser uma experiência de práticas e significados distintos do nosso veganismo de 3º mundo. Diferenças que também podem valer entre alguém perto dos 30 que faz suas próprias compras de produtos de limpeza e um moleque de 15 anos que ainda mora com a mãe e ganha um tênis de couro da avó.

Por isso desconfio tanto quando um cara vegan nível 6 como o Gary Francione (não posso deixar de falar: branco, homem, gringo…) fala em “seja vegan” quase como uma obrigação. Sei que rola uma boa intenção, mas me preocupo em ver garotxs da periferia do planeta lendo isso e pensando: “Ou eu viro vegan (nos padrões do colonizador) ou sou um merda explorador”, quando a coisa não deveria funcionar assim.

Menos purismo. Enjaular o veganismo como uma escolha de consumo é igualmente problemático quando pensamos o problema de classe. O veganismo deveria ser mais do que uma lista de produtos a (não)consumir. Quando a gente equivale uma escolha política à uma escolha de consumo, implicitamente estamos reforçando que quem não tem condições de consumir aquilo tampouco possui agência política. E isso é cruel pra caramba.

Ao mesmo tempo, a própria noção de escolha pode ser problematizada como uma das mais sacanas enganações do capital. Algumas poucas empresas dominam a totalidade do mercado e talvez seja inócuo ficar procurando algum tipo de pureza no meio de tanta sujeira. O nosso leite-de-soja-de-cada-dia também está inserido num contexto global de commodities e outras relações macroeconômicas sacanas que praticam mais-valia em cima trabalhadorxs e exploram animais humanos e não-humanos.

O veganismo deve ser uma das nossas táticas e articulações para combater tudo isso e não para fingir que vivemos em outro mundo, de conto de fadas, em que podemos lavar as mãos e dissimular não-crueldade. Somos parte da engrenagem e só tendo consciência da nossa condição de peça é que podemos fazer alguma coisa. É triste pra caramba, mas faz parte de um desencantamento do mundo que acho importante.

Mais veganismo! Como disse anteriormente, não acho que a identificação de problemas e contradições é determinante para o abandono de uma prática política. Pelo contrário, pode ser um momento de reflexão e aprimoramento. Num mundo em que o capital é tentáculo não vai existir espaço que não esteja permeado pelas contradições intrínsecas a esse modo de produção.

Diante disso, o que você vai fazer? Desistência e apatia é a receita que vem nos ensinando no formato de 40hs de trabalho e novela da Globo desde que nascemos. Tô fora dessa.  Qual a lição do Black Flag? Tem alguma coisa que você acha que é certa e não tá acontecendo? Vai lá e faz.

Os restaurantes vegans são mais caros? Podemos criar alternativas. Ingredientes como arroz, feijão, soja, legumes em geral são bastante baratos, bem mais baratos do que carne proporcionalmente. Você pode aproveitar a cozinhar e aproveitar para ressignificar o espaço e as relações da cozinha da sua casa.

Não tem nada pra comer perto da sua casa? Você pode sugerir algumas coisas para a lanchonete ou o restaurante self-service perto da sua casa. Nem todo mundo vai te ouvir, mas temos exemplos positivos aqui no Distrito Vegetal.  Podemos criar redes de solidariedade, como esse blog, pra trocar dicas, receitas, etc.

Costumo fazer muitos paralelos entre veganismo e bicicletas, coisas aparentemente tão distantes, mas que na minha cabeça estão muito próximas. Vejam se faz algum sentido.  Da mesma forma que não dá pra esperar vivermos em uma cidade totalmente adaptada para locomoção não-motorizada pra andar de bicicleta, e que na verdade quanto mais gente andar de bicicleta mais segura será a cidade; não dá pra esperar todas as contradições do veganismo se resolverem para parar de comer carne, leite e ovos e na verdade quanto mais gente promover o veganismo mais fácil, simples e barato será o veganismo nas nossas cidades.

E assim a gente pode ir criando o nosso veganismo. Uma prática própria, local, com nossas contradições e com nossas conquistas.E o mais legal é que tudo pode começar quando você quiser.

Já jantou hoje?